Quem é o meu próximo? Uma pergunta que não se faz… - Frei Carlos Mesters

O porque da pergunta do doutor

Quem é o meu próximo? Foi o doutor da Lei que fez a pergunta. Ele a fez, foi mais para justificar-se (Lc 10,29). Diante da reação de Jesus à sua pergunta anterior, ele ficou com vergonha. Perguntara: Mestre, o que devo fazer para obter a vida eterna? (Lc 10, 25). E Jesus, em vez de responder diretamente, disse: O que está escrito na lei? O que você lê ali? (Lc 10,26). Foi como se dissesse: Você, então, não sabe uma coisa tão evidente, você que se diz conhecedor da lei! E, querendo ou não, ele mesmo teve que dar a resposta: amar a Deus e amar ao próximo (Lc 10,27). Perguntara uma coisa já sabida de todos. Parecia uma desonestidade da sua parte. Por isso, para justificar-se, tornou a perguntar: E quem é o meu próximo?.

Mas não foi só para justificar-se e para salvar a sua reputação de doutor da Lei. Para ele, doutor da Lei, aquela pergunta era importante mesmo. Já imaginou: se o pagão não fosse próximo, se o romano, o pobre, o operário, a empregada em casa, não caíssem na categoria de próximo, isso faria uma diferença muito grande e tiraria da vida uma grande preocupação. Estaria livre de prestar-Ihes um serviço por amor. A miséria do mundo e a injustiça generalizada já não seriam uma acusação contra ele. Passaria tranquilo ao lado dos pobres e das favelas, sem que a consciência lhe mordesse e lhe fizesse aqueles apelos incômodos. Pois a Lei, isto é, Deus, mandava amar somente os próximos, e aquela gente não era próximo. Já não haveria motivo para preocupar-se tanto. Saber direitinho quem era o próximo daria mais tranquilidade. Realmente, para ele, o doutor, aquilo era uma pergunta muito importante, mas muito importante mesmo.

A resposta de Jesus

Jesus respondeu, mas respondeu a seu modo, como sempre, por meio de um exemplo tirado da vida. Tais exemplos ou histórias falam mesmo a quem não quer ouvir, pois da vida todos entendem ao menos alguma coisa. Jesus falou de um homem que desceu de Jerusalém para Jericó (Lc 10, 30), uns vinte quilômetros de viagem, pelo deserto perigoso de Judá, cheio de bandidos e ladrões, fugidos da polícia, e de subversivos e guerrilheiros, dispostos a matarem qualquer romano que passasse por lá. Esse homem passou por lá, e aconteceu o que se podia esperar. Caiu na mão de ladrões que o roubaram e o deixaram meio morto, ao lado da estrada, de tanta pancada que deram nele. Fugiram com o dinheiro (Lc 10,30). Quem sabe, naqueles dias mesmo tivesse ocorrido um assalto desse tipo. Estaria ainda bem vivo na lembrança de todos. Nada mais eficiente do que fazer um sermão com fatos da vida.

Passa um sacerdote no local onde agonizava a vítima. Era o doutor da Lei, passando ao lado da miséria do povo, agonizante, devido às feridas, feitas pela sociedade sem amor. O sacerdote era alguém que estava por dentro das coisas da religião, conhecia teologia, sabia situar-se, com a sua fé, neste mundo complicado. Chega lá olha e percebe o fulano indefeso que necessitava de ajuda urgente. Mas, na história que Jesus estava contando, o sacerdote olhou e passou, desviando para o outro lado da estrada. Deixou o homem ali. Não ajudou. Era o doutor da lei, passando ao lado da miséria do mundo e raciocinando consigo mesmo: Aquela gente não cai dentro da categoria de próximo. Portanto, não tenho nenhuma obrigação para com ela. Deus, aqui, nada me pede. Posso passar tranquilo, sem correr o risco de perder a recompensa que Ele prometeu àqueles que observam fielmente a sua Lei. Estou dentro da Lei. A Lei está do meu lado! O sacerdote passou, como o doutor passava pela vida, tranquilo, sem que a consciência lhe acusasse. O doutor, porém, pelo que parece, já não andava de todo tranquilo, pois, do contrário, não teria feito aquela pergunta. Alguma coisa, lá dentro dele, o devia estar incomodando.

Passa, em seguida, um levita, um sacerdote de segunda categoria (Lc 10,32). Seria como um sacristão de hoje, alguém que, como o sacerdote e o doutor, estava por dentro das coisas da religião. Sabia aplicar as distinções necessárias, para não se sentir angustiado, neste mundo tão confuso, com tantos apelos. Também ele chegou, olhou e passou, pelo outro lado da estrada, tranquilo com Deus e consigo. Não ajudou. O homem continuou estendido no chão, sangrando, meio morto. O mundo com a sua miséria continuava aí, sangrando pelas feridas aplicadas pela falta de justiça e não curadas por falta de amor entre os homens. E eram precisamente os que professavam sua fé no Deus justo e bondoso, os que deveriam protestar, reagir, ajudar, esses nada faziam: o doutor, o sacerdote, o levita. A esses, o outro não importava nem um pouco. Importava ter a consciência tranquila, juridicamente tranquila.

Chega um samaritano (Lc 10, 33). Na opinião do doutor, um samaritano era um energúmeno, um herege, um renegado, um bandido, um comunista ateu. O que é que esse samaritano vinha a fazer na história que Jesus estava contando? Até agora o doutor pôde segui-lo perfeitamente. Identificou-se com o sacerdote e o levita. Gente direita. Mas agora? Onde é que esse Jesus queria chegar? O samaritano chega, olha, para, fica com dó, desce do cavalo, se aproxima, aplica curativo, joga azeite e vinho nas feridas, coloca o homem no seu próprio cavalo, vai a pé ao lado dele, leva-o até à hospedaria, recomenda o caso ao dono, cuida dele, paga pelos gastos e deixa ainda o aviso: Cuide bem desse homem. Caso as despesas forem mais, eu, na volta, pagarei tudo (Lc 10, 33-35). Depois continuou a sua viagem, também ele, tranquilo. E para o samaritano, Deus não entrou, nem a lei. Foi o bom senso de um homem que não pode ver o outro sofrer.

A nova pergunta lançada por Jesus

Foi essa a história que Jesus contou como resposta àquela pergunta do doutor: Quem é o meu próximo? A história de um assalto. Não tirou nenhuma conclusão. Aliás, o doutor nem via como se poderia tirar alguma conclusão dessa história estranha. O que é que tudo isso tinha a ver com a pergunta que ele fizera? Também não era do interesse de Jesus dar uma resposta. Em vez de tirar uma conclusão e de dar uma resposta, ele prefere formular, ele por sua vez, uma nova pergunta. Perguntas incomodam mais do que respostas, porque forçam o outro a pensar: Jesus termina a história: Qual dos três lhe parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Era, novamente, a vez do doutor de falar. A pergunta de Jesus era bem diferente daquela que o doutor tinha feito. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo?. Jesus nada respondeu, mas perguntou: Quem dos três se mostrou mais próximo? E o doutor teve que responder, querendo ou não: Aquele que usou de misericórdia para com ele (Lc 10, 37). De tanta raiva que tinha dos samaritanos, dos comunistas, nem sequer o identificou, e disse simplesmente: Aquele que usou de misericórdia. Então, Jesus encerra o assunto: Vai e faça o mesmo! (Lc 10,37). Terminou a conversa. O que será que o doutor pensou? Encontrou ou não encontrou uma resposta para a sua pergunta?

Jesus inverteu tudo. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo? Queria ter um critério mais seguro para poder distinguir nos outros quem era e quem não era o seu próximo. Queria viver com a consciência mais tranquila. Queria ficar livre do medo de não ter cumprido a Lei de Deus. Queria enquadrar os outros nos esquemas do seu próprio pensamento. Estava preocupado com o seu problema. Pouco ligava os outros. Mas, em vez de receber um critério nesse sentido, acaba de receber exatamente o contrário: um conselho de como ele mesmo devia fazer para tornar-se próximo dos outros. Não recebe um critério para poder julgar e classificar os outros, mas um estímulo para agir e aproximar-se dos outros. Caso, no futuro, não ajudasse o fulano caído nas mãos de ladrões e dele não se aproximasse, ele é que não estaria amando o próximo como Deus, isto é, a Lei, o mandava. Ele estaria fora da Lei. Em vez de tranquilo, ficou mais angustiado ainda.

Pela história do assalto, Jesus fez saber que o erro do doutor estava na pergunta dele. Não se deve perguntar: Quem é o meu próximo? Isto é fuga! Isso é querer colocar em segurança a sua própria consciência, ao abrigo das exigências de Deus, que chegam até nós, em todas as esquinas da vida. Isso é querer obter mérito diante de Deus à custa do outro, identificado como próximo. O outro a quem se ama, por ser ele próximo, já não é amado por ele mesmo; mas é amado apenas porque eu, para poder salvar-me, devo amar o outro, o próximo. O outro, então, já não interessa mais. Já não interessa aquele que é amado nem aquele que não é amado. Interessa só eu que devo amar. Tal atitude é matar o amor na raiz. Faz cair o homem num egoísmo fechado, que já não permite abertura. A preocupação de saber quem é o próximo que deve ser amado, mata, na raiz, o amor ao próximo.

Próximo? Jesus o faz saber: isso depende de você mesmo. Se você se aproximar, você é que faz com que o outro fique mais próximo. Se você não se aproximar, ele jamais será o seu próximo. Não existe gente com rótulo na cabeça: Eu sou próximo! Então, vai depender de mim mesmo decidir quem é o meu próximo? Certo! E se eu não me aproximar dos outros, não terei próximo e não terei ninguém para amar e a Lei não se aplica a mim. Estarei dentro da Lei, sem fazer nada! Sem dúvida!, a aplicação e a execução da Lei fica a seu critério, fica a critério da sua aproximação do outro. Nesse caso, sobra ainda uma outra pergunta: Quando é que devo aproximar-me do outro? Leia a história do assalto que Jesus contou, veja quem cruza o seu caminho. Se ele precisar dos seus cuidados, então: Vá e faze o mesmo que o samaritano fez. Depende de sua generosidade e criatividade. Se esse outro é bom ou mau, ateu ou crente, protestante ou católico, comunista ou capitalista, terrorista ou cidadão cumpridor da Lei, samaritano ou herege, homossexual ou heterossexual, isso não vem ao caso. É homem? Precisa de você? Então, vá, e faça o mesmo. Em outro lugar, Jesus deu o seguinte critério: Tudo aquilo que você gostaria que o outro lhe fizesse, faça-o você a ele: isso é, em resumo, toda a Lei e os Profetas (Mt 7,12).

Conclusão

Próximo é todo aquele que cruzar o seu caminho, seja ele quem for, e do qual você se aproxima. Ou melhor, próximo não existe. Existe é você, com a sua obrigação de fazer-se próximo do outro. Fazer-se próximo, como o samaritano o fez, já é amar o outro como Jesus o quer. Com isso, tudo mudou totalmente.

A sociedade do doutor da Lei estava baseada no princípio de que alguns são próximos, outros não. Hoje, na sociedade, existe a mesma coisa. Existem os que estão por dentro e os que estão por fora. Existem os que são aceitos, porque se adaptam aos critérios vigentes, e existem os que são marginalizados, porque não se adaptam ou porque não querem ou porque não podem. E todo mundo acha isso normal. Nós nos identificamos perfeitamente com o sacerdote e o levita da história do assalto. Se nós fôssemos hoje aplicar a parábola do bom samaritano, muita coisa iria mudar. Seria a revolução mais radical que jamais houve na história. Seria a coisa mais subversiva que a gente se possa imaginar. Somos todos como os doutores da Lei, querendo saber quem é o próximo. Tratar e conviver com alguém que a sociedade não aceita, que a Lei declara como não-próximo, isso poderia comprometer a nossa vida. E isso, nós não o queremos. Teremos que ouvir de novo que tais perguntas não se fazem. Seria querer esconder, debaixo da capa de uma suposta caridade, o apego que temos à segurança que a sociedade nos dá. Mas a miséria do mundo nos acusa, como ao doutor. Ninguém fica realmente tranquilo. De vez em quando, incomodado pela realidade, todo o homem honesto faz como o doutor: quer saber quem é mesmo o próximo. E nesse sentido, a intranquilidade da qual nasce a pergunta, essa é boa.

Fonte: CEBI Nacional