Os três caminhos da mudança e da conversão - Carlos Mesters

O caminho da justiça

Justiça existe quando tudo está no lugar onde Deus o quer; quando tudo é como deve ser. Os profetas lutam para que tudo e todos ocupem novamente o seu lugar conforme o projeto da Aliança. Não são pregadores teóricos, mas denunciam bem claramente as injustiças e apontam as causas. Não tem medo de dizer o que está errado na organização do país, tanto por parte das pessoas responsáveis como por parte das instituições.

A denúncia dos profetas, feita a partir da retomada da aliança, levou a criação de novas leis a fim de, por meio delas, instituir uma ordem que favorecesse a vida do povo e o levasse á observância plena da aliança. Uma destas leis, por exemplo, é a Lei do Ano Jubilar ou do Ano Sabático (Lv 25; Dt 15) que visa criar uma estrutura agrária mais justa no país.

O caminho da solidariedade

Nem toda a pobreza é fruto da injustiça, mas todos os pobres merecem ser acolhidos. A comunidade do povo de Deus deve ser uma amostra daquilo que Deus quer para todos. Ela deve ser aliança de Deus com os seres humanos contra tudo aquilo que estraga a vida e marginaliza as pessoas. Ela deve saber acolher as vítimas do empobrecimento, causando tanto pela injustiça como por outras coisas.

Na comunidade do povo de Deus, não pode haver pobres (Dt 15,4). Todos devem poder viver na partilha perfeita dos bens. Mesmo assim, “pobres sempre vão existir” (Dt 15,11; Mt 26,11), pois a comunidade, sendo pequena, não controla a vida do mundo, nem consegue eliminar todas as causas econômicas, sociais e políticas que produzem a pobreza. Mas, na medida em que estes pobres do mundo entrarem em contato com a comunidade, esta, sem diminuir em nada a luta pela justiça, deverá acolhê-los, pois dentro da comunidade “não pode haver pobre” (Dt 15,4).

O caminho da mística

A injustiça básica é a consciência roubada dos pobres. Neles foi colocada uma consciência de inferioridade. O sistema injusto, procurando neutralizar o grito do pobre, fez do pobre um ser inferior; um preguiçoso e até um pecador que não merece vida melhor do que a que tem. Sendo assim, o rico pode continuar tranquilo na posse da sua riqueza, sem ser incomodado pelo grito do pobre, pois o pobre é, ele mesmo, o culpado da sua própria pobreza!

Aqui entra a certeza básica da fé do povo da Bíblia, a saber, Deus ouve o grito dos pobres! O pobre já não grita para o rico, mas grita para Deus, e Deus ouve o seu grito e lhe diz: “Eu estou aqui com vocês!”. É daí, desta certeza de Deus, que nasce nele a nova consciência de gente e de filho de Deus, consciência da própria dignidade. É como se fosse uma nova criação!