Um patrão muito esquisito…

Resultado de imagem para administradorJesus contou aos discípulos ainda a seguinte estória:

«Havia um rico proprietário de terras cujo administrador fora denunciado por malversação dos recursos que estavam a seu encargo.

«Diante disso, o patrão chamou o administrador e lhe disse: “É mesmo verdade isso tudo que que estão me contando a seu respeito? Assim sendo, e já que você não diz nada em sua defesa, só lhe resta entregar os livros contábeis, porque você não pode mais continuar sendo um administrador.”

«Despedido do seu emprego, o administrador pensou consigo: “E agora, o que será de mim? Estou liquidado. Como haverei de sobreviver? Já não tenho vigor para voltar para a roça, nem forças para tornar a pegar na enxada. E não suportaria a vergonha se tiver que vir a pedir esmolas. Mas…, espere um pouco, tive uma ideia! Já sei como abrir a porta de algumas casas que poderão vir a me oferecer trabalho assim que eu sair daqui.”

«E tratou de pôr sua ideia em prática: Convocou um por um dos devedores do patrão e perguntou ao primeiro: “De quanto é mesmo a sua dívida?” “Cem barris de azeite” respondeu ele. “Exato, e aqui está o contrato que você assinou”, disse o administrador. “Agora, rasgue-o depressa e assine outro dizendo que deve cinquenta barris.”

Mandou entrar o segundo e lhe perguntou? “E você, quanto lhe deve?” “Cem sacos de trigo.” “Vê, aqui está a promissória, troque-a por esta outra de apenas oitenta Sacos.”

«O homem rico não teve alternativa senão reconhecer e elogiar a astúcia daquele velhaco.

«Moral da estória: Os filhos das trevas são bem mais espertos nas coisas que lhes dizem respeito do que os filhos da luz.»

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«Querem uma sugestão? Se lhes cair nas mãos dinheiro sujo [porventura há dinheiro que não o seja?], em lugar de comprar coisas, comprem amigos. De modo que se vocês vierem a ficar na miséria, esses amigos os recebam na mansão eterna.

«Porque, a regra é clara: se vocês não forem dignos de confiança nas riquezas materiais, que têm origem injusta, quem será o tolo que os colocará como responsáveis pelas justas e verdadeiras riquezas?

«Se vocês não se mostraram leais ao aplicar o dinheiro dos outros, por que haveriam de, um dia, ter o direito de cuidar do seu próprio dinheiro?

«Até hoje ninguém conseguiu servir a dois patrões, simultânea e satisfatoriamente. Porque, mais cedo ou mais tarde, acaba gostando mais de um e desprezando o outro e, consequentemente, se dedica mais a um e negligencia o outro.

«Acreditem!, vocês nunca conseguirão servir, ao mesmo tempo e com a mesma devoção, a Deus e ao dinheiro.» (Lucas 15.1-3)

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A Parábola do Administrador Corrupto é considerada pelos exegetas, hermeneutas e homiletas, como sendo uma das mais difíceis de se compreender. O próprio Bultmann, considerado um dos maiores biblistas de todos os tempos, chegou à conclusão de que essa parábola não tem solução.

Não é para menos, pois dela pode-se facilmente inferir que Jesus está respaldando práticas absolutamente contrárias aos mais elementares princípios éticos e morais. Se não, vejamos:

O herói da estória é um funcionário fraudulento e corrupto que dera um desfalque no seu patrão;

O patrão parece relapso, pois não constitui uma CPI para investigar, apurar e punir o funcionário desonesto, nem exige o ressarcimento do montante defraudado – limita-se, tão somente, a demití-lo;
Os arrendatários agem como cúmplices do administrador desonesto, pois aceitam o suborno, em flagrante ato de corrupção passiva;

A impunidade parece ser exaltada, pois ao que tudo indica o funcionário desonesto, conquanto tenha perdido o emprego, não perderá suas mordomias.

Por fim, o velhaco e os filhos das trevas são elogiados, enquanto os filhos da luz são ridicularizados, e se chega a sugerir que devemos comprar amigos com dinheiro sujo, para mais tarde receber deles, em troca, alguns favores.

Estas, por si só, já se constituem bom quebra-cabeças exegético-hermenêutico-homilético. Ora, se Bultmann, que era Bultmann, não conseguiu explicar, quem sou eu para ter essa pretensão. Uma coisa sabemos, no entanto: justamente por causa dessas incongruências, temos alguma certeza de que se trata de material autêntico e pouco manipulado nos processos de redacionais pelos quais passou o Evangelho mais tardiamente.

Pois bem, aí está a nossa perícope, e já que o Lecionário a tornou incontornável para nós, pregadoras e pregadores, encaremo-la com fé e força.

Ao que tudo indica, os primeiros interlocutores encaravam estórias como essas de maneira distinta de como o fazemos atualmente.

Na verdade, eles se deliciavam com tais anti-heróis (é como o Davizinho derrotando o brutamontes Golias). Esse mordomo não é o único herói controverso das parábolas de Jesus. Tem também o juiz iníquo, que só julga mediante a aporrinhação da viúva; tem o vizinho rabugento, que não quer ser perturbado à noite; e tem ainda o homem que passa o outro para trás, comprando dele um terreno no qual havia um tesouro escondido; e assim por diante.

Kenneth Bailey sugere que, nessas estórias, se esteja empregando o princípio rabínico “do leve para o pesado”. Assim, para entender o desfecho, deve-se levar em conta a expressão “quanto mais…”. Isto é, se a viúva recebeu o que precisava dessa espécie de juiz (18.1-9), quanto mais haveremos de receber de Deus? Se aquele homem recebeu pão, tarde da noite, de um vizinho tão rabugento (11.5-7), quanto mais nós haveremos de receber de Deus? Se este administrador desonesto resolveu o seu problema confiando na misericórdia do seu senhor, quando mais Deus nos ajudará a enfrentar as nossas crises, se confiarmos nas suas misericórdias?

Desse ponto de vista, em última instância, o “herói” da parábola não é o mordomo infiel (como não o eram o juiz iníquo, ou o vizinho rabugento), mas Deus! Deus está muito acima de qualquer protagonista humano. “Se assim os homens, quanto mais Deus…?”

No caso desta parábola, especificamente, a pergunta chave seria algo como: “Se os velhacos/filhos deste século são assim astutos em relação ao que lhes diz respeito, quanto mais atinados deveriam ser os filhos da luz em relação às coisas de Deus?”

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O suposto desfecho da perícope é certamente um arranjo ilegítimo. Originalmente esses textos não eram contíguos nem faziam parte da mesma perícope. Foram colocados juntos posteriormente, no processo final de redação, talvez justamente por se achar que a parábola carecia de solução de continuidade. Ou simplesmente porque os temas pareciam afins.

Esta parte final da perícope, portanto, deveria ser tratada em outro sermão. Vou me limitar a enfatizar a lição sobre a impossibilidade de servir a Deus e a Mamon. Na escatologia do reino, não faz o menor sentido gastarmos energia andando ansiosos por causa de bens materiais, buscando o prestígio dos primeiros lugares, ou o conforto e as benesses junto aos poderosos. O discípulo, a discípula, de Cristo só tem um Senhor, e esse não é e nunca será o dinheiro. Porque:

«Até hoje ninguém conseguiu servir a dois patrões, simultânea e satisfatoriamente. Porque, mais cedo ou mais tarde, acaba gostando mais de um e desprezando o outro e, consequentemente, se dedica mais a um e negligencia o outro.

E…

«Acreditem!, vocês nunca conseguirão servir, ao mesmo tempo e com a mesma devoção, a Deus e ao dinheiro.» (Lucas 15.1-3)

Qual é, então, o desfecho da parábola? Como em tantas outras (como a do filho pródigo, que, aliás, guarda inúmeras semelhanças com esta, a começar pelo uso do mesmo verbo “diaskorpizo” = dissipar), não há desfecho. Jesus não dá a solução (Bultmann tinha razão!). A resposta quem tem de dar somos nós.

Nestes tempos no qual é tão recorrente a prática do suborno, o tráfico de influências e a corrupção ativa e passiva, que atitude tomaríamos, se nos virmos na mesma situação do administrador, ou dos arrendatários, ou do patrão? Em suma, todos eles descobriram, a duras penas, que a misericórdia e a amizade valem muito mais do que o dinheiro e as riquezas.

Se houve salvação nessa estória, foi pela graça! – Na escatologia do reino, o Davizinho-sem-mérito, sempre derrota o Golias-poderoso-e-grandalhão.

Rev. Luiz Carlos Ramos†
Para o Décimo Oitavo Domingo da Peregrinação após Pentecostes, Ano C, 2016
(Pregado pela primeira vez na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, aos 14 de setembro de 2016)

Fonte: CEBI Nacional