Segundo domingo de Páscoa - “A Paz Esteja Com Vocês”(Jo 20, 19-31) - Pe. Tomaz Hughes SVD

No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles; mas, somente a alegria e a paz que Ele já tinha prometido no último discurso.

Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir - embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom!”, que é muito mais do que “paz”, conforme o nosso mundo a compreende. “Shalom”, e palavras derivadas, ocorrem mais de 350 vezes no Antigo Testamento. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. É tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas. O Shalom inclui tudo o que Deus quer para o seu povo! Jesus não promete a paz do comodismo; mas, pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino. Promete o Shalom, pois Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus. Podemos dizer que o Shalom tem dois aspectos inseparáveis - é dom e desafio para os cristãos. É dom, porque somente Deus pode dá-la; é desafio, pois tem que ser construída dia após dia na vida pessoal, familiar, comunitária e social de cada pessoa.

Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (o mesmo termo é usado) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida (Gn 2, 7); Jesus os recria com o Espírito Santo. Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes; mas, aquilo (relatado por Lucas em Atos) era como a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo, no plano teológico do autor. Para João, o dom do Espírito, que por sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.

Mais uma vez, no primeiro dia da semana, Jesus aparece aos discípulos (notemos a ênfase sobre o Domingo - duas vezes). Nesta vez, Tomé está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século, que estavam vacilando na sua fé no Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Assim ele nos representa, quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras: “Felizes os que acreditaram sem ter visto!”. Essa, muitas vezes, será a realidade da nossa fé: acreditar contra todas as aparências que o bem é mais forte do que o mal e a vida mais forte do que a morte! Somente uma fé profunda e a experiência da presença do Ressuscitado vão nos dar essa firmeza.

Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé (Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de quem Ele era (Rabi, Mestre, Rei de Israel etc.); aqui, Tomé lhe dá o título final e definitivo: Jesus é Senhor e Deus!

Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o Evangelho termina (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora, ele repete essa afirmação e abençoa todos os que a aceitam baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada: mostrar a divindade de Jesus, para que acreditando, todos pudessem ter a vida n’Ele.

Fonte: CEBI Nacional