Chamado Ecumênico para o Cuidado da Casa Comum

“Quero ver o direito brotar como fonte 
e correr a justiça qual riacho que não seca.” (Am5.24)

Queridas irmãs e queridos irmãos de peregrinação ecumênica,

Queremos agradecer por essa Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE). Muito nos alegraram as experiências relatadas, as fotografias que foram enviadas. As cartas das crianças, que foram estimuladas a pensar sobre o cuidado com a Casa Comum a partir do material da CFE, foram sinais de esperança. Os relatos dos trabalhos das juventudes foram igualmente animadores. 

A CFE 2016 conseguiu fortalecer a bela experiência do diálogo, da oração conjunta, do abraço entre diferentes expressões cristãs. 

Ao longo dos quarenta dias da Quaresma, conversamos sobre nossa Casa Comum, o lugar em que habitamos. Pensamos nas rupturas cotidianas provocadas pelo pecado.

O pecado se torna visível sempre que a Casa Comum é agredida por causa do nosso consumismo, da nossa ambição, da nossa dificuldade de superar visões de mundo que entendem o ser humano como o centro do universo. Revela-se também quando a política é orientada para o interesse do mercado financeiro e não para o bem comum.

A Quaresma, período que, para as pessoas batizadas, representa tempo de conversão, está chegando ao fim. Na Sexta-Feira Santa, iremos nos confrontar com a violência que representa a cruz de Jesus Cristo. Nos confrontaremos com as consequências do ódio e da intolerância. História, que nos tempos de hoje, se repete no extermínio da juventude negra, na violência contra as mulheres, nas agressões aos povos indígenas, na perseguição aos LGBTTs, nos ataques às Casas das religiões de matriz africanas.

A cruz de Cristo também nos provoca a olhar para as destruições provocadas por nós no lugar em que habitamos: a nossa Casa Comum. O lixo jogado na rua, o rio em que se despeja esgoto, o agrotóxico que contamina os alimentos e os lençóis freáticos, o não tratamento de esgoto, a utilização indiscriminada da água, a privatização dos bens da natureza... Tudo isso também fere o sonho de Deus, que é o de um mundo onde reinem o direito e a justiça.

Aprendemos, nessa Campanha, que a fragilidade de políticas públicas para o saneamento básico, compromete a justiça ambiental. Também aprendemos que a justiça ambiental exige de nós que transformemos radicalmente nosso estilo de vida. Sejamos menos consumistas e mais responsáveis com o lugar em que habitamos.

Ao longo do tempo de Quaresma, lemos e fomos orientados sobre o mosquito Aedes aegypti, a forma como ele se prolifera e sobre os males que provoca. Com o aumento das notificações do Zika Vírus, ficamos sabendo que uma das consequências desse vírus é a microcefalia. 

Dados do Ministério da Saúde indicam já foram notificados 6.158 casos suspeitos de microcefalia. Deste total, 745 bebês tiveram diagnóstico comprovado para microcefalia.
Por trás desses números há histórias de vida, em especial, de mulheres, que em algumas situações, são abandonadas por seus maridos. 

Outros dados do Ministério da Saúde mostram que, nesses primeiros três meses de 2016, o Brasil já registrou 495 mil casos prováveis de dengue e 13.676 casos prováveis de chikungunya. Estas doenças podem causar sequelas graves, como a síndrome de Guillian Barré, que provoca paralisia dos músculos.

Casa Comum, nossa responsabilidade! Direito e Justiça. Cruz e ressurreição. Como ficam essas perspectivas diante dos impactos provocados não pelo Aedes aegypti, mas sim, por nosso pouco cuidado com a Casa Comum? 

A falta de saneamento básico, a caixa d’água que não é devidamente limpa, o pneu abandonado, a política de saneamento não executada refletem nosso desleixo com a Criação. Isso tem consequências para a vida do planeta e das pessoas.

Na Campanha da Fraternidade Ecumênica falamos que o saneamento básico é um direito humano básico, portanto, é inegociável. Mas, também falamos que o cuidado com a Casa Comum exige que mudemos radicalmente nosso estilo de vida. Não podemos mais ser desleixados com o lugar em que habitamos. Por isso, nessa Páscoa, pedimos que observem se há criadouros de mosquito no lugar onde celebramos, convivemos e oramos. Vamos prestar atenção nos caminhos que fizemos até a Igreja, até a casa de nossos amigos e amigas. Não esqueçamos que os impactos provocados pela falta de cuidado da Casa Comum causam dor e sofrimento para muitas pessoas.

A cruz de Jesus Cristo nos coloca frente-a-frente com nossas imperfeições, injustiças, abuso de poder. A ressurreição mostra que é possível a transformação. A mensagem da ressurreição é de que novas realidades são possíveis, mas, para isso, precisamos nos reconhecer livres para agir em favor do cuidado com a Casa Comum.

A epidemia de dengue, Zika, chikungunya e a insuficiência de serviços de saneamento básico nos indicam que precisamos ser bem mais responsáveis com a nossa Casa Comum. A Campanha se encerra com a Quaresma, mas o tema da CFE “Casa Comum, nossa responsabilidade”, precisa ser assumido ao longo de todo o ano. Vamos, portanto, nos mobilizar por políticas públicas de saneamento básico e eliminação de focos do mosquito Aedes aegypti.

Que o direito e a justiça brotem. Sejamos partícipes da construção de um mundo sustentável! 

Feliz Páscoa!

Dom Flávio Irala – Presidente
P. Sinodal Inácio Lemke – Primeiro vice-presidente
Pe. Joanilson Pires – Segundo vice-presidente
Dom Teodoro Mendes Tavares – Tesoureiro
Reverendo Daniel do Amaral – Secretário

Fonte: CONIC