Religião e Profecia - Milton Schwantes

(reflexão de publicada no jornalzinho Uirá 
da Juventude Militante Protestante no ano de 1989)

A religião não é propriamente o berço da profecia. Ainda que falemos de igreja profética e, derivando, de teologia profética, tais fenômenos não são autônomos, não tem sua explicação em si mesmos.

Se bem que as igrejas não sejam a sede da profecia, podem estar vinculadas a ela. Sob condições específicas, podem refleti-la. Podem vir a ser canais de profecia. Os sonhos proféticos não “moram” nas igrejas, mas nelas podem estar “acampados”.

Na medida em que a igreja se autodefine a partir de si mesma, à luz de seus próprios critérios, dificilmente assumirá ares proféticos. Isto significa que, enquanto prevalecer a “lógica sacerdotal”, aquela que experimenta religião a partir das palavras e dos gestos especificamente religiosos, dificilmente poderá vigorar a “lógica profética”.

Acontece que a profecia não é uma extensão das igrejas. Na mesma medida em que nossas igrejas forem mais romanas, mais luteranas, mais metodistas, etc... muito provavelmente serão menos proféticas. No caminho de uma suposta redução ao essencial, não se encontra aquilo pelo qual vale sonhar e lutar.

Em Jesus renasceu a profecia, justamente porque a lei e templo pediram concordata!

Para que o profético apareça no horizonte, nas palavras e nas práticas das igrejas, torna-se necessário que estas leiam a realidade. Não é, pois, a “leitura” do sagrado que faz aflorar o profético, pelo contrário, é a “leitura” do mundo que torna transparente as potencialidades dos sonhos proféticos. Neste sentido, o berço da profecia está “do lado de fora”, isto é, do lado de fora do sagrado. Encontra-se assim no chamado profano. Sem um acesso a este profano, ao que as pessoas vivem, à realidade, aos sinais dos tempos, não aflora nem a palavra, nem a prática profética.

A igreja toda e toda igreja pode ser profética, uma vez que a profecia não é um departamento, mas o próprio Espírito.

A profecia se assemelha a um fermento. O problema é que as igrejas tendem a especializar-se, em isolar este fermento. Aí a profecia vira seita.

Hoje, as igrejas tomam jeito profético quando se situam com suas práticas em meio às necessidades do cotidiano, da realidade do povo de Deus. Neste sentido, a profecia brota na intersecção entre o sagrado e o profano.

As pessoas já aprenderam a viver sem religião. Olhando para o papel conservador das igrejas e, inclusive, para suas funções repressoras, entende-se porque as pessoas “tiveram que” aprender a viver sem igreja. Há dignidade nesta autonomia de pessoas que se negam às categorias do que seja eclesiástico, negando às igrejas até mesmo a “ingerência” no político.

Uma teologia profética situa-se, pois, neste aprendizado das comunidades cristãs em se re-situarem em meio ao mundo e em relação às dores da humanidade.

Categorias como “mundo” e “humanidade”, na verdade, são amplas demais para captar o senso profético. Não são matrizes apropriadas para a impressão do “livro da profecia”. Ou seja, uma teologia não incorpora a profecia somente por assumir a modernidade, por se posicionar positivamente em relação à secularização. Se assim fosse, a “teologia da libertação” não estaria em tão maus lençóis, em nossas igrejas.

O agente histórico promotor de profecia não é, hoje, nem o assim chamado mundo e nem a humanidade, mas são os pobres. A gente empobrecida é porta-voz da profecia. Teologia profética só pode ser prática e palavra dos pobres e solidária a lavradores e operários empobrecidos. Profecia que não implique nesta opção não é bíblica.

Profecia acontece, pois, no conflito. O sonho profético representa um modo especial de tornar transparente o conflito. Explicita-o em sua dimensão social. Para a profecia, a solução da contradição histórica entre pobres e ricos situa-se no nível histórico.

A profecia lança as igrejas, inevitavelmente, em meio aos conflitos da história. Uma igreja profética não é asséptica.

A profecia existe “para arrancar e derrubar” e “para edificar e plantar” (Jeremias 1.10). Esta dupla dimensão é básica para a profecia: julga e aguarda.

Julga a opressão e a idolatria, estas sócias do destino. Verifica a existência do roubo contra os pobres. E afirma a derrocada dos causadores da ruína dos fracos.

Evoca a esperança de tempos novos e diferentes, sem opressão e sem idolatria. Há, pois, um projeto.

Não há profecia sem projeto histórico.

Na visão do Primeiro Mundo, o cidadão e o Estado tem uma relação muito próxima. A posição do cidadão em relação ao Estado é de apoio e defesa. Já no Terceiro Mundo, há movimentos expressivamente críticos ao Estado, pois, é o Estado que garante a miséria do povo.

Esta relação cidadão-Estado reflete diretamente na leitura dos profetas. As leituras são muito diferentes. Von Rad é a grande expressão da Teologia Ocidental. Para o Primeiro Mundo, o profeta é o gênio e a grande tese: os profetas anunciam o fim de tudo. Isto porque para o Primeiro Mundo a ameaça a uma parte é a ameaça ao todo, lembra-se, cidadão e Estado são idênticos.

Já para nós, o Estado são “os homens”, os dominantes, uma minoria que controla o poder e do outro lado estão os “pobres”, dominados.

Para o Primeiro Mundo os profetas anunciam o fim de tudo. Para nós, os profetas anunciam o fim dos dominantes.

A profecia agita, inquieta e desestabiliza o poder com suas ameaças. Ameaça sem dó a elite governante e os que vão se adonando dos bens do povo. Denuncia, sem medo, a existência dos pobres na cidade e dos pobres da terra. Os opressores vão se aprofundando e se aperfeiçoando na exploração e no roubo das mulheres e dos homens a ponto de encher a cidade com sangue inocente. Ao analisar a profecia temos que identificar quem são os opressores e quais os mecanismos que utilizam para extorquir e reprimir os pobres.

Certamente a profecia denuncia com veemência a elite palaciana que foi conquistando o poder através da centralização do excedente agrícola e o controle das transações comerciais. Taxas, ouro e prata determinam a vida nos dias de muitos dos profetas e do movimento camponês. A grande denúncia profética recai sobre o comércio e principalmente a classe rica que está vivendo tranquila das benesses adquiridas pela política econômica.

Aos opressores os profetas como Amós, Sofonias, Oséias, Miquéias, Isaías, Jeremias anunciam que no dia de Yahweh serão castigados, irão chorar e lamentar. O dia de Yahweh na profecia é também sinal de resistência e protesto. As palavras dos profetas demonstram que a voz dos pobres não foi amordaçada e que eles estão a clamar por justiça.

Fonte: CEBI Nacional