Islam um código de vida, amor e paz - por Francirosy Campos Barbosa

“Nós te enviamos como uma misericórdia para os povos” (Alcorão 21:107)

A pluralidade, diversidade da nossa sociedade atual não impede que sejamos completamente aversos ao diferente. O brasileiro forja a ideia de “homem cordial”, mas o que temos visto em todos lugares, no cotidiano das ruas e das redes sociais é uma onda de preconceito avassalador depois do último atentado em Paris. Os muçulmanos viraram alvos de ofensas, que vão de xingamentos a dizer para uma criança na escola que ela que explodiu a bomba em Paris. Mulheres muçulmanas foram acometidas pelo medo de andar nas ruas, de usar transporte público. Só nesta semana quase 100% delas me disseram ter medo de sair às ruas e me narraram episódios que me faz refletir que falta conhecimento ao povo brasileiro da religião muçulmana. Ainda vemos o Islam como uma religião étnica, árabe e contida no Oriente Médio e mesmo que fosse uma religião tal qual as pessoas imaginam ser, também não justificaria tanta islamofobia, xenofobia. O Brasil é também um país que deve muito aos árabes, é um país de imigrantes, misturado.

O que os brasileiros ainda não sabem é que a maioria dos muçulmanos está no continente asiático e africano. No último sermão do Profeta Muhammad ele diz como ensinamento aos muçulmanos: “Um árabe não é superior a um não-árabe, nem um não-árabe tem qualquer superioridade sobre um árabe; o branco não tem superioridade sobre o negro, nem o negro é superior ao branco; ninguém é superior, exceto pela piedade e boas ações...”.

O Islam religião revelada no século VII ao Profeta Muhammad tem cinco pilares da prática: 1) A profissão de fé – Shahada, que é dizer:Não há Deus, se não Deus, e o Profeta Muhammad é seu mensageiro.Ao dizer isso, qualquer pessoa se torna muçulmano. É a base da religião dizer que nada pode ser maior ou associado a Deus, e o Profeta Muhammad é o mensageiro e não santo e não deve ser cultuado, representado imageticamente, inclusive, assim como todos os demais profetas do Islam: Noé, Abraão, Moisés, Jesus, no total são 144 mil profetas que os muçulmanos respeitam. Se um muçulmano ofende algum deles, por exemplo, ele não pode ser considerado muçulmano; 2) Salat (oração) é obrigação de todo muçulmano rezar cinco vezes ao dia, a oração é a primeira forma de adoração a Deus."Sou Deus. Não há divindade além de Mim ! Adora-Me, pois, e observa a oração, para celebrar o Meu nome."(Alcorão 20:14). Esta obrigação religiosa começa na adolescência tanto para homens quanto para mulheres. As mulheres não devem rezar quando estão menstruadas, não porque são impuras, mas porque a oração deve ser feita abluída (limpo), as pessoas fazem uma limpeza corporal antes de cada oração. Adorar a Deus requer um corpo limpo, um lugar limpo e um coração limpo. 3) O Zakat (purificação) é a contribuição anual equivalente a 2,5% da renda anual que o muçulmano deve pagar para ajudar outros muçulmanos"E lhes foi ordenado que adorassem sinceramente a Deus, fossem monoteístas, observassem a oração e pagassem o Zakat; esta é a verdadeira religião." (Alcorão 98:5); 4) O Jejum do mês do Ramadan, o jejum dura de 29 a 30 dias, da alvorada ao pôr do sol."Ó fiéis, está-vos prescrito o jejum, tal como foi prescrito a vossos antepassados, para que temais a Deus.Jejuareis determinados dias; porém, quem de vós não cumprir o jejum, por achar-se enfermo ou em viagem, jejuará, depois o mesmo número de dias..." (Alcorão 2:183-185); 5) Hajj (peregrinação a Meca), este último pilar da prática deve ser feito se a pessoa tiver condições físicas e financeiras.

Ser muçulmano significa praticar este código de vida que se pauta pela adoração a Deus, em tudo está contido esta adoração, até mesmo quando uma mulher menstruada não pode rezar e jejuar, isto também é adoração. O lenço islâmico,hijab**,é também uma prescrição religiosa, e cabe à mulher decidir quando deve usar. Nenhum homem deve obrigá-la, porque esta determinação é alcorânica. Mulheres que usam ohijab colocam em prática e evidenciam sua adoração a Deus. Infelizmente o ocidente, ainda considera o uso do véu, como ausência de inteligência, ausência de sexualidade, relaciona-se a opressão. Nada disso é o hijab. Hijab é modéstia, é comportamento religioso, é estar entregue a Deus plenamente.

No Brasil, infelizmente o alvo tem sido as mulheres que usam lenço. O desrespeito ao uso de uma vestimenta tem sido a maioria dos relatos que recebo cotidianamente, meninas sendo desrespeitadas dentro das universidades, no trabalho, nas ruas. A dificuldade que as mulheres têm em conseguir um emprego, porque sempre associam sua imagem à violência e à ignorância. Um dos relatos mais fortes que recebi foi de uma moça que resolveu retirar o lenço e recebeu o cumprimento dos seus colegas de trabalho. Brasileiro não é cordial, é islamofóbico, preconceituoso, e precisamos educar as pessoas a aceitarem a pluralidade, a diversidade, pois esta só nos faz crescer como humanos.

* Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, docente da Faculdade de Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora de comunidade muçulmana há 18 anos e coordenadora do Gracias (Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes) email: francirosy@gmail.com

** Não é burca, burca é uma vestimenta específica de contextos como do Afeganistão, advindo de um grupo do Paquistão, não é alcorânico cobrir o rosto, é costume, é regionalismo. Não está pedido no Alcorão e nem aparece na Sunnah do Profeta Muhammad que a mulher tenha que cobrir rosto e mãos.

Fonte: CONIC