Diante de uma pessoa com dor - André A. Pereira

Tudo que uma pessoa doente precisa é de uma presença humana que segure a sua mão.

Alguém que se sente ao seu lado e fique em silêncio.

E, quando sentir que é o momento, que afague seus cabelos num tradicional e inocente cafuné.

E, se for um dia de verdadeira bênção, que a pessoa além disso tudo, diga poucas palavras como essas: “vai passar, vai passar” e transmita o frescor da sua paz.

Alguém que respire fundo, olhe nos olhos e encontre como verdade do seu coração, a seguinte afirmação: “tudo passa, essa dor também vai passar.”

E se não houver tamanha inspiração, que siga a intuição do seu afeto e possa dizer algo como: “estou aqui com você.” Porque o afeto precisa de palavras simples para ser tocado.

Tudo que uma pessoa precisa é de presença humana.

E como é difícil para as pessoas o simples ato de tocar e segurar a mão por mais de dois segundos! Ou afagar os cabelos ou afagar o peito! Ou abraçar de corpo inteiro!

Um famoso psicólogo dizia que a grande doença da humanidade é essa dificuldade de contato com o corpo. E é uma doença tão grande, mas tão grande, que é mais que uma epidemia, ele a chamou de uma peste: a peste emocional da humanidade. E tocar ficou proibido.

Carregam-se os animaizinhos de estimação no colo acariciando seus pelos, mas se esquece de aprender com os mamíferos a importância do tocar, do calor da presença de outro ser humano.

E aí tudo que você não precisa fazer, é o que as pessoas mais fazem: falam à distância, perguntam se está tudo bem, se você está melhor, e dizem: se precisar de alguma coisa é só falar. Sim, solícitas, mas distantes.

Ou ainda aquelas que fazem piadas procurando trazer bom humor... e repetem a mesma piada todas as vezes que te encontram... mas não abrem os braços para um abraço e uma pergunta ao pé do ouvido: como você está?

Ou ainda aquelas que fazem uma hipótese psicológica e emocional da sua doença e falam para você (o que também tem um tom de piada) mas que no fundo não as faz entrar em contato com a sua dor.

Ou, os piores de todos os cuidadores de doente: os autoritários. Eles te perguntam o que você quer, mas estão o tempo todo achando que sabem o que é melhor para você, ou mesmo, o que você na realidade quer. Impõem um tom autoritário na voz e querem te tratar como um inválido. Vemos muito esse tratamento com idosos e crianças: as classes sem valor econômico em nossa cultura centrada no dinheiro.

Essa é a forma como muitas pessoas conseguem dar o seu amor, o seu cuidado. Fazem coisas, mas não conseguem estar presentes. A alma está dormindo.

É. É o melhor que podem fazer no momento. Mas sei que dentro delas existe algo mais. E por isso esse texto. Para ajudar a retirar as pedras que cobrem a fogueira onde lá no meio há uma chama ainda acesa: calor humano, irmandade, afeto, olhos nos olhos, mãos dadas, palavras de reconforto, alento, canção.

Tudo que uma pessoa sentindo dor precisa é de uma presença humana que segure a sua mão.

Que se sente ao seu lado em sua cama, segure sua mão e fique ali o tempo que for preciso e possível. Que saiba ouvir, que respeite sua liberdade, que sugira sem impor, que penetre na sua dor e arranque de lá um pouco do peso que você carrega sozinho, que conduza uma meditação, que saiba te deixar sozinho e que saiba chegar de mansinho para um chá e um carinho, que lhe traga um copo d'água, uma flor e lhe faça um cafuné ou uma massagem no pé.

Ah... nos momentos de dor, tudo o que o mundo precisa é de amor.