Duas faces de preconceito em uma só

Imagine o preconceito como uma moldura, como se cada face desse tipo de discriminação gerasse uma moldura pesada e dura. Assim, se você é mulher tem de aprender a viver com o peso da desigualdade de gênero e mostrar que você tem os mesmos direitos e capacidades que os homens. Se você é negro, tem de provar que não tem menos valor do que qualquer outro. Agora, imagine ser mulher e negra numa sociedade que se diz pós-moderna, mas que nutre o racismo e o machismo. Essa realidade é vivida por milhares de brasileiras, como Simone Vieira da Cruz, psicóloga e ativista das questões raciais e de gênero. “São as mulheres negras que ampliam a agenda do movimento negro quando apontam a desigualdade de gênero produzida no âmbito deste movimento e a necessidade de fazer essa discussão e mudar as relações”, completa.

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, reconstitui os desafios e lutas pelos quais ela e muitas outras mulheres passam diariamente. Lutas que não significam apagar sua negritude ou feminilidade. “Nossas lutas são importantes para que possamos mostrar para a sociedade que não somos todas iguais, temos especificidades que nos diferenciam, diferenciam nossas lutas e isso demanda políticas públicas que deem conta de todas nós”, destaca. Para ela, apesar dos desafios, a luta contra essas duas formas de preconceito as deixa fortalecidas. “Nossa luta sempre foi por sobrevivência, para poder viver com dignidade. Neste aspecto incorporar o recorte de gênero na luta do movimento negro é fortalecer essa luta que sempre foi legítima”.

Simone Vieira da Cruz é mestre em Saúde Coletiva pela Unisinos, é ex-bolsista da Fundação Ford - International Fellowships Program (2008). Durante seu mestrado, também realizou estágio no Departamento de Psicologia Social da Universidade Autônoma de Barcelona. Ainda é especialista em Psico-Oncologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e graduada em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil. Atualmente, é secretária Executiva da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras - AMNB, Integrante da Associação Cultural de Mulheres Negras e pesquisadora na área de Saúde da População Negra e HIV/Aids, movimento negro e de mulheres negras.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o papel das mulheres negras na história de luta dos movimentos sociais negros?

Simone Vieira da Cruz - As mulheres negras foram e são fundamentais na história de luta dos movimentos sociais negros. São as mulheres negras que ampliam a agenda do movimento negro quando apontam a desigualdade de gênero produzida no âmbito deste movimento e a necessidade de fazer essa discussão e mudar as relações. Mas é importante destacar que as marcas do patriarcado sempre foram presentes e que o movimento de mulheres negras enquanto um movimento independente surge a partir desse não reconhecimento da agenda das mulheres negras no movimento negro, como uma ação política.

IHU On-Line - De que maneira o racismo atinge as mulheres negras? Por que é necessário o recorte de gênero nas lutas afrodescendentes?

Simone Vieira da Cruz - O racismo atinge toda a população negra, e com as mulheres negras não é diferente. Nós, mulheres negras, vivenciamos todos os aspectos da desigualdade de gênero que afetam as mulheres de modo geral, no entanto o racismo só é vivenciado por nós. Racismo é a discriminação pela cor da pele. Pela cor da pele preta, e somente nós vivenciamos isso. É essa violência do racismo que nos coloca em uma condição pior. Nossa luta sempre foi por sobrevivência, para poder viver com dignidade. Neste aspecto incorporar o recorte de gênero na luta do movimento negro é fortalecer essa luta que sempre foi legítima.

IHU On-Line - Quando e de que maneira as mulheres negras militantes começam a incluir mais formalmente os aspectos do “gênero” nas lutas negras e da “raça” nas lutas feministas?

Simone Vieira da Cruz - As mulheres negras sempre demarcaram suas lutas tanto no movimento negro quanto no feminista. No entanto, a dificuldade de reconhecimento dessas lutas por um histórico mito da democracia racial e da manutenção de um sistema patriarcal impediu que nossas lutas se fortalecessem no interior desses movimentos. A agenda inicia, no entanto, a partir da denúncia contra a esterilização das mulheres negras.

IHU On-Line - Qual a importância das mobilizações das mulheres negras para a militância e para as lutas feministas? 

Simone Vieira da Cruz - Nossas lutas são importantes para que possamos mostrar para a sociedade que não somos todas iguais, temos especificidades que nos diferenciam, diferenciam nossas lutas e isso demanda políticas públicas que deem conta de todas nós.

IHU On-Line - Como é o contexto das mobilizações de mulheres negras militantes brasileiras, e delas com mobilizações de outros países?

Simone Vieira da Cruz - As mulheres negras no Brasil mantêm estreitas relações com mulheres negras de outros países, participando de redes internacionais de mulheres negras da América latina e do Caribe, assim como dos Estados Unidos. É a partir da participação em redes que nos articulamos com mulheres negras de outros países, denunciando o racismo existente no Brasil em nível internacional.

A partir da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB, reunimos organizações de mulheres negras de vários estados do Brasil. Esta articulação tem o objetivo de fortalecer a ação política das mulheres negras no Brasil e, a partir disso, articular com redes internacionais.

IHU On-Line - Quando nasce e como é o trabalho da “Articulação de Mulheres Negras Brasileiras”?

Simone Vieira da Cruz - A Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras é criada a partir da organização da mulheres negras brasileiras para participação na Conferência de Durban, África do Sul, em 2001. Logo após a Conferência, a Articulação se institucionaliza reunindo organizações de mulheres negras de vários estados brasileiros para uma ação coletiva de acompanhamento dos resultados da conferência. Atualmente, a AMNB possui 27 organizações filiadas, sendo representada em vários estados e em todas as regiões do Brasil. O trabalho efetivo se dá na atuação em espaços como os conselhos nacionais: de saúde, de mulheres, de igualdade racial, dentre outras proposições. 

IHU On-Line - Quando nasce e como é o trabalho da “Associação Cultural de Mulheres Negras – ACMUN”, da qual você é integrante?

Simone Vieira da Cruz - A ACMUN foi fundada em 1994 a partir do trabalho de mulheres negras que atuavam na comunidade Maria da Conceição, a partir do trabalho de conscientização e valorização do papel das mulheres negras. O trabalho da ACMUN sempre foi focado em mulheres negras de comunidade na perspectiva de levar informações e orientações sobre a saúde, identidade e políticas públicas. Desde então, atuamos através do desenvolvimento de projetos comunitários, de saúde, educação e direitos humanos em geral.

IHU On-Line - Quais são os principais pontos da agenda dos movimentos de mulheres negras hoje?

Simone Vieira da Cruz - São muitas as nossas agendas, mas todas se focam no enfrentamento ao racismo. O racismo é fruto da desigualdade que vivenciamos, da violência que sofremos em diferentes aspectos, violência física, moral, psicológica, e pela perda de nossos filhos, sobrinhos etc. É por essas violências que iremos marchar em 18 de novembro .

IHU On-Line - Quais são as principais conquistas das mobilizações de mulheres negras no Brasil? E os próximos desafios?

Simone Vieira da Cruz - Infelizmente nossas conquistas, como a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR, acaba de ser fusionada com a Secretaria de Direitos Humanos e a Secretaria das Mulheres. No entanto, apesar disso, temos muitas lutas pela frente, precisamos avançar, e nossa principal ação de mobilização nos últimos anos tem sido para a realização/concretização da Marcha das Mulheres Negras, contra o racismo, a violência e pelo bem viver. O título da marcha demarca nossos principais desafios. ■

Simone Vieira da Cruz

Sou Simone Cruz, psicóloga ativista do movimento de mulheres negras. Sou aquela que acredita em um amanhã melhor. Trabalho diariamente com a expectativa de que meu trabalho propicie com que mais mulheres negras tomem consciência de seu lugar no mundo enquanto mulheres negras referências de nossas ancestrais e não de um padrão europeu.

Fonte: CEBI Nacional