Quando vier o Espírito da Verdade (João 16,12-15) - Tea Frigerio

“A verdade vos libertará, libertará!” (cf. João 8,32). Palavras de um canto de alguns anos atrás. Palavras que cantávamos com paixão. Palavras que vieram à lembrança ao ler esta memória das comunidades dos discípulos e das discípulas amadas.

Com o canto, vieram umas interrogações:
• O que Jesus ainda havia de dizer que não podiam suportar?
• O que o Espírito da Verdade haveria de revelar?
• Em que caminhos haveria de guiar os discípulos e as discípulas amadas?

Senti-me convidada e retomar o caminho desde o início do Evangelho desta comunidade.

De noite, Nicodemos, perplexo, havia perguntado a Jesus: Como um homem pode nascer de novo? Da água e do Espírito, que como vento sopra onde quer, ouves o ruído e não sabes de onde vem nem aonde vai... (cf. João 3,4-11). Parece que Nicodemos não compreendeu! 

Junto ao poço, a Samaritana desafiou Jesus: Onde adorar? Esta é a hora de adorar em Espírito e em Verdade... (cf. João 4,19-24). A Samaritana compreendeu, pois havia experimentado a hora em sua vida.

Espírito, Verdade, Hora são anéis da mesma corrente, a corrente do discipulado.

A hora de Jesus é a hora em está para deixar quem o segue pelo caminho. É sua presença que revela o Deus libertador, o Deus presente na Vida, na História. Esta hora tornara-se insuportável ao “mundo” e aos donos da “religião” que ele havia denunciado e que já o tinham condenado à morte (João 11,49-52).

A hora é agora em que Jesus, o Mestre, está para subir a uma morte violenta. Porém, eles e elas ainda não penetraram a realidade profunda do homem Jesus de Nazaré, aquele que revela o Pai.

Hora que se torna hora da consolação e da promessa da presença fiel e permanente do Espírito da Verdade. Espírito da Verdade que fala através da metáfora: “Quando a mulher está para dar à luz, entristece-se porque a sua hora chegou; quando, porém, dá a luz à criança ela já não se lembra dos sofrimentos, pela alegria de ter vindo ao mundo um ser humano” (João 16,20-22).

O caminho do discipulado é o caminho de conhecer a hora, como a mulher conhece em seu corpo o mistério da “hora”. A hora para a qual ela se preparou a vida inteira. A hora da espera, a hora da gravidez, a hora de dar à luz. A hora da dor e da alegria. A hora de ter nos braços a criança para acalentá-la, alimentá-la, amá-la. Hora de reter e de deixar ir. Hora de a comunidade adulta ser testemunha daquilo que experimentou, caminhando com seu Mestre, Belo Pastor (João 10,11).

O Espírito da Verdade, a Divina Ruah que conduziu o homem Jesus de Nazaré, será presença constante e fiel que fará brilhar sua experiência com Jesus de nova luz, que o levará a compreender e viver em plenitude a sua “hora”.

A hora para Jesus:
• Ele antecipa a hora por causa da necessidade da comunidade (João 2,4).
• Anuncia a nova hora ao se encontrar com o diferente (João 4,21).
• Identifica sua hora com a hora da mulher (João 16,21).
• Vive sua hora como o grão de trigo que gera vida (João 12,23-26).

A hora de Jesus é a hora da cruz. A hora em que do seu coração vai jorrar sangue e água. A hora do brotar das águas para dar à luz o novo homem e a nova mulher, para dar à luz a nova comunidade.

A hora de Jesus se torna a hora da comunidade: “dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa... tudo está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (João 19,27.30).

A hora da comunidade, lá onde mulher e homem vivem o discipulado de iguais na diaconia:
• No serviço da hora que transforma a água em vinho tornando a festa mais festa.
• No serviço dos sinais que restauram a vida.
• No serviço da universalidade do crer e do amar que bebe no poço da água viva.
• No serviço da intrepidez, da ousadia que faz suas as palavras da confissão: Tu és o Cristo.
• No serviço do bálsamo derramado, boa notícia de mulher até hoje.
• No serviço da solidariedade aos pés da cruz que se torna amor de oblação que oferece e acolhe.
• No serviço que busca, e no jardim encontra, reconhece, anuncia o homem e a mulher renascidas.

O Espírito da Verdade manifestará a sua glória que é a glória da hora. A hora do amor ágape que recorda – acorda – testemunha o seu mistério que é seu ministério:
Ministério da antecipação
Ministério da parceria
Ministério da dignidade
Ministério da diaconia
Ministério da profecia
Ministério do anúncio
Ministério da vida.

Fonte: CEBI Nacional