Refletindo sobre a Unidade: E se, de fato, formos todos um?

Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia. João 17:21

As palavras de Jesus encontradas no Evangelho de João, capítulo 17, verso 21, é um dos versículos bíblicos que mais nos inspira a falar do tema da unidade. É muito nítida essa vontade do mestre em aconselhar-nos à jornada da Unicidade. “Para que todos sejam um” antecipa um conceito elementar da ciência moderna, sobretudo as pesquisas relacionadas à física quântica, que diz: “somos todos um”.

Como assim? Se no mundo físico nós encontramos divisões, por exemplo: homem e animal; animal e vegetal; vegetal e mineral, ou mesmo as divisões de ordem social, como negros e brancos, homens e mulheres, adultos e crianças, abastados e necessitados, na esfera quântica essa divisão não existe. Nem mesmo a divisão entre energia e matéria. Não há matéria, tudo é energia que circula o tempo todo e para todos os lugares. Falando para acadêmicos da Universidade de Stanford, em 1912, `Abdu'l-Bahá, primogênito e sucessor de Bahá'u'lláh - fundador da Fé Bahá'í, disse:

“Digamos, por exemplo, que os elementos celulares que entraram na composição de um organismo humano foram, num certo tempo, partes componentes do reino animal; em outro tempo entraram na composição do vegetal e, antes disso, existiram no reino mineral. Eles estiveram sujeitos a transferência de uma condição de vida a outra, passando por diversas formas e aspectos, exercendo funções especiais em cada existência. Sua jornada através de fenômenos materiais é contínua.”

Na década de 1920, Werner Heisenberg, envolvido nas pesquisas relacionadas à mecânica quântica, mostrou ao mundo algo assustador: quando observamos o fenômeno subatômico, é impossível separar observador (cientista) do objeto observado, ou seja, na esfera subatômica a pessoa se funde com aquilo que ela observa ou interage. Está tudo muito conectado. Até você e sua cadeira de trabalho são uma só “coisa”. Chega ser hilário, mas é o que ocorre no campo das energias.

Na canção “A Fonte”, da banda Legião Urbana, há uma passagem que diz: “Não faça com os outros o que você não quer que seja feito com você”. Essa é uma regra de ouro pelo simples fato de que, fazendo com o outro, do ponto de vista quântico, estamos fazendo conosco. Já reparou que quando destratamos alguém, no fundo, nós também ficamos mal? Quando somos indiferentes a um afeto, a um carinho, depois vem um certo arrependimento e uma sensação de que poderíamos ter feito diferente? Repare que a ação (ou a não ação) foi perpetrada por você em alguém, mas você também sente os efeitos. É como o não perdão. Se você não perdoa a alguém, no fundo, fica com esse peso na consciência e esse não perdão não apenas deixa triste a quem não foi perdoado, como também tira a paz do não perdoador.

No universo físico tudo é átomo que, por sua vez, é composto de prótons, elétrons e nêutrons, que nada mais são que partículas. E essas partículas estão intrinsicamente conectadas umas às outras. Mesmo que do ponto de vista físico estejamos separados, do ponto de vista da energia estamos conectados.

A Ecologia Profunda – conceito cunhado pelo filósofo e ecologista norueguês, Arne Naess, na década de 1970 – vai nessa mesma linha quando trata a relação do homem com os ecossistemas de forma sistêmica e constante. De acordo com o professor Marco Aurélio Bilibio, um dos pioneiros da Ecopsicologia no Brasil, a grande sacada da Ecologia Profunda é que ela conecta tudo em todos. Ele diz:

“A Ecologia Profunda é um conceito sistêmico que questiona em profundidade nosso modo de viver e as suas consequências, entendendo que todas as coisas estão interligadas [...]. Tudo quanto agride o meio natural agride o ser humano. Assim, o meio ambiente transcende a área da natureza em si e incorpora também os relacionamentos do ser humano consigo mesmo, com os outros seres, e com tudo mais. A Ecologia Profunda considera a interdependência e a interconectividade entre o meio natural, o ser humano e o meio construído pelo ser humano, sob o enfoque da sustentabilidade, para assegurar a preservação de todas as espécies, inclusive a espécie humana, e a qualidade de vida na Terra e no Universo.”

Um dos teóricos mais respeitados do pensamento sistêmico e que defende, em várias de suas obras, a ideia de que tudo está conectado é o austríaco Fritjof Capra. Em uma de suas entrevistas concedidas no Brasil por ocasião do lançamento do livro “A Ciência de Leonardo da Vinci”, ele afirmou que:

“Nos sistemas vivos, as partes estão intimamente interconectadas, você não pode entender o todo, ao menos que você entenda as interconexões das partes. Isso se refere também aos problemas que temos no mundo. Precisamos entender que os assuntos ligados à energia, aquecimento global, segurança, finanças, economia não são assuntos isolados. Esses elementos todos estão interconectados.”

Mais uma vez recorremos a Abdu’l-Bahá que nos traz uma percepção muito atual sobre a origem de todas as coisas, ainda que tenha proferido estas palavras no início do século XX:

Devemos saber, portanto, o que era, a princípio, cada uma das existências, pois, sem a menor dúvida, a origem foi uma só, assim como a origem de todos os números é um, e não dois. Evidentemente, a matéria foi uma, desde o começo e, em cada elemento, esta mesma matéria aparecia sob aspectos diferentes, sendo assim produzidas várias formas; e esses aspectos diversos, à medida que se produziam, tornavam-se constantes, sendo cada elemento especializado. Essa constância, porém, não era definida; só depois de muito tempo atingiu plena realização, ou existência perfeita. Esses elementos vinham então a se compor, organizar e combinar uma infinidade de formas; ou melhor, resultaram da combinação desses elementos, inúmeros seres.

Se o pensamento religioso nos traz esta percepção por outro lado, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), que é um dos maiores e mais respeitados centros de pesquisa científica do mundo, tem seus cientistas que trabalham no Grande Colisor de Hádrons (LHC), perto de Genebra, na Suíça, esmagando conjuntos de partículas para chegar à essência do que faz a matéria. E em março de 2013, o bóson de Higgs, a partícula mais elementar foi encontrada por meio do trabalho no LHC, marcando um avanço na física de partículas. Foi esta descoberta, apelidada de Partícula de Deus, que explica a origem comum de todas as coisas no mundo físico que conhecemos.

Somos todos um. Pois tudo o que existe se relaciona a uma origem comum. Essa é uma das conclusões a que podemos chegar... não com base apenas em dogmas religiosos ou postulados espiritualistas, mas no que o que as pesquisas científicas mais modernas trazem. E se somos todos um, faz sentido fazer guerra contra outros povos? Faz sentido escravizar? Faz sentido tratar a natureza de maneira irresponsável, pensando apenas em ganhos?

Autores:

Iradj Eghrari,
Secretário Nacional de Ações com a Sociedade e o Governo da Comunidade Bahá’í do Brasil

Geanderson Reis,
Assessor de Comunicação do CONIC - Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil

Fonte: CONIC