Campanha “Derruba o Veto” pede auditoria da dívida já

A rede Jubileu Sul Brasil se soma à campanha ‪#‎DERRUBAOVETO‬ e pede a todos e todas que participem ativamente da iniciativa. Aprovada no Congresso Nacional, a proposta para realização de uma auditoria da dívida com participação social foi vetada pela presidenta Dilma Rousseff, com argumentos publicados no Diário Oficial da União em 14 de janeiro deste ano. A auditoria estava incluída no Plano Plurianual refente a 2016 a 2019.

Com o veto, a Auditoria Cidadã da Dívida lançou a campanha “Derruba o Veto”. Para participar basta ir no site:http://www.auditoriacidada.org.br/derrubaoveto. O objetivo da campanha é conseguir o voto de 257 deputados e 41 senadores.

Aqui, o passo a passo para participar da Campanha:

1. Escolha 3 deputados e 1 senador para contatar. Os contatos de todos eles estão no site da campanha.

2. Ligue e envie e-mail solicitando que vote pela derrubada do veto presidencial à iniciativa 07BQ, do Objetivo 1095, do Programa 2039, do PPA 2016-2019: “Realização de auditoria da dívida pública com participação da sociedade civil”.

3. Se possível, tire foto ou grave um vídeo com o apoio do seu parlamentar e envie para auditoriacidada@gmail.com .

Conheça 10 motivos para a realização da Auditoria da Dívida Pública:

2015: Marcas que ferem a liberdade de fé, desafios para um Estado laico de fato

Durante o período da Idade Média as monarquias legitimaram seu poder de governar o mundo a partir dos elementos da fé. Na modernidade a ruptura com os elementos religiosos possibilitou que as instituições políticas, oriundas da vontade popular, fundamentalmente democráticas, adotassem diretrizes de separação entre o Estado e a Igreja.

Nesse contexto, a laicidade surge por uma necessidade indispensável, para que, várias sociedades, ideologias e crenças se desenvolvam em uma liberdade harmoniosa, respeitando os direitos individuais e coletivos, e transferindo autonomia exclusiva para sua administração soberana. O Estado laico é aquele que não possui nenhuma religião oficial, que juridicamente deve ser neutro e imparcial no que diz respeito aos temas religiosos, assegurando o direito à fé ou não, garantido que todas as crenças e não crenças sejam respeitadas, ou seja, Estado laico não é sinônimo de Estado antirreligioso.

No Brasil, o advento da proclamação da República foi um marco constitucional decisivo. A partir desse momento, no art.72 da Carta Magna de 1981 se garantia o Estado laico ou o Estado Secular. Atualmente, no art. 5º da Constituição Federal de 1988, no inciso VI, “cita-se que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

As nove áreas em que o Brasil é criticado em relatório global de Direitos Humanos

O Brasil foi citado no Relatório Mundial 2016 da organização Human Rights Watch – que compila abusos de Direitos Humanos em 90 países – pela violência policial e pela superlotação do sistema prisional.

A 26º edição do relatório foi lançada nesta quarta-feira em Istambul. O documento afirma essencialmente que vários governos do planeta reduziram a proteção aos direitos humanos em nome da segurança – e por medo da disseminação de ações terroristas fora do Oriente Médio.

Segundo a organização, os governos europeus têm fechado suas fronteiras para o fluxo massivo de refugiados fugindo principalmente do conflito sírio, deixando a responsabilidade de lidar com a questão para países vizinhos à Síria.

Algumas das consequências são a islamofobia e a estigmatização de comunidades de imigrantes.
Segundo Maria Laura Canineu, diretora do escritório brasileiro da HRW, o Brasil adotou uma ação positiva na questão dos refugiados.

Lc 4,21-30: O profeta não é bem recebido em sua casa - Edmilson Schinelo

Na sinagoga de sua cidadezinha, Jesus havia acabado de ler no livro do Profeta Isaías: O Espírito do Senhor me ungiu para anunciar a boa notícia aos pobres (Lucas 4,16-19). Sentado, observado por todos com atenção, ele proclama: Hoje se cumpriu aos vossos olhos essa passagem da Escritura (Lucas 4,21). Suas palavras despertam admiração e respeito. Mas ao mesmo tempo, escândalo: Não é este o filho de José? (Lucas 4,22).

Qual a causa de tanto espanto? (Lc 4,22-24)

Jesus havia afirmado que o Espírito estava sobre ele. Logo sobre ele, uma pessoa simples ali da aldeia, o filho de José, que todo mundo conhecia! Ele não era sequer sacerdote do Templo! Com que ousadia afirmava ter recebido o Espírito? Por trás destas perguntas, ainda nos dias de hoje, está outra indagação: será mesmo verdade que a salvação vem dos pequeninos?

Mas não era só isso! Sob ação do mesmo Espírito, ele havia proclamado o Ano Jubileu, ano de graça do Senhor, ano do perdão das dívidas (Lucas 4,19), como lemos em Deuteronômio 15,1-18 e em Levítico 25,8-55 (veja sobre isso o artigo de Ildo Bohn Gass). De muitas leis, o judaísmo não se esquecia, mas esta era melhor não lembrar: aceitar o Ano do Jubileu significaria parar de acumular, dar descanso à terra, perdoar as dívidas contraídas pelos mais pobres, buscar a igualdade... Melhor tapar os ouvidos.

Dia de Combate ao Trabalho Escravo

História negra, escola branca

Os programas escolares brasileiros são racistas e o mito da “democracia racial” embaça os olhos da sociedade diante de conflitos étnicorraciais, afirma Amilcar Araujo Pereira.

Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em História, ele lançou em 2013, em parceria com a colega Ana Maria Ferreira da Costa Monteiro, o livro Ensino de História e Culturas Afro-Brasileiras e Indígenas, pela editora Pallas.

Na obra, organizadores e articulistas debatem a efetiva aplicação das leis 10.639, de 2003, e 11.645, de 2009, que determinam a inclusão de história e cultura afro-brasileiras e indígenas nos programas pedagógicos das escolas do País.

Pereira, carioca de 35 anos, foi professor da rede municipal fluminense durante dois anos em Mangaratiba e já escreveu ou organizou outros dois livros sobre temas correlatos.

Ele identifica três razões principais para a disciplina ainda não integrar, de fato, o currículo: falta de materiais didáticos, poucas verbas governamentais para financiar pesquisa histórica e carência de docentes capacitados. Leia mais a seguir.


Carta Educação: O que motivou a organização de Ensino de História e Culturas Afro-Brasileiras e Indígenas?

Lucas 4,21-30: "Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria” - Pe. Tomaz Hughes

Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a Nazaré, logo após o seu batismo. É muito violenta a mudança de atitude dos Nazarenos - da admiração à fúria. Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos em uma só história. Mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos.

Em primeiro lugar “todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca” (v. 22). Com certeza, essa reação não foi causada pela oratória de Jesus, e nem porque soubesse usar “artifícios para seduzir os ouvintes” (1Co 1, 4), como fazem tantos pregadores midiáticos e políticos hoje. Não, foram palavras cheias de encanto porque brotaram da sua intimidade com o Pai, da sua espiritualidade profunda, da sua capacidade de compaixão, da coerência entre a sua fala e a sua vivência. Aqui há um desafio para todos nós – o de deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que a nossa palavra não seja mais a nossa, mas, a manifestação do Espírito que habita em nós. Só assim as nossas palestras e pregações surtirão efeito. Ao contrário disto, por tão eloquente que possa ser a nossa fala, seremos “sinos ruidosos, ou símbolos estridentes” (1Co 13, 2) - chamam a atenção, mas não deixam frutos! Como disse em uma ocasião o Papa Bento XVI, “A Igreja não vive de si, mas do Evangelho e encontra sempre e de novo sua orientação nele para o seu caminho. É algo que cada cristão tem de ter em conta e aplicar-se a si mesmo: só quem escuta a Palavra pode converter-se depois em seu anunciador. Não deve ensinar sua própria sabedoria, mas a sabedoria de Deus, que com frequência parece estupidez aos olhos do mundo”.

Papa viajará para Suécia para cerimônia de 500 anos da Reforma

O papa Francisco viajará para a cidade de Lund, na Suécia, no dia 31 de outubro, para participar da cerimônia conjunta entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial para comemorar o 500° aniversário da Reforma Protestante.

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, explicou que esta visita do papa é "um gesto de diálogo muito significativo".

Na comemoração na Suécia estarão presentes o presidente e secretário-geral da Federação Luterana Mundial, o bispo Munib A. Younan, e o secretário da mesma, o reverendo Martin Junge.

Segundo um comunicado conjunto das igrejas católica e luterana, a comemoração é um exemplo das "sólidas" relações e do diálogo, e incluirá uma "oração comum" que foi redigida por ambas as igrejas.

Na nota, Junge expressou que está "profundamente convencido de que trabalhando pela reconciliação entre luteranos e católicos, trabalhamos pela justiça, pela paz e pela reconciliação em um mundo marcado pelos conflitos e pela violência".

Fonte: CONIC

Por que as religiões de matriz africana são o principal alvo de intolerância no Brasil?

Dados compilados pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro (CCIR) mostram que mais de 70% de 1.014 casos de ofensas, abusos e atos violentos registrados no Estado entre 2012 e 2015 são contra praticantes de religiões de matrizes africanas.

A reportagem é de Jefferson Puff, publicada por BBC Brasil, 21-01-2016.

Divulgado nesta quinta-feira (21), Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o documento reacende o debate: por que os adeptos da umbanda e do candomblé, e suas variações, ainda são os mais atacados por conta de sua religião?

O tema ganhou as páginas dos jornais recentemente, em casos como o da menina Kaylane Campos, atingida por uma pedrada na cabeça em junho do ano passado, aos 11 anos, no bairro da Penha, na Zona Norte do Rio, quando voltava para casa de um culto e trajava vestimentas religiosas candomblecistas.

Também em 2015, no mês de novembro, um terreiro de candomblé foi incendiado em Brasília, sem deixar feridos. Na época, a imprensa local já registrara 12 incêndios semelhantes desde o início daquele ano somente no Distrito Federal.

A BBC Brasil teve acesso ao relatório da CCIR e ouviu especialistas sobre as razões da hostilidade contra as religiões de origem africana e o que pode ser feito.

Hora de aceitar que o Capitalismo não deu certo - Gustavo Tanaka

Esse não é um texto escrito por um cara de esquerda, que sempre levantou a bandeira do socialismo. Esse é um texto escrito por um cara que sempre foi um capitalista. Desde que eu comecei a formar minha visão de mundo, eu fui influenciado pelas maravilhas do mundo capitalista. Eu era daqueles que achava incrível a meritocracia, que achava que eram as grandes corporações que promoviam a evolução da sociedade, que precisávamos do livre mercado.

Nas aulas de história eu secretamente comemorei a vitória dos Aliados sobre o Eixo, mesmo sendo de origem japonesa. Eu queria que conseguíssemos criar um Estados Unidos da América aqui no Brasil.

Ou seja, eu tenho todos os motivos para ter vergonha de mim mesmo hoje. Mas não tenho. Tudo isso foi preciso para eu compor minha visão de mundo e compreensão da vida. Quando eu começo a criticar o sistema, algumas pessoas dizem. “Mas o socialismo não deu certo”. E é aí que eu digo que o Capitalismo também não.

Me desculpem, mas um sistema que leva ao esgotamento dos recursos naturais e desconexão com a natureza, à vidas infelizes com empregos ruins, à desigualdade de oportunidades e padronização de uma vida mecanizada e valorização das pessoas erradas não pode ser considerado um sistema que deu certo.

Vou explorar aqui alguns pontos.

Podem as religiões ajudar a superar a crise ecológica? - Leonardo Boff

Pela primeira vez depois de anos, os 192 países se puseram de acordo na COP21 de Paris em fins de 2015, de que o aquecimento global é um fato e que todos, de forma diferenciada mas efetiva, devem dar a sua colaboração. Cada saber, cada instituição e especialmente aquelas instâncias que mais movem a humanidade, as religiões, devem oferecer o que podem. Caso contrário, corremos o risco de chegarmos atrasados e de enfrentarmos catástrofes como nos tempos de Noé.

Abstraímos o fato de que cada religião ou igreja possuem suas patologias, seus momentos de fundamentalismo e de radicalização a ponto de haver cruéis guerras religiosas, como houve tantas entre muçulmanos e cristãos. Agora o que se pede, é ver de que forma, a partir de seu capital religioso positivo, estas religiões podem chegar a convergências para além das diferenças e ajudar a enfrentar a nova era do antropoceno (o ser humano como o meteoro rasante ameaçador) e a sexta extinção em massa que está já há muito tempo em curso e se acelera cada vez mais.

Tomemos como referência as três religiões abraâmicas por serem do espaço cultural.

As lutas por um mundo melhor estão todas ameaçadas pela crise de desigualdade

Enquanto os ricos e poderosos do mundo se reúnem em Davos para o Fórum Econômico Nacional, uma aliança das principais instituições de caridade internacionais, militantes dos direitos humanos, grupos que trabalham pelos direitos das mulheres, grupos ambientalistas, organizações da sociedade civil e sindicatos se uniu para combater a crise crescente de desigualdade.

Em uma declaração conjunta, a aliança, incluindo ActionAid, Anistia Internacional, Oxfam, Greenpeace e a Confederação Sindical Internacional alerta que a desigualdade crescente ameaça os progressos atingidos no desenvolvimento, no ambiente, nos direitos das mulheres e nos direitos humanos.

A declaração da aliança diz: “As lutas por um mundo melhor são todas ameaçadas pela crise de desigualdade que está saindo de controle. Em todo o mundo, estamos vendo o abismo entre os mais ricos e os demais atingir extremos não vistos há um século”.

Lc 4,16-21: “O Espírito do Senhor me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres” - Ildo Bohn Gass

O evangelho para a liturgia deste domingo inicia com o prólogo da obra de Lucas (1,1-4). Sua intenção fundamental é apresentar a prática de Jesus como fato histórico testemunhado por seus seguidores e suas seguidoras. O destinatário é “Teófilo”, o que significa “amigo de Deus”. Teófilo é toda a pessoa ou comunidade que vier a ler e a viver este evangelho, tornando-se sempre mais amigo e amiga de Deus. Portanto, hoje, “Teófilo” somos nós.

Movido pelo Espírito de Deus...

Na sequência, o evangelho deste domingo apresenta um resumo da prática de Jesus de Nazaré (Lucas 4,14-15). Ele vivia em meio a seu povo, participando de sua vida de fé. Ensinava nas sinagogas da Galileia, na periferia da Palestina. Toda sua missão é movida pelo dinamismo do Espírito (Lucas 3,22; 4,1.14.18). Para as comunidades de Lucas, a ação de Jesus é inseparável do Espírito profético, o Espírito de Deus. Convém que tenhamos presente que a força do Espírito do Senhor também conduziu João Batista e Maria, Isabel e Zacarias, Simeão e Ana (Lucas 1,15.35.41.67; 2,25-27.36).

Apresentando a missão de Jesus dinamizada pela força do Espírito, a comunidade lucana nos desafia a que também nós abramos nosso coração ao Espírito Santo e nos coloquemos a seu serviço, a serviço da libertação de todas as formas de opressão, promovendo a vida.

... para libertar os pobres...

Lc 1, 1-4; 4,14-21: “O Espírito do Senhor está sobre mim” - Pe. Thomas Hughes

O texto relata a primeira experiência da Vida Pública de Jesus. Deu-se na sua terra de criação - Nazaré. Na linguagem de hoje, Jesus foi para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da equipe litúrgica, para fazer a segunda leitura! Naquela época, o culto da sinagoga tinha duas leituras - a primeira tirada da Lei, a segunda dos Profetas. Jesus, abrindo o livro do Profeta Isaías, encontrou a passagem que diz:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano da graça do Senhor” (4, 18-19). Não que Ele encontrasse esta passagem por acaso! Pelo contrário - Jesus procurou até achar, pois Ele identificava a sua missão com aquela descrita pelo profeta. Por isso, na hora da homilia, começou com a frase chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir” (4, 21). Jesus identificou a sua missão com a do Capítulo 61 de Isaías. Nós, como discípulos d’Ele, temos a mesma missão. Olhemos os elementos:

O desabafo de uma indígena: “Eu não quero ser como vocês”

Qual o lugar de Vítor Kaingang? Ele foi assassinado aos 2 anos no dia 30 de dezembro, na rodoviária de Imbituba (SC). Qual o lugar dos indígenas em nossa sociedade? O desabafo emocionado da tenente (atriz, fisioterapeuta) Sílvia Nobre Waiãpi sobre a morte de Vítor traz embutida essa reflexão – ou a denúncia de que nós, brancos, não oferecemos nenhum lugar aos povos indígenas. Na cidade, não pode. E, no campo, as terras são tomadas. Por exemplo, pelo agronegócio.

A degola de Vítor não motivou grande comoção no país. O principal jornal do país, a Folha, só descobriu nesta terça-feira o assassinado, em texto seco sobre o pai do bebê Kaingang: Acabou com o meu mundo, diz índio pai de bebê esfaqueado no litoral de SC. E é exatamente essa indiferença um dos temas do desabafo de Sílvia, da etnia Waiãpi, do Amapá, que já fez pontas como atriz na Globo, é fisioterapeuta e tenente do Exército:

“Eu não quero ser como vocês. Não. Não assim. Que silencia diante de tanta dor e que não tem coragem pra ficar do lado daquilo que é certo”.

Jo 2,1-12: “Fazei tudo o que ele vos disser” - Ildo Bohn Gass

O evangelho a ser refletido na liturgia deste final de semana é tradicionalmente conhecido como “as bodas de Caná”. Essa narrativa leva-nos a perguntar sobre o papel da religião, da vivência da aliança entre Deus e as pessoas. A função da religião é petrificar o coração humano ou é gerar novas criaturas no amor de Deus?

De corações empedernidos...

No texto, há vários elementos que revelam a antiga aliança, que foi aprisionada pela religião oficial.

O primeiro é a referência a um casamento. Em Israel, o casamento, desde o profeta Oséias, é uma imagem da aliança de Deus com o seu povo. Portanto, a narrativa nos conduz para dentro da aliança.

Um segundo elemento é a ausência de vinho. “Eles não têm mais vinho”. O amor, representado pelo vinho, e que a aliança deveria revelar, já não existe mais. As estruturas mataram o amor, o petrificaram. Aqui, “eles” é uma referência às autoridades religiosas que transformaram a lei, que deveria gerar vida e liberdade no amor, em um peso para o povo, em um ritualismo vazio de água, vazio de vida e de sentido.

Diante de uma pessoa com dor - André A. Pereira

Tudo que uma pessoa doente precisa é de uma presença humana que segure a sua mão.

Alguém que se sente ao seu lado e fique em silêncio.

E, quando sentir que é o momento, que afague seus cabelos num tradicional e inocente cafuné.

E, se for um dia de verdadeira bênção, que a pessoa além disso tudo, diga poucas palavras como essas: “vai passar, vai passar” e transmita o frescor da sua paz.

Alguém que respire fundo, olhe nos olhos e encontre como verdade do seu coração, a seguinte afirmação: “tudo passa, essa dor também vai passar.”

E se não houver tamanha inspiração, que siga a intuição do seu afeto e possa dizer algo como: “estou aqui com você.” Porque o afeto precisa de palavras simples para ser tocado.

Tudo que uma pessoa precisa é de presença humana.

E como é difícil para as pessoas o simples ato de tocar e segurar a mão por mais de dois segundos! Ou afagar os cabelos ou afagar o peito! Ou abraçar de corpo inteiro!

A religião com sabor de terra

A leitora Débora Bernal Ramos comentou, na página do Facebook deste jornal, meu artigo sobre o fascínio produzido pelas crenças africanas: "A umbanda nos coloca diante de um espelho que reflete sua luz e sua sombra, para um melhor autoconhecimento".

Isso me levou a escrever sobre alguns equívocos de certos movimentos religiosos cristãos modernos que demonizam as religiões de matriz africana, ou da Terra, como também destaca o leitor Felipe Heyden Bellotti.

As religiões monoteístas têm nos ensinado que a religião e a espiritualidade, para serem verdadeiras, devem ter sabor de céu, o mais distante possível da realidade em que vivemos.

E se, pelo contrário, não houvesse religiosidade verdadeira sem sabor de terra?

Uma religião do céu e para o céu, na qual até mesmo o bem que fazemos ao nosso próximo deve se basear em uma recompensa futura, fora da história, é mais alienação do que religião.

O poeta Whitman profetizava:

"Surgirá uma nova ordem,
e os homens serão
os sacerdotes do homem,
e cada homem será
seu próprio sacerdote."

A etimologia da religião pede proximidade, conexão, vínculos... mais do que com um Deus sem rosto, sem tempo e sem espaço, mas com o mais íntimo de nós mesmos, com nossa consciência e com a terra que pisamos e da qual nos nutrimos.

Herodes e o menino Kaingang degolado - Pedro Ribeiro de Oliveira

Nesse dia seis de janeiro, ao celebrar com a Folia de Reis a visita dos Magos ao menino que amedrontou Herodes, me veio o gosto amargo da derrota sofrida em Imbituba, há apenas uma semana: Herodes mandou degolar mais um menino. Com o requinte de crueldade de ser a criança atacada justamente onde nos sentimos maior segurança – o colo materno.

Se Vitor fosse branco e estivesse com a família em uma praça do Rio ou São Paulo, o crime hediondo estaria em todos os noticiários e provocaria repulsa maior do que as fotos de prisioneiros prestes a serem degolados por terroristas do Estado Islâmico. Mas Vitor é Kaingang e só foi morto porque índio não tem valor para a sociedade capitalista. Não se sabe até o momento de quem é a mão que passou o estilete mortal na garganta do menino. Sabemos, porém, quem são os mandantes do assassinato: grandes proprietários e proprietárias de terra que não respeitam o direito dos Povos Indígenas a terem seu próprio modo de produção e de consumo. Tal como o Herodes bíblico, eliminam até mesmo crianças que possam um dia ameaçar seu poder econômico.

Em outros tempos a Igreja católica não ficaria em silêncio diante de um crime como esse. A nota do CIMI seria acompanhada de uma nota dos bispos e repercutiria por dezenas de milhares de comunidades de base de todo o Brasil. Celebraríamos os Reis magos, com certeza, mas não deixaríamos em silêncio o crime cometido por Herodes apenas uma semana antes. Pediríamos perdão por não termos evitado, com uma legislação e uma educação corretas, o preconceito contra os povos indígenas e nos comprometeríamos com os Santos Reis a tomar outro rumo nos caminhos da história. O sofrimento daquela pequena família Kaingang ao ver seu filho caçula esvaindo-se em sangue deveria dar um sentido mais realista à celebração da Epífania: aprender com os Santos Reis da bela tradição popular, a ver naquela criança degolada o anúncio da Libertação dos Povos Indígenas.

Balanço da questão agrária no Brasil em 2015

Confira o balanço do ano de 2015 sobre a Questão Agrária brasileira, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra – Regional Nordeste II.

O ano de 2015 foi marcado pelo desmonte de órgãos do Governo e por cortes de recursos públicos para a Reforma Agrária e demarcação de territórios quilombolas e indígenas. A aliança do Estado brasileiro com o agronegócio se intensificou, atingindo diretamente o conjunto dos povos do campo. A violência contra as comunidades camponesas e povos indígenas foi praticada não só pela lógica do capitalismo, como também pelo Estado brasileiro.

O número de assassinatos no campo cresceu. A destruição das florestas aumentou. O uso de veneno, que chega a nossas mesas, foi ampliado. Os recursos para o Programa de Construção de Cisternas e outras tecnologias sociais sofreram cortes e no campo persistiu o trabalho escravo. A natureza foi, cada vez mais, o filão das empresas capitalistas. Com isso, seguiu intensamente a apropriação das águas, das terras, do sol e do ar. A natureza foi e está sendo privatizada. Neste cenário, fica mais clara a lógica do capitalismo e do Estado brasileiro.

Do outro lado, a memória dos povos do campo e a crescente violência o fizeram permanecer em luta. Foram inúmeras ocupações e retomadas de terra, marchas, jornadas e protestos que alimentaram a rebeldia necessária para manter a esperança na construção da Terra sem males, do Bem Viver.

Confira abaixo o balanço da questão agrária brasileira no ano de 2015, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra – Regional Nordeste II:

Economia promotora dos Direitos Humanos e Ambientais

Crescem o clamor e a mobilização por políticas econômicas, social e ecologicamente responsáveis. Movimentos sociais e Igrejas apontam, com toda a clareza, que a economia está em função da reprodução da vida humana e do cuidado e preservação de toda a criação e não do deus dinheiro e do “deus” mercado.

Tornou-se clara toda a gravidade da crise ecológica, com eventos extremos: de secas, inundações. A terra não é mais capaz de recompor suas perdas causadas pela sobre-exploração dos recursos naturais não renováveis, destruição acelerada das matas, rios e oceanos e pela contaminação do ar, que colocam em cheque nosso modelo civilizatório. O Curso de Verão de 2016 ira debater o tema, ECONOMIA PROMOTORA DOS DIREITOS HUMANOS E AMBIENTAIS.

O Curso Soma-se à (C F E) de 2016, promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs/CONIC: CASA, COMUM NOSSA RESPONSABILIDADE.

A C F E estará voltada para o saneamento básico capaz de assegurar água de qualidade, esgoto e lixo tratados e coletados, com o lema tirado do Profeta Amós: Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca (Am 5.24).

O Curso de Verão é um programa de formação popular no campo sócio-político­ cultural, a partir da realidade e seus desafios, à luz da Bíblia, Teologia, Pastoral e do empenho na transformação da sociedade. É um espaço ecumênico e inter- religioso de convivência, partilha de vida, intercâmbio de experiências, celebração e compromisso. Com especial atenção aos jovens, acolhe participantes de todas as idades, em busca de maior compreensão, respeito e equidade entre mulheres e homens, no esforço para transformar as pessoas e a sociedade, na linha da justiça, solidariedade e salvaguarda do meio ambiente.

Uma agenda prioritária de defesa dos direitos sociais para 2016

A “agenda latino-americana 2016" renova uma publicação de todos os anos da Comissão dominicana de justiça e paz do Brasil, escolheu como tema deste ano “Desigualdade e propriedade”.

Em meio aos espaços destinados a previsão e registro de compromissos diários das/os suas/seus leitoras/es, como toda a agenda faz, artigos de conhecidas/os pensadoras/es, de diversas áreas do conhecimento, no Brasil e no mundo, abordam o tema sob o conhecido método de ver, julgar e agir.

Dos nove artigos sobre o ver, o que mais impressiona são os dados estatísticos relacionados com a desigualdade social em todos os países.

Frei José Fernandes Alves analisando a situação brasileira, com base em um documento da CNBB (Pensando o Brasil: a desigualdade social no Brasil. Vol. 2, Brasilia. Edições CNBB, 2015), revela:

“Quinze famílias mais ricas do país detêm um patrimônio equivalente a 270 bilhões de reais, o que representa o dobro dos recursos destinados a 40 milhões de pessoas atendidas pelo programa Bolsa Família, com um investimento de 127,3 bilhões, nos últimos 11 anos.”

“E Deus, se vier, que venha armado” - Marcelo Barros

Esse título não contém nenhuma referência ou alusão à bancada que se diz “evangélica” no Congresso Nacional. Nem aos deputados que pertencem à “bancada da bala”, que propõe facilitar a venda de armas para todo brasileiro que deseje. A expressão é de Guimarães Rosa no “Grande Sertão Veredas”. Ela cabe bem ao Brasil e ao mundo desse início de 2016. Em uma publicidade norte-americana, até Papai Noel tem uma arma na mão. Isso parece natural em um mundo no qual só se fala em terrorismo e necessidade de segurança.

É importante lembrar isso nesse começo de ano novo, quando ainda os nossos votos de “feliz ano novo” ecoam pelo ar. Infelizmente, para muitos brasileiros, esse ano não será feliz, principalmente por causa da facilidade com que se vendem e se compram armas e essas são usadas para matar. Como podemos pensar em um ano novo feliz para os brasileiros, se, conforme dados do Ministério da Saúde, entre 2013 e 2015, no Brasil, quase 750 mil pessoas foram assassinadas. E a maioria dessas mortes (74%) se deu com armas de fogo. Uma pesquisa nacional mostra uma estreita relação entre disponibilidade de armas de fogo e elevação das taxas de homicídio. Em números absolutos, em nenhum país do mundo, as pessoas matam mais do que no Brasil. 

Tu és o meu filho amado, em ti está o meu agrado (Lc 3,15-16.21-22) - Ildo Bohn Gass

A liturgia deste final de semana propõe abrir-nos a Deus, da mesma forma como Jesus o fez ao acolher o dom do Espírito enquanto estava em oração logo após o seu batismo.

Em Lucas, a narrativa a respeito do batismo de Jesus vem depois do Evangelho da Infância. Entre as narrativas da infância (Lucas 1-2) e o início da missão de Jesus (Lucas 4,14 em diante), os autores deste Evangelho inserem o relato da preparação do caminho do Senhor feita por João Batista (Lucas 3,1-20) e o relato da preparação de Jesus para sua missão (Lucas 3,21-4,13). Como dobradiça que liga as duas partes, está a narrativa a respeito do batismo de Jesus (Lucas 3,21-22). Temos, assim, um paralelo entre dois batismos: o de João com água e o de Jesus com o Espírito e com o fogo.

João aponta para o Messias

A comunidade de Lucas faz questão de situar historicamente o início da atividade de João (Lucas 3,1-2). Do ponto de vista político, foi no tempo de Tibério, imperador romano de 14 a 37 d.C., e de Herodes Antipas, governador da Galileia desde 4 a.C. até 39 d.C. Do ponto de vista religioso, foi na administração do sumo sacerdote Caifás (sumo pontífice no templo de 18 a 36 d.C.), genro de Anás (6-15 d.C.), nomeado sumo sacerdote por Herodes Antipas em nome do imperador.

Jo, 1, 1-18: “O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” - Tomaz Hughes

Embora sejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente ao nascimento do Salvador em Belém, o texto tirado do prólogo de João nos traz o sentido profundo dos eventos do primeiro Natal.

Ele gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra” – “Logos” em grego. Enquanto Marcos somente começa o seu relato do Evangelho de Jesus com o seu batismo e Lucas e Mateus remontam até a sua concepção, o Quarto Evangelho liga Jesus à sua preexistência, desde o começo:

“No princípio já existia a Palavra
e a Palavra estava com Deus
e a Palavra era Deus......
a Palavra se fez homem
e armou sua tenda entre nós”( 1, 1.14)

Mesmo que se expresse sobre Jesus em termos não tão familiares para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição do Antigo Testamento. Embora use a palavra grega “Logos”, para expressar a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não está uma discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos gregos, mas muito mais o sentido teológico do termo hebraico “Dabar”, que indica a Palavra criadora, congregadora e libertadora de Deus, expressão do Deus de amor de libertação.

O projeto de Deus aconteceu quando essa palavra se fez humana, armou a sua tenda e acampou entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen” deriva-se do termo “skêne, que significa uma tenda de campanha. Na visão do Quarto Evangelho, A Palavra, o Verbo Divino, “armou sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo!” Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja, aonde anda o povo, lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré. Nele e por ele a Palavra Criadora age, operando a salvação aqui na terra. Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão e projeto.