Mapa revela segregação racial no Brasil

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O que o mapa racial do Brasil revela sobre a segregação no país?

Pelo menos por um século perdurou no Brasil a ideia de que a democracia brasileira não fazia distinção de cor ou raça e que, por aqui, “todos são iguais”. O mito da democracia racial, hoje, é questionado. E contribui para isso o reconhecimento do problema do racismo pelo governo brasileiro. Observar o mapa da segregação racial (acima), com especial atenção à diferença norte-sul do país e à formação de periferias nas grandes cidades, dá uma ideia de por que essa máxima, que ainda ecoa no senso comum e em alguns discursos, não encontra correspondência no plano real.

Analisar a segregação espacial tomando como base o indicador de raça e cor (colhido pelo IBGE, que classifica as respostas de acordo com a autodeclaração dos entrevistados) em conjunto com outros indicadores se tornou um modo eficiente de demonstrar que para entender as dinâmicas sociais no Brasil, levar em conta sua constituição de raça e cor é fundamental. 

Como a história explica a divisão norte-sul do Brasil?

Notou algo olhando para esse mapa? O Brasil parece dividido ao meio, sendo uma parte composta pelas regiões Sul e Sudeste, formada majoritariamente por brancos; e outra composta por Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com maior presença de pardos e pretos. O histórico escravocrata (que concentrou escravos principalmente no Nordeste, Minas Gerais e Rio de Janeiro dado o cultivo da cana-de-açúcar, a mineração do ouro e a cultura cafeeira), a presença da capital no Rio de Janeiro (até 1960), a entrada dos imigrantes europeus e a concentração da industrialização no Sul e Sudeste são todos fatores que contribuem para essa divisão. Não por acaso, as capitais dos Estados dessas regiões são também as mais segregadas – Porto Alegre (RS), Vitória (ES), São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), Florianópolis (SC) e Curitiba (PR) estão entre as oito capitais que lideram o ranking de segregação elaborado pelo Nexo.

Por que a capital mais negra no Brasil também é uma das mais segregadas?

A capital baiana é a mais negra do Brasil. É composta, segundo o critério de autodeclaração do IBGE, por 79,4% de negros (pretos e pardos), 18,9% de brancos, 1,34% de amarelos e 0,28% de indígenas. Mesmo sendo maioria, negros de Salvador habitam regiões visivelmente distintas dos brancos. Estes, estão concentrados em regiões nobres ao sul da cidade, como Barra, Graça, Rio Vermelho, Caminho das Árvores, Itaigara, Armação e Pituba. “Salvador também possui um dos maiores níveis de desigualdade de renda entre brancos e negros”, aponta o sociólogo da USP especializado em segregação e relações raciais, Danilo França. “A renda média dos brancos soteropolitanos é mais do que o dobro dos negros. Tais processos certamente estão entrelaçados.” Para a pesquisadora Antonia Garcia dos Santos, da UFBA, a “segregação não faz bem a nenhuma sociedade e reflete bem os valores sociais, políticos, econômicos que presidem a formação do território brasileiro” e Salvador “é muito representativa disso desde a colonização escravista”. “Do ponto de vista dos serviços fundamentais como saúde e educação, Salvador tem uma distribuição bastante injusta, à medida que eles se concentram nas áreas mais ricas da cidade, ou seja principalmente nas ‘ilhas brancas’ de Salvador.”

Seja na ilha ou no continente, Florianópolis é a capital mais branca do Brasil

Dona do maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e da maior participação de brancos no total da sua população (84,5% de brancos para 14,6% de negros) dentre as capitais brasileiras, Florianópolis é também a sétima no ranking de segregação. Os pequenos focos de população negra na cidade se concentram nas regiões centrais do continente e da ilha, com destaque para a área próxima ao Morro da Cruz, marcada pela presença de diversas comunidades pobres.

Qual a cara da capital menos segregada do Brasil? Olhe para Macapá

A capital do Estado do Amapá, no extremo norte do Brasil, é a menos segregada e dona do terceiro pior IDH dentre as capitais. Sua população é composta por 0,2% de indígenas, 1% de amarelos, 26,3% de brancos e 72,3% de pretos e pardos – no Norte, “pardo” é usado com frequência para designar pessoas com alguma ascendência ou traços físicos indígenas. Apesar de alguns focos mais fortemente marcados por brancos ou pretos, Macapá mostra-se racialmente mais distribuída.

E da mais segregada? Vamos então a Porto Alegre

No outro extremo está Porto Alegre, a capital mais segregada do País. Segundo o pesquisador do Observatório das Metrópoles gaúcho e professor na UFRGS, Paulo Roberto Soares, a cidade “tem uma história particular em termos de urbanização”. “O município realizou sucessivas reformas urbanas que expulsaram negros e pobres das áreas centrais. A população negra sofreu sucessivas remoções dos seus territórios tradicionais, como a Cidade Baixa e a Colônia Africana (hoje bairro Rio Branco)”, diz. “Posteriormente, as regras urbanísticas impostas pelos planos diretores tornaram o solo urbano muito caro na cidade, fazendo com que os pobres ocupassem os morros e as vilas irregulares. Assim, um amplo espaço da cidade se tornou de classe média e, por conseguinte, branco.”

A segregação na capital federal vai muito além do Plano Piloto

Grosso modo, Brasília tem sua população dividida entre brancos (42%) e negros (56%). Por que o mapa ao lado então é tão monocromático? Para entender o que aconteceu com a parte não-branca dos seus residentes é preciso abrir um pouco o mapa e olhar além do plano piloto de Lúcio Costa e as regiões banhadas pelo Lago Paranoá. O que vê são as cidades satélites que compõem com Brasília o Distrito Federal. Assim, o berço do poder federal é também uma das dez capitais mais desiguais do país. “Seria muita pretensão acreditar que somente o planejamento urbano de Brasília teria força para superar as desigualdades de uma sociedade”, diz o professor doutor em geografia Paulo Roberto Soares. “No caso, o plano poderia ser perfeito, mas as forças da sociedade falaram mais alto e também incluíram Brasília no padrão de segregação das cidades brasileiras.”

O Rio de Janeiro também é partido racialmente ao meio

A cidade partida de Zuenir Ventura, a divisão morro e asfalto, e a diferença entre centro e periferia ficam todos evidentes no mapa. A zona sul, composta por áreas nobres como Barra da Tijuca, Ipanema, Leblon e Copacabana – com a exceção de regiões de favelas, como Rocinha e Vidigal – se destaca pela hegemonia de autodeclarados brancos. Nos demais distritos sentido zona norte, o que se vê são bairros mais misturados embora ainda com distintos blocos formados sobretudo por pretos e pardos, “paisagem” que muda de cara quanto mais distante se fica do centro, dos núcleos de trabalho e das praias cariocas.

A cidade de São Paulo tem maioria branca e segregação bem demarcada

Dona do maior PIB do Brasil, São Paulo é a terceira capital mais segregada, a quarta mais branca (60,6%) e a sétima no ranking de IDH. A separação entre brancos e negros se dá de forma mais acentuada do centro para a periferia, mas se estende por polos empresariais importantes como a região das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Berrini, além de conjuntos residenciais dentro e fora da cidade, notadamente os Alphavilles, entre Barueri e Santana do Parnaíba (vê uma mancha monocromática acima da Rodovia Castelo Branco? É ali). A segregação espacial também se reflete na segregação socioeconômica dos paulistanos e a relação entre os dois indicadores aumenta quanto maior a classe social ocupada por negros. É o que concluiu o pesquisador da USP, Daniel França, em estudo publicado em 2013. “Entre a população mais pobre há grande proximidade entre os grupos raciais. Porém quando consideramos classes médias e altas, há uma distância expressiva entre brancos e negros”, diz. “Os negros de classe média e alta têm significativa concentração em bairros periféricos, mais especificamente nas chamadas ‘periferias consolidadas’ da cidade.”