A parábola do “Bom Samaritano” (Lucas 10,25-37) - Tomaz Hughes SVD

A parábola do “Bom Samaritano” talvez seja, junto com a do “Filho Pródigo”, a mais conhecida de todas as parábolas de Jesus. Por isso mesmo corre o risco de ser banalizada, de não ser levada muito a sério, de ser relegada quase ao nível de folclore religioso. Merece uma atenção mais minuciosa.

A parábola situa-se logo após Jesus ter louvado o Pai por ter “escondido essas coisas (as coisas do Reino) aos sábios e inteligentes e revelado aos pequeninos” (cf. Lc 10,21). Realmente, o primeiro a tentar atrapalhar Jesus é um “sábio e inteligente” - um especialista em leis. Lucas salienta que ele fez a pergunta “O que devo fazer para receber em herança a vida eterna” (v. 25), não porque ele se interessasse pela verdade, mas “para tentar Jesus”. Devolvendo-lhe a pergunta, Jesus deixa claro que o legista já sabia a resposta: “Ame o Senhor, seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma, como toda a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como a si mesmo.” Jesus simplesmente diz: “Você respondeu certo. Faça isso e viverá” (v.28).

Mas com a petulância típica do pseudo-intelectual, ele insiste, “para se justificar”, com uma segunda pergunta: “E quem é o meu próximo?” (v.29). Jesus, porém não cai na cilada de fazer uma discussão teórica e estéril sobre quem seja o próximo - ele logo traz o debate para o nível prático da vivência. Ele conta a parábola do “Bom Samaritano”. Vejamos.

Depois do assalto, passou pela vítima um sacerdote que “viu o homem e passou adiante pelo outro lado” (v.31). A mesma coisa aconteceu com um levita. Porque será que esses homens - ligados ao culto judaico - agiram assim? A resposta está nas leis de pureza daquela época. O contato com um defunto, ou com sangue, deixava a pessoa ritualmente impura, isto é, inapta para participar do culto. Como o homem estava coberto de sangue, e talvez morto, os dois não se arriscavam a tocar nele, pois para eles o culto religioso era mais importante do que a misericórdia para com uma pessoa sofrida. Não era, em si, uma atitude somente pessoal de duas pessoas maldosas, mas demonstra uma tentação permanente de pessoas ligadas ao culto e ao mundo tido como “sagrado” - o perigo de viver alienadas do mundo real, onde as pessoas vivem, sofrem, e lutam todos os dias. Também é bom notar que ambos estavam seguindo o mesmo caminho – voltando de Jerusalém, ou seja, voltando do lugar principal do culto. Assim Jesus enfatiza que, embora participassem corretamente do culto, não deixaram que o mesmo tivesse efeito sobre o seu comportamento, pois se fecharam diante do sofrimento do ferido. Culto sem misericórdia é vazio, como bradava Oséias e Amós séculos antes (Os 6,6; Am 5,21-25).

Entra em cena um samaritano. A religião dele era considerada como cheia de deformações e ignorância pelo judaísmo oficial, pois desde a invasão da Assíria em 721 a.C. a prática religiosa do povo samaritano tinha sido contaminada por religiões pagãs (cf. II Rs 17,24-31). Mas quando ele vê o sofrimento alheio, ele não pensa em discussões teológicas sobre pureza, mas parte para uma ajuda prática, com misericórdia.

Terminando a história, Jesus devolve a pergunta ao especialista em leis - mas faz uma mudança fundamental! Não faz a pergunta teórica “quem é o meu próximo”, mas uma pergunta prática “quem se fez próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” A primeira pergunta só levaria a uma discussão vazia; a de Jesus leva a uma mudança de prática vivencial.

Forçado a reconhecer que quem se fez próximo do sofredor era o samaritano, o legista ouviu da boca de Jesus a conclusão: “Vá e faça a mesma coisa” (v. 37).

Com esta parábola, Jesus quer ensinar que nada, nem o culto, têm prioridade sobre a ajuda a uma pessoa necessitada. A religião de Jesus não é teoria, é prática de misericórdia, pois Deus é misericordioso. Como diz o Evangelho de Mateus, baseando-se em Oséias 6,6: “Aprendam, pois, o que significa: ‘Eu quero a misericórdia e não o sacrifício’. Por que eu não vim chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9,13). O legista já sabia a orientação da Escritura, mas tentava escapar das suas consequências, criando discussões inúteis. Nós também sabemos o que diz a Bíblia, - não tentemos esvaziá-la com debates estéreis sobre quem é “o pobre”, “o aflito”, “o próximo”, “o bom”. Façamos o que Jesus ensina nesta parábola “e viveremos”.

Fonte: CEBI Nacional