A beleza de sermos diferentes: por Rosa Meneghetti

Um dos grandes desafios de quem trabalha com o Ensino Religioso no ensino fundamental, sem dúvida, tem sido o de conviver com os diferentes credos e práticas religiosas representados pelos alunos e alunas e, mais do que isso, o desafio de ser capaz de, a partir de situações de conflito que se estabelecem, apontar alternativas de diálogo e processos compreensivos de convivência.

Os tempos atuais, com os novos cenários que se descortinam, trazem consigo os avanços tecnológicos e comunicacionais, facilitadores da vida em sociedade e, ao mesmo tempo, exigentes em termos de novas posições valorativas e éticas de todos, especialmente dos(as) que trabalham com a formação das gerações. Os novos tempos são tempos de novos paradigmas que, para não serem mal interpretados, precisam ser muito discutidos.

A modernidade, tanto em termos sociais, como culturais ou religiosos, não é um tempo de fechamento extremo, nem de lasseamento de padrões de conduta. Ao contrário, a modernidade é, apenas, um novo tempo portador da dádiva da abertura para o ser humano exercitar as potencialidades com que a natureza o agraciou: inteligência, sensibilidade, dúvidas, percursos diferenciados à procura da verdade da existência, buscas de sentidos e significados, curiosidades, criatividades, afetos, enfim, possibilidades que tornam as pessoas humanizadas.

A pluralidade religiosa, então, não é outra coisa senão a conversa que a humanidade faz entre si, dialogando sobre as inúmeras formas como vivencia sua relação com o Transcendente, sobre o significado dos símbolos que representam sua noção a respeito do Sagrado e seus exercícios místicos de vivência da fé.

O pluralismo religioso é próprio da natureza humana

As pessoas são diferentes. É isto que as torna pessoas – persona (em grego) significa as diversas máscaras que o artista usava para representar as muitas personagens das tragédias nos espetáculos teatrais – e, portanto, singulares. Únicas. As pessoas são criações especiais que guardam suas especificidades ao longo da construção das próprias experiências de vida. Aliás, as experiências pelas quais cada um passa, do seu jeito, de modo próprio, a partir de suas peculiaridades, são únicas porque provêm, inclusive, da forma como cada um se aproxima do que é novo. São elas que fazem com que a convvência e o relacionamento humano sejam sempre dife­rentes e adquiram significados especiais.

As diversidades religiosas são sulcos profundos que se percebem na história da civilização. Muitas vezes, acompanhadas de eventos dolorosos; outras vezes, demarcadas por conflitos de cunho racional e acadêmico. Há exemplos, no entanto, mais recentes de convívio fraterno e respeitoso entre os diferentes representantes da pluralidade das religiões. Vale dizer que a humanidade, certamente, mantém em seu corpo as tatuagens oriundas destes fenômenos; porém, as novas compreensões que se vão formulando sobre as estruturas teológicas têm, igualmente, permitido contemplálas não apenas como fontes de dores e machucaduras, mas como marcas da vivência das pessoas em busca de seus próprios significados em relação à transcendência.

O pluralismo religioso é uma construção da cultura

É impossível conceber a cultura, a síntese de tudo aquilo que um determinado grupo de pessoas produz, pensa, realiza, articula, planeja, propõe, executa, constrói como compreensão da vida nos seus aspectos existenciais internos e externos, enquanto coletividade, sem considerar a presença dos elementos que igualmente se constituem em diferenças. É na cultura, como locus do viver das sociedades humanas, que as diferenças em todos os campos se evidenciam. E não poderia ser diferente no que se refere à pluralidade religiosa. O fundamental é reconhecer que a diferença possibilita a identidade dos interlocutores.

A humanidade não é uma massa informe, anominada, descaracterizada de peculiaridades, exatamente porque se mantém em função das diferenças. É na diferença, na não-padronização, na não-homogeneidade que se podem criar alternativas novas, novos processos, novas concepções de mundo, de vida, de divindade, e esta é uma tarefa, por excelência, humana.

Quando o outro, o diferente, é contemplado em sua diferença, e é reconhecido na sua possibilidade de ser diferente, o respeito à vida se resgata na sua integralidade. Quando se descobre que o direito de cada um ser, orar, relacionar-se com o Sagrado, cultuar suas divindades, vivenciar suas místicas, rezar, agradecer, invocar, dedicar-se em serviço, dançar em expressão de louvor, identificar a natureza como o altar no qual realiza seus rituais é, definitivamente, prerrogativa em todas as tradições religiosas, pelo menos, em relação a si mesmas e, portanto, o exercício da tolerância não é um “a mais”, mas a consequência natural da vivência religiosa íntegra e digna.

Rosa Gitana Krob Meneghetti é pedagoga, doutora em História da Educação, professora de Teologia e Cultura na Faculdade de Ciências da Religião, da Universidade Metodista de Piracicaba (SP), e coor-denadora do Núcleo de Avaliação Institucional da mesma instituição.

Fonte: CONIC