Você é bendita entre as mulheres (Lc 1,39-56) - Tomaz Hughes

Neste final de semana, a Igreja romana celebra a festa da Assunção e propõe o evangelho que trata de duas partes bem distintas: o encontro entre Maria (grávida de Jesus) e Isabel (grávida de João), bem como o Canto do Magnificat.

Para entender o objetivo de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste e, ao mesmo tempo, a continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos ligados ao nascimento de João e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias e João. A segunda está nos relatos do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada, deu tudo que podia dar - os seus símbolos são Isabel, estéril e idosa, Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio do anjo, e o nenê que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus.

Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana e Simeão no Templo (Lc 2,25-38), especialmente quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (v. 29).

Por isso, não devemos reduzir a história de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parenta idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse somente mostrar Maria como modelo de caridade, não teria colocado o versículo 56, que mostra ela voltando para a sua casa antes do nascimento de João. Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a da Galileia à Judeia. A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação na vida delas e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro, Maria, José e Jesus.

O fato de que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução de Gn 25, 22 na Septuaginta. O contexto, especialmente o versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Iluminada pelo Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João no seu ventre - é porque Maria está carregando o Senhor.

As palavras referentes a Maria - “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) - fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo no Antigo Testamento: Jael (Jz 5,24) e Judite (Jt 13,18). Aqui, Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.

Vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita, em primeiro lugar, não por sua maternidade, mas pela fé, em contraste com Zacarias que não acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente como modelo de fé. Já no relato da Anunciação, Maria expressou essa fé quando disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (v. 38). Assim, ela aceita não somente ser a mãe do Senhor, mas ser a protagonista da construção de uma sociedade de solidariedade e justiça, tão almejada por Deus. Por isso, Lucas faz uma releitura do Canto de Ana (1Sm 2,1-10) e coloca nos lábios de Maria o canto do Magnificat, em sintonia com a espiritualidade secular dos Pobres de Javé. Estes, desprovidos de qualquer poder, põem a sua esperança em Deus, que “dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens e despede os ricos de mãos vazias” (vv. 51-53). Longe de ser uma figura passiva, a Maria deste capítulo é modelo para todos que assumem a luta em favor de uma sociedade alternativa, de partilha, solidariedade e fraternidade, o projeto de Deus.

Podemos também acrescentar que, neste capítulo primeiro de Lucas, encontramos expressões e frases de uma de uma oração muito popular no catolicismo: “Ave Maria” (Lc 1,28), “Cheia de graça” (Lc 1,28), “O Senhor é convosco”(Lc 1,28), “Bendita sois vós entre as mulheres” (Lc 1,42), “Bendito o fruto do vosso ventre” (Lc 1,42). A figura de Maria não é um empecilho para uma caminhada ecumênica, pois a Escritura a aponta como modelo de fé para todos nós.

Fonte: CEBI Nacional