Um reino preparado para nós (Lc 23,35-43) - Aíla Luzia Pinheiro Andrade

Resultado de imagem para mapa brasil rostosIntrodução

Ao longo do ano litúrgico, fizemos a experiência com Jesus que veio “para servir e não para ser servido”. Hoje, celebramos a sua elevação à condição de rei. Todos os espectadores da crucificação esperam que Jesus se livre da cruz, pois é isso que faria qualquer um dos poderosos desse mundo. A prova da realeza ou do poder de Jesus seria o fato de safar-se da cruz. Mas o reino do qual Jesus é rei não é deste mundo, isso significa que a autoridade dele não vem da terra. É um reino diferente, não estabelecido pelas forças das armas, mas com outro tipo de poder, a saber, a doação da própria vida na cruz para nos libertar do pecado e da morte. Nós já participamos do reinado de Jesus Cristo. E enquanto esperamos sua plenitude no fim dos tempos, devemos nos comprometer com seus valores, vivendo o “já” e o “ainda não” desse reino que irrompeu na história.

Lembra-te de mim no teu reino

O trecho do evangelho deste domingo nos mostra Jesus sendo crucificado entre dois malfeitores. Lucas o apresenta com traços típicos de um mártir que, com sua fidelidade e força de oração, obtém a salvação para seus perseguidores.

No Evangelho de Lucas, os que se encontravam com Jesus eram compelidos a fazer uma escolha: aderir ou rejeitar Jesus. Na hora de sua morte, ponto crucial do evangelho, o leitor é convidado a fazer sua escolha. Também aparecem aqui duas mentalidades que perpassaram todo o evangelho, duas maneiras de compreender o messianismo de Jesus. Entender a missão de Jesus é essencial para poder aderir ao seu projeto salvífico. São dois ladrões que representam duas compreensões messiânicas.

O primeiro ladrão representa aqueles que concebem um messias dotado de poderes prodigiosos, que deveria descer da cruz e libertá-los consigo. Assim, seria mais espetacular seu triunfo.

O outro ladrão é o oposto, pois reconhece em Jesus o enviado de Deus, um justo que não merecia estar ali. Este pede que Jesus se recorde dele quando estabelecer seu reino no momento “escatológico” (fim dos tempos).

A resposta de Jesus, suas últimas palavras, acentua o “hoje” de Deus: “Hoje estarás comigo no paraíso”. Quem acolhe Jesus participa de forma definitiva da vida em Deus, não em um futuro distante, mas no hoje. Ou seja, o futuro escatológico da salvação plena já está presente. O paraíso não é um lugar, mas participação na felicidade com Cristo (cf. Fl 1,23). Lucas prefere não identificar o reino geograficamente, pois este se faz “dentro” de cada um (17,21). O reino começa a acontecer na vida daquele que acolhe Jesus e se deixa conduzir por ele. Estar com Jesus não significa simplesmente estar em sua companhia, mas participar de sua realeza.

Na cruz, Cristo aparece dispondo, ele mesmo, da sorte eterna de um homem. E isto é poder de Deus. Em Jesus se manifesta todo o amor de Deus, que desce ao nível mais baixo para elevar a si a criatura humana. Esse é o poder do amor.

Um rei de amor

Para nos fazer contemplar o Rei do Universo, a liturgia põe diante dos nossos olhos a figura de um rei-servidor que morre na cruz sem honrarias nem triunfos. Nu, aniquilado, achincalhado, este rei de miséria inaugura um reino onde o amor, a misericórdia e a compaixão reinam para sempre.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do Domingo 24 de dezembro de 2013, Festa do Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.


Evangelho: Lucas 23,35-43

Rei sim, mas não como os outros

A Bíblia quer expressar algo indizível. Para isso, recorre então a diversos gêneros literários: o mito, a poesia, textos legislativos, relatos... Como o núcleo central visado por esta ronda de escritos nos escape sempre, as palavras usadas não têm mais o seu sentido habitual, nem mesmo a palavra “deus”. Tomemos como exemplo a palavra “pastor”, usada com referência a Davi, a quem Deus tirou de detrás do rebanho de ovelhas para fazê-lo pastor de seu povo, Israel: palavra que com freqüência designa o rei. Pastor esquisito, este. Mesmo sendo apenas um empregado, qualquer pastor normal vive de seu rebanho: as ovelhas o alimentam e o vestem com sua carne e sua lã. Mas, no caso do pastor bíblico, nada disto é o que acontece. No capítulo 10 de João, lemos que o verdadeiro pastor, ao invés de viver das suas ovelhas, é aquele que dá a sua vida por elas. O mesmo tipo de constatação se confirma para todas as palavras que designam o Messias e sua atuação, aí incluída a palavra “redenção” ou “resgate”. O mesmo vale para o “Rei” e o seu “trono”. Corremos o risco de ver este personagem como um ser à parte e que, por seu poder e autoridade, estaria muito distante de nós. E, no entanto, todo o relato bíblico nos vai direcionando para a figura de um “soberano” sem poder algum sobre os seus súditos, submetido às decisões destes até mesmo quando elas o levam à morte. Este que poderíamos imaginar ser uma espécie de autocrata cheio de vontades misteriosas, imprevisíveis e desconcertantes, revela-se enfim como o servidor. O primeiro se faz o último e o “Todo Poderoso” vem a nós sob a forma de “Todo Fraqueza”.

“Este é o rei dos judeus”

Não só dos judeus, mas também dos pagãos; não só dos justos, mas também dos malfeitores. A inscrição irônica colocada no alto da Cruz não exprime isto suficientemente. Os que olham para Jesus crucificado proferindo zombarias não sabem que estão prestes a cumprir as palavras da Sabedoria 2,17-20: “Vejamos se suas palavras são verdadeiras (...) condenemo-lo a uma morte vergonhosa, pois diz que há quem o visite.” Levando Jesus à morte, seus inimigos querem demonstrar que ele não é verdadeiramente rei; nada de tropas que o defendam nem apoiadores que o sustentem. Não compreendem que Jesus vai se mostrar ali mais rei do que qualquer outro rei, só que de outro modo, pois vai sujeitar “o último inimigo, a morte”. Só que o triunfo do Cristo não é deste mundo, como ele declarou a Pilatos, quando este lhe perguntou se de fato ele era rei, título que Jesus jamais se conferiu. Somos vítimas da mesma ilusão que os espectadores da crucifixão quando confundimos a realeza do Cristo, única em seu gênero, com o poder, político ou moral, da Igreja; quando nos afligimos por causa do recuo da fé em certas regiões ou categorias sociais; quando cultivamos a influência. Como anunciar o “Reino” sem gozar de influência? A única boa resposta para esta questão, sem dúvida, é o amor. Para Jesus, ser rei significa dar a sua vida.

Elevado acima de tudo

A segunda leitura nos explica que o Pai nos fez entrar no Reino de seu Filho. Repitamos: não entramos neste Reino como súditos, mas como herdeiros. Somos chamados a compartilhar da realeza do Cristo, quer dizer, dominar todas as forças da criação, tudo o que poderia exercer poder sobre nós, seduzir-nos e nos dominar. Só assim poderemos alcançar a nossa verdade de homens que é ser a imagem e semelhança do Deus invisível. Temos então diante de nós o Cristoque não é outro senão esta verdade que se tornou visível e audível. Todos os que não estão satisfeitos com o caráter ainda muito aproximativo de sua semelhança com Deus escutam a sua voz. Aí reside o seu poder: na atração que exerce sobre nós a nossa própria verdade (ler João 18,36-38). Alcançar a humanidade plena é compartilhar da realeza doCristo. Como isto equivale a fazer nosso o amor que vai até o dom de si mesmo, em vez da vontade de poder e de dominação, eis que está vindo o reino da paz “sobre a terra e nos céus”. Mas estamos ainda sob o regime da violência e das injúrias que Jesus supera, “elevado acima de tudo”. E, no entanto, o Reino já está aí: o malfeitor crucificado com oCristo lhe pede que se lembre dele “quando estiver em seu Reino”. Jesus responde: “Hoje mesmo”. O Reino está aqui desde que aceitemos, na fé e no amor, sermos com o Cristo.

Fonte: CEBI Nacional