Proclamar Libertação (Mateus 24.37-44) - Martin Dreher

Resultado de imagem para liberdadeData Litúrgica: 1º Domingo de Advento
Proclamar Libertação - Volume: XXI

1. O Texto

Nossa perícope faz parte dos últimos discursos de Jesus em Jerusalém, conforme o evangelista Mateus (21.1-25.46). Nos textos anteriores a 24.32, as palavras buscam responder a pergunta pelo sinal da vinda do Filho do homem e pela consumação. Até agora, porém, não foi respondida a pergunta relativa ao quando?. A resposta é dada agora em 24.32-44, seguida de três parábolas (24.45-25.30). O texto, a partir de 24.32, é formado por partes que encontramos na mesma sequência em Marcos (24.32-36 = Mc 13.28-32) e por ditos que também encontramos em Lucas, mas que foram abreviados e retrabalhados por Mateus (24.37-41 = Lc 17.26s.,34s. e 24.43s. = Lc 12.30s.). As tradições reproduzidas são muito antigas; como Mateus as insere no discurso apocalíptico de Jesus, elas necessitam ser reinterpretadas, pois se encontram em certa tensão com o mesmo. Vejamos a perícope.

Vv. 37-39: Mateus assume da fonte de ditos a comparação com os dias de Noé e a emoldura com a dupla referência à vinda do Filho do homem, no início e no fim. A vinda do Filho do homem encontrará uma geração que vive muito segura de si, mas que é por ela surpreendida. Ao contrário dessa geração, a comunidade vê, enquanto o cego não vê, está vigilante, enquanto outros dormem e não vêem o perigo que correm. Enquanto a interpretação rabínica do dilúvio declara que aquela geração teria sido destruída por ser depravada, o texto de Mateus fala de sua vivência diária: está segura de si e, por isso, sua vida se resume em gozar a vida.

Vv. 40-41: Quando da vinda do Senhor, acontecerá uma separação. Mateus traz dois exemplos. O terceiro exemplo mencionado por Lucas (17.34) é deixado de lado. Fala de dois trabalhadores no campo e das duas mulheres que trituram o grão no moinho manual. Sempre uma das duas pessoas será tomada; a outra ficará para trás. Qual a base, a fundamentação para essa separação?

Vv. 42-44: Um dito comparativo e uma admoestação dão resposta a essa pergunta. A admoestação chama à vigilância e a fundamenta com a incerteza quanto à hora da chegada do Senhor: é certo que ele vem; por isso, deve-se vigiar; é incerto quando ele vem, por isso, vigiar. Por quê? Porque o Filho do homem que vem é vosso Senhor. Um dito comparativo procura elucidar a admoestação. Originalmente, o dito dirigia-se ao povo e falava a respeito da vinda do Reino (cf. Evangelho de Tomé nQ 21); em Mateus fala da vinda do Filho do homem e dirige-se aos discípulos. É bom lembrar que a imagem do ladrão passou a fazer parte do vocabulário cristão (l Ts 5.2,4; 2 Pe 3.10; Ap 3.5; 16.15). A admoestação final conclama os discípulos a estarem preparados para qualquer hora, pois, assim como a dona de casa, não sabem quando vai ocorrer aquilo que esperam. Ao contrário da geração que se consome no prazer presente, eles estão abertos para o futuro inaugurado por Jesus e que se completará com sua segunda vinda. Essa abertura consiste em vigiar e estar preparado.

2. A Mensagem

Duas vezes durante o Ano da Igreja somos admoestados a vigiar e a estar preparados, a ter abertura para o futuro que iniciou com a morte e a ressurreição de Jesus: Quaresma e Advento. É tempo de refletir sobre o Advento! Por quê? Porque a comunidade cristã vive à luz do Advento. Cremos que Jesus vem, encerra a história e revela em definitivo o reino de Deus. Assim como anunciamos essa esperança, vivemos a partir daquela que nos é e foi anunciada: o Senhor veio, inaugurando o final dos tempos! A comunidade cristã vive desses dois adventos e é importante que saiba distingui-los. Quando do primeiro advento, vimo-nos confrontados com a criança na manjedoura ou com a cena de um Jesus que entra em Jerusalém no lombo de um burrinho. Mas nosso Advento não vive só do passado, vive também do advento que diz que esse mesmo Jesus virá com o poder do que julga o mundo. Não podemos separar esses dois adventos porque nos dois o próprio Deus vem a nós! No primeiro, esvaziando-se para se colocar completamente do nosso lado; no segundo, para cobrar o seu direito, usando de graça e de juízo.

A comunidade de Jesus Cristo está entre esses dois adventos. Ela não está só. Tem o Senhor presente em seu meio, chamando-a pela Palavra e pelos sacramentos, sinais visíveis da presença e do amor de Deus. Entre o primeiro e o segundo advento, a comunidade celebra continuamente o Advento do Cristo que a ela vem de maneira sempre nova, através da atuação de seu Espírito. Ela é chamada a vigiar. A não se ater a falsas seguranças. E chamada a ver. Como é certo que vem, que vigie! Como não sabe quando vem, que vigie! Que se prepare! Não dá para perder essa!

Fonte: CEBI Nacional