Orlando é aqui: A sua ‘opinião’ e a sua ‘piada’ matam LGBTs todos os dias

O mundo ainda está em choque com o atentado que matou 50 pessoas, e feriu outras 53, em Orlando, na Flórida. E quando digo “o mundo” me refiro, claro, àquelas pessoas que são verdadeiramente humanas, e não a tantas outras que se aproveitaram de um episódio cruel para destilar seu ódio e indiferença.

O fato já é conhecido: Omar Siddique Mateen, cidadão norte-americano de pais afegãos, entrou na boate Pulse, no centro de Orlando, e abriu fogo contra as pessoas que lá estavam. A boate é conhecida e frequentada pelo público LGBT da cidade. Omar, que tinha 29 anos, foi morto pela polícia. Ele era, segundo o seu próprio pai, um homofóbico.

A análise desse episódio precisa de vários recortes, como o discurso xenófobo que tem sido usado contra os muçulmanos, partindo inclusive do asqueroso presidenciável Donald Trump, e também a questão do controle de armas, que podem ser compradas com muita facilidade nos Estados Unidos. E por mais que Omar Siddique odiasse pessoas LGBTs, ele não as mataria tão facilmente se não pudesse comprar uma arma praticamente em cada esquina.

Outra coisa que precisa ser pensada é onde começa e como se desenvolve o pensamento homofóbico.

Por mais que muita gente não queira encarar e admitir, a homofobia escancarada do Estado Islâmico (grupo terrorista pelo qual Omar Saddique demostrava simpatia) é a mesma homofobia disfarçada de preservação da “moral e bons costumes” de parte da sociedade brasileira.

O fundamentalismo religioso de alguns grupos muçulmanos não é diferente do fanatismo evangélico. A única diferença é que muitos daqui ainda não tem coragem de admitir que sentem ódio pela população LGBT. Eles preferem se utilizar de discursos vazios e hipócritas, como dizer que nós não somos bons exemplos para as crianças. Como se eles, os fanáticos e fundamentalistas, de qualquer religião, fossem bons exemplos para alguém.

A perpetuação do ciclo da violência contra LGBTs parece ser a principal tarefa desses falsos profetas

Muitos ainda resistem em admitir que o ataque a Orlando foi causado por homofobia.Eles não admitem, pois é vergonhoso mostrar para o mundo que se é tão parecido com alguém que matou 50 pessoas inocentes.

Mas por mais que os fundamentalistas religiosos brasileiros não peguem em armas, eles estão nos matando todos os dias. Com suas falas, com seus discursos, com suas teorias ilógicas e sem sentido, como a “ideologia de gênero” que eles dizem existir, o tempo todo eles legitimam a violência que nós, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis sofremos diariamente.

Quando um pastor ou um deputado diz que gays são aberrações, ele está justificando o atentado a Orlando e a violência ao público LGBT no Brasil. Quando eles dizem que nós precisamos de cura, estão fazendo o mesmo. Quando dizem que nós, pessoas trans, não podemos usar o nosso nome social, eles estão, mais uma vez, fazendo o mesmo. A perpetuação do ciclo da violência contra LGBTs parece ser a principal tarefa desses falsos profetas. Eles ignoram totalmente que o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. Ou talvez eles saibam e vibrem com isso. Talvez eles até sintam que sua tarefa está sendo cumprida com sucesso.

É claro que não são apenas os fundamentalistas religiosos que são homofóbicos (e lesbofóbicos, bifóbicos, transfóbicos, etc). Mas eles acabam, com sua postura conservadora, dando o aval para que esses gestos de violência física e/ou verbal continuem.

As pessoas precisam entender que suas falas geram impacto. É difícil imaginar que homens como Bolsonaro, Feliciano e Malafaia não se deem conta da onda de violência que suas palavras podem gerar contra certos grupos.

O mesmo serve para o Trump, que agora usa da tragédia em Orlando para atacar novamente a população muçulmana, como se todos eles fossem terroristas. Nem todos os muçulmanos são terroristas, assim como nem todos os evangélicos são fundamentalistas preconceituosos, mas infelizmente somente o discurso de ódio desses grupos radicais é que geram impacto. Impacto negativo, vale ressaltar.

A homofobia começa em casa, começa na escola, começa no templo religioso. Todos esses núcleos são responsáveis, direta ou indiretamente, pela violência sofrida por LGBTs. Quando não se abre para o diálogo, o que sobra é hipocrisia.

Para buscar um mundo mais justo, mais igualitário, menos preconceituoso, não basta oração.

Quando por pressão de conservadores, a presidenta afastada Dilma Rousseff vetou o kit anti-homofobia, a violência contra LGBTs estava sendo legitimada. Quando gays são proibidos de doar sangue para seus semelhantes que sofreram o ataque em Orlando, a violência contra LGBTs está sendo legitimada. Quando parte dos próprios gays decidem apoiar pessoas como Bolsonaro, a violência contra eles próprios está sendo legitimada.

A homofobia (ou lgbtfobia, melhor dizendo) está enraizada na sociedade, nas suas falas, nos seus gestos, nas suas brincadeiras, nos seus costumes. E todas essas pequenas coisas nos matam. A cada dia, seja em Orlando ou aqui, nós sofremos um atentado contra a nossa vida e a vida de nossos semelhantes.

Para buscar um mundo mais justo, mais igualitário, menos preconceituoso, não basta oração. É preciso educação, conscientização e luta.


Nossos corpos são resistência.
Nosso amor é persistência.
Nossa dor é vivência.

Nossa simples existência,
Essa é muita indecência.

Nossos sonhos desperdiçados.
Nossos gestos julgados.

Nossa identidade questionada.
Nossa alegria, com sangue é soterrada.

Não nos vitimizamos, pois vítimas já somos
Inferiores. Lixos. Escória. Isso nunca fomos.
Seguimos. De luta nos compomos.

Fonte: CEBI Nacional