Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina

Cerca de 200 milhões de crianças e mulheres foram vítimas de mutilações genitais no mundo, segundo um relatório divulgado nesta sexta-feira (5) pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Em países como Somália, Guiné e Djibuti, na África, até 98% das mulheres sofreram excisão, como é chamada a extirpação do clitóris.

Um dado preocupante do relatório é que o índice de mutilações está subindo na Libéria, em Burkina Faso e no Quênia. O objetivo da entidade da ONU é acabar com essa prática até 2030. O tema foi incluído nos objetivos de desenvolvimento das Nações Unidas para os próximos 15 anos, adotado por 193 países em setembro de 2015.

Entre as vítimas, 44 milhões são meninas com 14 anos ou menos. Na maioria dos 30 países que realizam excisão infantil, a mutilação aconteceu antes dos cinco anos da criança.

“Em lugares como Somália, Guiné e Djibuti, essa prática atinge quase todas as mulheres”, destacou Claudia Cappa, diretora do estudo. O índice de mutilação das mulheres nestes países é de 98%, 97% e 93%, respectivamente.

Avanços lentos contra a mutilação feminina

“Nós precisamos apoiar os esforços locais para acabar com essa prática”, frisou Cappa. Desde 2008, mais de 15 mil comunidades abandonaram as mutilações genitais femininas, das quais 2 mil só no ano passado. Cinco países adotaram leis que criminalizam o ato: Quênia, Uganda, Guiné Bissau e, mais recentemente, Nigéria e Gâmbia.

Os dados foram divulgados na véspera do Dia Mundial de Luta contra a Excisão, 6 de fevereiro. O número de vítimas subiu 70 milhões, em relação às estimativas feitas em 2014, no relatório anterior da Unicef.

Traumas da excisão ficam para o resto da vida

“Esse é o combate da minha vida”, resume a maliana Madina Bocoum Daff, 60 anos, que há muitos anos luta para acabar com a prática. Mutilada na infância, ela afirma que as consequências físicas e psicológicas desse costume tradicional nos países africanos ficam para o resto da vida das mulheres.

A hoje coordenadora do programa de luta contra a excisão da ONG Plan International não lembra com que idade foi mutilada. Antigamente, o ritual acontecia na puberdade das meninas.

Madina relata ter sido vítima do pior tipo de excisão, a que além de extirpar os órgãos femininos externos, também costura a abertura vaginal para deixá-la mais estreita. Por isso, no casamento, as jovens devem passar por uma segunda mutilação para reabrir o órgão - uma intervenção que, com frequência, é feita a faca, sem anestesia e em péssimas condições de higiene.

“É um choque, uma dor que a gente guarda para toda a vida”, sublinha Madina, lembrando que, em cada um dos seis partos, voltou a sentir dores ainda mais insuportáveis. Entre outras complicações possíveis, a excisão também provoca incontinência urinária nas vítimas.

Fonte: CONIC