Deus ama os pecadores - Marcel Domergue

Resultado de imagem para zaqueuA reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 31º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo C (30 de outubro de 2016). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

O encontro de Zaqueu com Jesus

A caminho de Jerusalém, Jesus entrou em Jericó e ia atravessar a cidade. Mas não chegou ao final da travessia: o encontro com Zaqueu irá levá-lo a mudar de programa. Os dois Testamentos nos falam seguidamente deste Deus que, longe de ser imutável, modifica as suas intenções em função do que encontra no homem.

Não chegou Ele, em Jesus Cristo, até mesmo a renunciar à sua "forma de Deus", como diz Filipenses 2,6? Temos então, aqui, o encontro de Jesus com este homem ilustre; um chefe, muito rico, a serviço dos invasores. À primeira vista, este homem tem de tudo. E, no entanto, algo lhe falta: dispõe de tudo com fartura, mas, mesmo assim, "procura ver quem era Jesus".

Já ouvira, com certeza, falar dele, tendo compreendido haver algo mais importante do que a riqueza, a autoridade e a situação social. Em resumo, permaneceu como um homem de desejo. Desejo, a princípio, impossível de ser satisfeito, pois ele não está à altura: o seu tamanho pequeno não é um fato apenas físico nem a multidão um obstáculo somente material para o seu encontro com Cristo, conforme mostra o versículo 7.

Podemos mudar? - José Antonio Pagola

Resultado de imagem para zaqueuLucas narra o episódio de Zaqueu para que os seus leitores descubram melhor o que podem esperar de Jesus: o Senhor que invocam e seguem nas comunidades cristãs «veio procurar e salvar o que estava perdido». Não o irão de esquecer.

Ao mesmo tempo, com seu relato da atuação de Zaqueu ajuda a responder à pergunta que não poucos levam no seu interior: Realmente posso mudar? Não é já demasiado tarde para refazer uma vida que, em boa parte, deixei perder? Que passos posso dar?

Zaqueu é descrito com dois traços que definem com precisão a sua vida. É «chefe de publicanos» e é «rico». Em Jericó todos sabem que é um pecador. Um homem que não serve a Deus mas sim ao dinheiro. A sua vida, como tantas outras, é pouco humana.
No entanto, Zaqueu «procura ver Jesus». Não é mera curiosidade. Quer saber quem é, que se encerra neste Profeta que tanto atrai as pessoas. Não é tarefa fácil para um homem instalado no seu mundo. Mas este desejo de Jesus vai mudar a sua vida.

Para ver Jesus, Zaqueu terá que superar diferentes obstáculos. É «baixo de estatura», sobre tudo porque a sua vida não está motivada por ideais muito nobres. Outro impedimento são as pessoas: terá que superar preconceitos sociais que lhe tornam difícil o encontro pessoal e responsável com Jesus.

Hoje, a salvação entrou nesta casa (Lc 19,1-10) - Tomaz Hughes

Resultado de imagem para zaqueu jesusDe novo entra em cena a figura de um “publicano”, desta vez de nome conhecido - Zaqueu! Os governantes arrendavam áreas do país para publicanos ricos, que embolsavam o que conseguiram extorquir além das taxas estabelecidas. Estes chefes dos publicanos (p. ex . Zaqueu) empregavam outros para fazer a cobrança - e enfrentar a celeuma do povo - sentados nos telônios nas portas das cidades e nas encruzilhadas das rotas das caravanas (p. ex. Levi).

Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos da cidade de Jericó, e por isso, por causa da sua extorsão, muito rico - e com certeza muito odiado e desprezado.

Porém, Lucas nos mostra que ninguém é tão perdido que não possa ser salvo pela misericórdia de Deus. Ninguém está além da possibilidade de salvação. Com umas rápidas pinceladas, ele traça o caminho da conversão e salvação de Zaqueu.

Com certeza, Zaqueu tinha ouvido falar da atividade e dos ensinamentos de Jesus, e tinha uma enorme vontade de conhecer mais de perto este homem tão diferente dos outros rabinos, ou mestres religiosos, do seu tempo. Nem levava em conta perder a sua dignidade, subindo em uma árvore - o importante mesmo era não perder o momento de Jesus passar. Jesus acolhe este gesto de busca - olha mais para esta chama de bondade do que para toda a maldade praticada anteriormente por Zaqueu. Pronuncia as palavras que iriam mudar para sempre a vida de Zaqueu: “Desça depressa, Zaqueu, porque hoje preciso ficar em sua casa.” (v. 5)

Rumo à Suécia: católicos e luteranos entre memória e globalização

Resultado de imagem para 500 anos reforma luteranaExiste um longo trabalho por trás da comemoração comum da Reforma programada para o próximo dia 31 de outubro, na Suécia: o documento "Do conflito à comunhão", as divisões e as guerras do passado, o ecumenismo na época da secularização do confronto Norte-Sul.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Vatican Insider, 23-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No dia 31 de outubro, Francisco estará em Lund, na Suécia, para participar, junto com vários representantes da Igreja Luterana, de uma cerimônia comemorativa dos 500 anos da Reforma. Um evento ecumênico no mínimo excepcional, se olharmos para os últimos cinco séculos de história europeia e mundial, e se, apenas por um momento, considerarmos a série de fatos formidáveis e, muitas vezes, trágicos decorrentes da escolha do monge Martinho Lutero de pendurar as suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg.

Por outro lado, por trás do encontro que irá ocorrer no dia 31 de outubro, há um longo trabalho de preparação: pensava-se em uma comemoração compartilhada há diversos anos, e, para esse fim, foi feito um percurso articulado.

Nas últimas semanas, tinha sido o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, que deu algumas informações importantes em uma entrevista ao jornal L'Osservatore Romano. Sobre como católicos e luteranos prepararam a cerimônia comum, ele explicou: "Trabalhamos em um documento que indique como católicos e luteranos podem comemorar juntos a Reforma. Intitula-se 'Do conflito à comunhão', e é a base do guia litúrgico católico-luterano 'Oração comum', que será usado no dia 31 de outubro para a cerimônia na Catedral de Lund".

Pobreza rural atinge 60 milhões de pessoas na América Latina, diz OIT

Resultado de imagem para pobresRelatório da Organização Internacional do Trabalho diz que 56% dos trabalhadores nas áreas rurais da região – e do Caribe – estão em situação de vulnerabilidade, contra 27% nas áreas urbanas

A taxa de pobreza rural atinge 46,2% da população da América Latina e do Caribe, informou no dia 20 a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ela afeta 60 milhões de pessoas no campo. A taxa de pobreza urbana nessa região é de 23,8%.

A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) informa que 56% dos 52 milhões de trabalhadores rurais caribenhos e latino-americanos estão em situação de vulnerabilidade (salários baixos, pobreza, poucas proteções sociais) nas áreas rurais. O dobro do constatado nas áreas urbanas, 27%.

O diretor-regional da OIT para a América Latina e Caribe, José Manuel Salazar, disse que as zonas rurais recebem menos investimentos públicos e privados em infraestruturas produtivas e sociais.

30 anos do CEBI-ES: Caminhando e Celebrando nossa história

Olá amigos! No dia 23 de outubro de 2016 nos reunimos no colégio Agostiniano, em Vitória para Celebrarmos os 30 anos de nossa caminhada. 
Com a presença de Carlos Mesters e companheiros e companheiras de vários lugares do Espírito Santo, pudemos celebrar as descobertas dessas 3 décadas juntos. Foi um momento de fortes emoções e renovação da nossa esperança de dias melhores e da nossa persistência em levar a bandeira da reflexão da leitura popular da Bíblia.
Dia de festa, de reza, de encontro e partilha. 
Que bonito foi celebrar com tantas irmãs e irmãos!

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Convite CEBI-ES 30 anos

Convite para a Celebração dos 30 anos do CEBI-ES

Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador (Lc 18,9-14) - Tomaz Hughes

Resultado de imagem para rezandoO tema da oração continua no trecho de hoje - Jesus mostra que não basta somente rezar, pois muito depende das nossas atitudes enquanto rezamos. Por isso, ele nos conta mais uma parábola que só Lucas relata - a do “Fariseu e do Publicano”.

Para entender bem esta passagem, é imprescindível que nós entendamos o significado dos termos “Fariseu” e “Publicano”. Os fariseus formavam um partido religioso-político, nascido dos “fiéis observadores da Lei”, ou “Hasidim” dos tempos da revolução dos Macabeus. Eles romperam com as ambições políticas dos Hasmoneus (dinastia dos Macabeus) e formaram o seu grupo dos “separados”, que parece ser o sentido da palavra “Fariseu”. Eles primaram pela observância rigorosa da Lei, embora entre eles existissem diversas escolas de interpretação. 

Em nossa linguagem, a palavra “fariseu” normalmente significa “hipócrita” - uma injustiça aos fariseus, que eram, na maioria absoluta, gente sincera de uma ascese rigorosa em busca da fidelidade à Lei de Deus. Provavelmente estamos muito influenciados pelo Capítulo 23 de Mateus, uma das páginas mais virulentas do Novo Testamento, que reflete mais a situação de perseguição dos cristãos pelos fariseus pelo ano 85, do que a situação no tempo de Jesus. A grande crítica de Jesus contra este grupo não era por motivos de moral, mas porque, confiando na observação externa da Lei como garantia de salvação, tiraram a gratuidade de Deus, que nos salva “de graça”.

O clamor dos que sofrem - José Antonio Pagola

Resultado de imagem para protesto mulherA parábola da viúva e do juiz sem escrúpulos é, como tantos outros, um relato aberto que pode suscitar nos ouvintes diferentes ressonâncias. Segundo Lucas, é uma chamada para orar sem desanimar-se, mas é também um convite para confiar que Deus fará justiça a quem lhe grita dia e noite. Que ressonância pode ter hoje em nós este relato dramático que nos recorda tantas vítimas abandonadas injustamente à sua sorte?

Na tradição bíblica a viúva é símbolo por excelência da pessoa que vive só e desamparada. Esta mulher não tem marido nem filhos que a defendam. Não conta com apoios nem recomendações. Só tem adversários que abusam dela, e um juiz sem religião nem consciência a quem não importa o sofrimento de ninguém.
O que pede a mulher não é um capricho. Só reclama justiça. Este é o seu protesto repetido com firmeza ante o juiz: “Faça-me justiça”. A sua petição é a de todos os oprimidos injustamente. Um grito que está na linha do que dizia Jesus aos seus: "Buscai o reino de Deus e a sua justiça".

É certo que Deus tem a última palavra e fará justiça a quem lhe grita dia e noite. Esta é a esperança que acendeu em nós Cristo, ressuscitado pelo Pai de uma morte injusta. Mas, enquanto chega essa hora, o clamor de quem vive gritando sem que ninguém escute o seu grito, não cessa.

Convite CEBI-ES 30 anos

Uma fé que protesta [Adroaldo Palaoro]

Resultado de imagem para vela“Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” Lc 18,8

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, sacerdote jesuíta, comentando o evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum (16/10/2016) que corresponde ao texto de Lc 18,1-8.

Na parábola de hoje, dois personagens ocupam a cena. Um juiz que “não teme a Deus” e “não respeita as pessoas”; é um homem surdo à voz de Deus e indiferente aos sofrimentos dos oprimidos.

De outro lado, a parábola fala de uma viúva que tem fé e que protesta, pedindo justiça, apesar da insensibilidade do juiz.

Quê ressonâncias pode encontrar hoje em nós este relato dramático que nos lembra tantas vítimas abandonadas injustamente à própria sorte?

Na tradição bíblica, a viúva é, junto com o órfão e o estrangeiro, o símbolo por excelência da pessoa indefesa que vive desamparada, a mais pobre dos pobres.

A “viúva” é uma mulher sozinha, sem a prote-ção de um esposo e sem apoio social algum. Só tem adversários que abusam dela.
A pobre viúva, no evangelho de hoje, longe de resignar-se, clama por justiça; ela não tem outra coisa a não ser sua voz para gritar e reivindicar seus direitos. Toda sua vida se transforma num grito de protesto: “faze-me justiça!”. Seu pedido é o de todos os oprimidos injustamente. Um grito que vai ao encontro daquilo que Jesus dizia aos seus seguidores: “Buscai o Reino de Deus e sua justiça”.

De fato, se observarmos bem o conteúdo do relato e a conclusão do mesmo Jesus, vemos que a chave da parábola é a “sede de justiça”. A expressão “fazer justiça” é repetida quatro vezes. A viúva do relato é exemplo admirável de uma mulher corajosa que luta pela justiça em meio a uma sociedade corrupta que explora os mais fracos.

Francisco e Welby: Declaração Comum anglicano-católica

“Há cinquenta anos os nossos predecessores, Papa Paulo VI e o Arcebispo Michael Ramsey, encontraram-se nesta cidade, tornada sagrada pelo ministério e pelo sangue dos Apóstolos Pedro e Paulo. Mais tarde, João Paulo II e os Arcebispos Robert Runcie e George Carey, o Papa Bento XVI e o Arcebispo Rowan Williams, rezaram juntos nesta Igreja de São Gregório al Celio, de onde o Papa Gregório enviou Agostinho para evangelizar os povos anglo-saxões. Em peregrinação ao túmulo destes Apóstolos e Santos Padres, Católicos e Anglicanos se reconhecem herdeiros do tesouro do Evangelho de Jesus Cristo e do chamado para compartilhá-lo com todo o mundo.

Recebemos a Boa Nova de Jesus Cristo por meio das vidas santas de homens e mulheres, que pregaram o Evangelho em palavras e obras, e fomos encarregados, e animados pelo Espírito Santo, para sermos testemunhas de Cristo “até os confins do mundo” (At 1,8). Estamos unidos na convicção de que “os confins da terra” hoje não representam somente uma expressão geográfica, mas um chamado a levar a mensagem salvífica do Evangelho, em modo particular àqueles que estão à margem e na periferia das nossas sociedades.

Em seu histórico encontro de 1996, o Papa Paulo VI e o Arcebispo Ramsey, instituíram a Comissão Internacional anglicano-católica com o objetivo de perseguir um sério diálogo teológico que, “alicerçado nos Evangelhos e nas antigas tradições comuns, conduza à unidade na Verdade pela qual Cristo rezou”.

Cinquenta anos mais tarde, damos graças pelos resultados da Comissão Internacional anglicano-católica, que examinou doutrinas que criaram divisões ao longo da história, a partir de uma nova perspectiva de mútuo respeito e caridade. Hoje somos agradecidos em particular pelos documentos do ARCIC II, que examinaremos, e aguardamos as conclusões do ARCIC III, que está procurando avançar nas novas situações e nos novos desafios para a nossa unidade.

Líderes religiosos assinam, em Assis, apelo pela paz

Líderes religiosos assinaram no dia 20/09/16 um apelo pela paz como fruto do Encontro Internacional pela Paz realizado em Assis, Itália. O apelo foi entregue a crianças, que o levarão aos representantes das nações.

O apelo traz uma firme condenação aos atos de violência em nome da religião e um forte apelo para construir a paz verdadeira. “A guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso”.

Com a guerra todos perdem, inclusive os vencedores, destacam os líderes religiosos. Reconhecendo a necessidade de rezar constantemente pela paz, eles se colocaram à escuta de todos atingidos pelas guerras – pobres, crianças, mulheres, jovens – para clamar uma vez mais: “Não à guerra! Não caia no vazio o grito de dor de tantos inocentes (…) Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração”.

Esse encontro em Assis acontece 30 anos depois que João Paulo II convidou líderes religiosos para que lá se unissem a fim de rezar pela paz. Desse momento histórico, reconhecem hoje os líderes religiosos, inúmeros crentes foram envolvidos no diálogo e na oração pela paz, unindo sem confundir e gerando amizades inter-religiosoas. “Este é o espírito que nos anima: realizar o encontro no diálogo, opor-se a todas as formas de violência e abuso da religião para justificar a guerra e o terrorismo”.

Ao final do encontro, o tradicional abraço da paz entre os líderes religiosos. 

Confira, a seguir, a íntegra do apelo:

Oração: Sou professor, Senhor - Waldir Martins

Resultado de imagem para professoraSenhor,sou professor,
preciso aprender um pouco mais.
Ante os desafios que são postos
vejo-me insuficiente para avançar.
Tenho pela frente a árdua missão
com palavras, gestos e ações
Tocar pessoas, compreender mentes,
chegar mais perto dos corações.

São tantas vidas que se aproximam
olham para mim e esperam algo mais
descubro que sem a tua força
Nada pode ser feito, não há outro jeito
Senão imergir em Ti para ter o que dividir.

Gostaria de entender alguns porquês
por vezes sinto que a cada dia que passa
os espaços outrora solenes e convidativos
estão esvaziados de sentido.
Cobram-me mais garra, mais empenho
Querem que eu tenha mais paixão
Que entregue a alma
Não importa o to$tão.

Que haja entrega, agrura e sacrifício
O âmago do ofício é o compromisso
Sem nada cobrar, apenas se doar
Como se gente não fosse
Apenas uma entidade chamada professor.

Por favor, Senhor, abra-me os olhos
para ver além das letras,
para ler mais que meras palavras
reencontrar a magia do meu trabalho.

Se não há rumo, mostra-me atalhos,
Pois quero chegar mais perto
Atravessar este deserto
Trilhando-o em busca do sonho
De ser alguém que um dia
Em quimeras danças a deslizar
Quis alcançar o topo naquele reino
Onde o mestre se despe

Para vestir-se de amor
E pelo amor viver e morrer.
Amém!

*Por Pastor Waldir Martins, da igreja batista e membro do CEBI-BA.

Oração: suspiro da criatura oprimida - Rev. Luiz Carlos Ramos

Resultado de imagem para oraçãoLucas 18.1-8

Jesus contou uma parábola para convencer os discípulos de que eles não deviam desanimar facilmente em suas orações, e que esta prática requer perseverança:

— Em certa cidade havia um juiz que não temia a Deus, nem respeitava os direitos humanos. Nessa mesma cidade vivia uma viúva que suplicava insistentemente por uma audiência, para pedir justiça: “Ajude-me, aplicando a lei que garante o meu direito, nesta disputa judicial contra o meu oponente!”

— Durante muito tempo o juiz não fez caso da viúva. Mas afinal pensou melhor: “É verdade que eu não temo a Deus e também não respeito os direitos humanos. Porém, como esta viúva não para de me importunar, vou cuidar logo para que a justiça seja feita no seu caso. Porque se eu não fizer isso, ela não vai parar de me amolar e vai acabar me prejudicando.”

E Jesus continuou:

— Perceberam o que foi que o juiz injusto fez? Vocês não acham então que Deus, que não se compara a esse juiz, deixaria de fazer justiça a favor do seu próprio povo, que suplica por socorro dia e noite? Vocês acham que Deus se demoraria em vir ajudá-lo? Eu afirmo a vocês que, muito diferente do juiz injusto, ele julgará a favor do seu povo e fará isso sem morosidade alguma.

Mas…, pensando bem, quando o Filho do Homem vier, será que ainda encontrará fé na terra?

* * *

A viúva da parábola precisava do socorro da justiça, neste caso, não tanto da divina, mas daquela dos fóruns humanos. Como se vê, nem nos tempos de Jesus o sistema judiciário era muito confiável. Neste caso, Jesus diz explicitamente que se tratava de um juiz iníquo. Esperar justiça de alguém assim é desalentador.

Será que o Filho do Homem vai encontrar a fé sobre a terra? (Lc 18,1-8) - Tomaz Hughes

Resultado de imagem para apoioEmbora possa parecer que o tema deste trecho seja simplesmente a oração, na realidade Lucas o liga ao trecho anterior (17, 22-37), que versava sobre a segunda vinda de Filho do Homem, através da referência em v. 8: “Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?” Então devemos entender o sentido original do texto em referência à situação das comunidades do fim do primeiro século - Jesus tardava a retornar, as perseguições estavam no horizonte, as comunidades estavam sofrendo vários tipos de pressão, e a fé delas começava a vacilar. Por isso Lucas quer dar-lhes um ensinamento claro - Deus não vai abandoná-las, então, devem ficar firmes, constantes na oração até que Ele venha.

O tema da oração cristã já foi tratado no capítulo 11 de Lucas. Aqui volta à tona. O versículo 8 mostra que não se refere à simples oração permanente, mas à uma atitude de oração baseada na fé, até que Jesus volte.

Jesus tira uma mensagem de uma situação que devia ter sido comum nos tempos idos (sem falar da atualidade!) - a impotência de uma pobre mulher diante da prepotência de um juiz corrupto. Por ser viúva em uma sociedade patriarcal e machista, ela encarna a impotência dos pobres e marginalizados diante dos poderes do mundo. Faz lembrar a denúncia do profeta Miquéias, estudado mês passado no Mês da Bíblia: “Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder em suas mãos” (Mq 2,1).

O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância

Resultado de imagem para meninasPor Eliziane Lara

Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.

Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.

Quem faz o quê em casa

Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).

A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.

A viúva que enfrenta o juiz: Impaciência e persistência como modelo de fé e oração (Lucas 18,1-8) - Odja Barros

Resultado de imagem para mulher lutaA parábola da viúva persistente de Lucas 18,1-8 é material exclusivo do Evangelho de Lucas. Não se encontra nos outros Evangelhos e tem por tema principal a persistência na oração aqui entendida e vinculada à ação. A mulher viúva é tomada como exemplo da oração que agrada a Deus. Sua ação incansável e obstinada em busca da justiça e do direito é o exemplo maior de fé e oração esperada por Deus.

Essa parábola na maioria das vezes é superficialmente interpretada limitando a força da parábola apenas à persistência na oração. Ignora-se que, para além da persistência na oração, a parábola traz uma mensagem forte de luta incessante, persistente e impaciente pela justiça. Luta que uma pobre viúva enfrenta diante de um insensível juiz. Ela o enfrenta com uma atitude obstinada e até agressiva em busca de justiça.

O que nos conta a Parábola?

A parábola apresenta certa cidade onde havia um juiz que não temia a Deus e não se importava com as pessoas. Na mesma cidade, havia também uma viúva que se dirigia continuamente a ele dizendo: "Faz-me justiça contra meu adversário!" (18,2-3). O juiz está bem descrito: Ele é um juiz que não teme a Deus e nem se importa com as pessoas. E sobre a viúva? O que é dito? Não é apresentada qualquer informação sobre ela, não se sabe sequer qual era a causa que aflige o direito dessa mulher.

Sabe-se apenas que ela está sendo prejudicada nos seus direitos por causa de alguém denominado de "adversário" e que por isso procura o juiz a quem se dirige de forma contínua e persistente, travando uma luta obstinada e incansável pela justiça.

Somos regenerados pela compaixão e enviados em missão! - Itacir Brassiani

Resultado de imagem para compaixãoA travessia que Jesus e seus discípulo estão realizando não é apenas geográfica. É uma caminhada consciente e tem um rumo preciso: Jesus se dirige a Jerusalém, onde enfrentará os poderes religiosos e políticos e revelará a compaixão de Deus pelos excluídos. Ele faz essa passagem com um objetivo muito claro: desloca-se da periferia social ao centro político, transforma os últimos em primeiros, aprecia quem é desprezado, revela a presença de Deus na contramão da história e da religião. E, de tabela, potencializa a força emancipadora mais ou menos adormecida em cada ser humano.

Na Samaria, um grupo de leprosos deixa o fechado círculo de um pequeno povoado e se aproxima de Jesus. Parece que a ideologia estreita e fechada da cidade fazia mal a eles, pois costuma considerar culpáveis e proscritos os pobres, os doentes, os rebeldes, os diferentes. Mas, em vez de cumprir as prescrições e anunciar claramente a própria impureza, permanecendo assim longe das pessoas consideradas puras, eles reconhecem Jesus como mestre e gritam: “Tem compaixão de nós!” Há algo muito especial que faz com que este grupo de leprosos saia da cidade em busca de uma mudança...

Este pedido brota da dor de serem excluídos. Por trás da súplica, está a situação dramática que vivem todos aqueles que são infectados pela lepra e pela ideologia estreita e escravizadora do judaísmo daquele tempo. Mas o grito quase desesperado implorando compaixão também é revelador de uma embrionária consciência de que Deus não vira o rosto nem fecha o coração diante do drama que vivem os doentes, discriminados e excluídos. Mesmo sem conseguir reconhecer claramente a identidade de Jesus apelam a algo que é essencial em Deus: sua compaixão em favor dos marginalizados.

Muitos são os agraciados, mas poucos, os agradecidos - Rev. Luiz Carlos Ramos

Resultado de imagem para agradecimentoJesus seguia viagem para Jerusalém. O caminho que escolheu o obrigou a passar por entre as regiões da Samaria e da Galileia. Quando estava entrando num povoado, vieram ao seu encontro dez leprosos. Eles pararam a certa distância, como a lei exigia, mas de longe gritavam: — Jesus, Mestre, tenha misericórdia de nós!

Ao vê-los, Jesus lhes disse: — Vão e apresentem-se aos sacerdotes para que eles examinem vocês e vejam que estão purificados.

Quando iam pelo caminho, se deram conta de que estavam de fato curados. Aconteceu que um deles, que era samaritano, quando viu que estava curado, voltou louvando a Deus em voz alta. Ajoelhou-se aos pés de Jesus e lhe dava muitas graças.

Jesus disse: — Não eram dez, os que estavam contigo e foram curados? Onde estão os outros nove? Por que somente este estrangeiro voltou para glorificar a Deus?

Então Jesus disse ao homem agradecido: — Levante-se e siga o seu caminho. Você foi salvo por sua fé. (Lucas 17.11-19)

* * *

Reverendo Peter Gilhuis, que é holandês, trabalhou muitos anos como missionário no Brasil. Ouvi dele um relato que me marcou e do qual nunca me esqueci.

Como se sabe, a Holanda tem grande parte do seu território abaixo do nível do mar (cerca de 27% de sua área e 60% de sua população). Isso só é possível graças aos diques e barragens que foram edificados ao longo dos séculos para conter a água do mar, e garantir as condições de vida em seu território, literalmente, conquistado ao mar.

Juventude do CEBI-ES Convida


O samaritano, exemplo de gratidão (Lc 17,11-19) - Carlos Mesters

Resultado de imagem para gratidãoNo texto de hoje, aparece outro assunto muito próprio de Lucas: a gratidão. Saber viver em gratidão e louvar a Deus por tudo que dele recebemos. Por isso, Lucas fala tantas vezes que o povo ficava admirado e louvava a Deus pelas coisas que Jesus realizava (Lc 2,28-38; 5,25-26; 7,16; 13,13; 17,15-18; 18,43; 19,37; etc.). Além disso, no Evangelho de Lucas, há vários cânticos e hinos que expressam esta experiência de gratidão e de reconhecimento (Lc 1,46-55; 1,68-79; 2,29-32). 

Comentando

1. Lucas 17,11: Jesus em viagem para Jerusalém

Lucas lembra que Jesus estava de viagem para Jerusalém, passando da Samaria para a Galileia. Desde o começo da viagem (Lc 9,52) até agora (Lc 17,11), Jesus andou pela Samaria. Isto significa que os importantes ensinamentos dados nestes capítulos (9 a 17) foram todos dados em território que não era judeu. Ouvir isto deve ter sido motivo de muita alegria para as comunidades de Lucas, vindas do paganismo.

2. Lucas 17,12-13: O grito dos leprosos

Dez leprosos aproximam-se de Jesus, param ao longe e gritam: "Jesus, mestre, tem piedade de nós!" O leproso era uma pessoa excluída. Não podia aproximar-se dos outros (Lv 13,45-46). Qualquer toque num leproso causava impureza e criava um impedimento para a pessoa poder dirigir-se a Deus. Através do grito, eles expressam a fé de que Jesus pode curá-los e devolver-lhes a pureza. Obter a pureza significava sentir-se, novamente, acolhido por Deus, poder dirigir-se a Ele para receber a bênção prometida a Abraão.

3. Lucas 17,14: A resposta de Jesus e a cura

Em que Deus acreditamos? - Dom Pedro Casaldáliga

Resultado de imagem para fé“Com a metáfora da semente de mostarda, Ele não está questionando o “tamanho” ou a quantidade da fé, senão a qualidade da mesma”.

O comentário do Evangelho correspondente ao 27º Domingo do Tempo Comum (02-10-2016) é elaborado por Maria Cristina Giani, Missionária de Cristo Ressuscitado.
Evangelho de Lucas 17, 5-10

Os apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé!» O Senhor respondeu: «Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a esta amoreira: ‘Arranque-se daí, e plante-se no mar’. E ela obedeceria a vocês.

Se alguém de vocês tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Venha depressa para a mesa’? Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepare-me o jantar, cinja-se e sirva-me, enquanto eu como e bebo; depois disso você vai comer e beber’? Será que vai agradecer ao empregado, porque este fez o que lhe havia mandado? Assim também vocês: quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: ‘Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer’.»
Eis o comentário

O evangelho de hoje começa abruptamente com um pedido que pode soar até desesperado por parte dos discípulos: “Aumenta a nossa fé!”. Se lermos o versículo anterior, talvez entenderemos melhor a necessidade deles.

Para uma espiritualidade política - Marcelo Barros

Resultado de imagem para política"A Política como atividade espiritual pode ser vista como um novo templo divino, porque é o espaço formador da dignidade coletiva de um povo", escreve Marcelo Barros, monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro.

Eis o artigo.

Para muitas pessoas que seguem caminhos espirituais, a Política nada tem a ver com a Espiritualidade. Pensam a fé como exclusiva relação com Deus e expressa nas devoções. A Política fica, então, restrita ao exercício do poder na sociedade. Quando se separa a espiritualidade da vida real, as eleições se reduzem a um ritual político, repetido a cada quatro anos, enquanto a espiritualidade é reduzida ao mundo religioso.

Na realidade, a vida não é assim, fragmentada em compartimentos separados. O compromisso político vai muito além das eleições, assim como a Espiritualidade se expressa em todos os campos da vida e não só no religioso. Simone Weil, pensadora francesa da primeira metade do século XX, afirmava: "Conheço quem é de Deus não quando me fala de Deus e sim pelo modo de se relacionar com os outros".

Nos séculos passados, por não terem claro essa relação entre o compromisso ético da fé e a dimensão espiritual da Política, as próprias estruturas das Igrejas e religiões, assim como a maioria dos religiosos, deram aparência religiosa a guerras e violências indescritíveis. Na Índia, as religiões deram aparência espiritual ao sistema social das castas. Na África do Sul, durante séculos, cristãos protestantes justificaram o apartheid. No mundo inteiro, católicos e evangélicos legitimaram o Colonialismo. Foram coniventes com o racismo e com injustiças sociais. Até hoje, no Congresso brasileiro, um grupo de parlamentares se dizem evangélicos. Sem nenhuma preocupação com a Ética, sem compromisso com a justiça e menos ainda com o serviço ao povo, a maioria exerce o mandato para defender interesses de seus grupos religiosos ou, pior ainda, simplesmente enriquecer. Em nome de um Deus cruel, amigo apenas dos seus amigos e vingativo em relação aos demais, eles fortalecem as desigualdades sociais.