50 anos do ''Pacto das Catacumbas'' para uma Igreja serva e pobre

No dia 16 de novembro de 1965, há 50 anos, poucos dias antes do encerramento do Vaticano II, cerca de 40 padres conciliares celebraram uma Eucaristia nas Catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Depois dessa celebração, assinaram o "Pacto das Catacumbas" (ver íntegra do documento no final da matéria).

Para celebrar o cinquentenário do Pacto, estão sendo promovidos vários eventos. Conforme noticiado pela Agência Adital, em Roma será realizado um seminário, na Universidade Urbaniana de Roma, neste sábado, 14 de novembro, das 9h às 17h, organizado pelo setor de JPIC, USG/UISG (União dos Superiores e Superioras Gerais), pelos missionários do Verbo Divino e pelo Sedos (Centro de Documentação e Investigação sobre a Missão Global). O evento irá discutir o contexto histórico do Pacto das Catacumbas e suas influências para a Igreja de hoje. Estará presente dom Luigi Bettazzi, bispo emérito de Ivrea (Itália), padre conciliar e um dos signatários do Pacto.

No domingo, 15, às 12h, haverá uma concentração na Praça de São Pedro, no Vaticano, para rezar o Angelus junto ao papa Francisco. Na segunda-feira, 16, data de assinatura do Pacto, às 10h30, será celebrada uma Eucaristia nas Catacumbas de Domitilla, organizada pelo Instituto de Teologia e Política (ITP), de Münster, Alemanha.

As catacumbas de Santa Domitila estão entre as mais extensas que foram encontradas em Roma, com 17 quilômetros de galerias, em quatro andares e mais de 150.000 sepulturas. A área foi doada aos cristãos por Flávia Domitilla, neta do imperador Vespasiano. Desde janeiro de 2009, encontra-se sob a responsabilidade da Congregação dos Missionários do Verbo Divino.

No Brasil foram planejadas várias iniciativas como vigílias e celebrações. As Edições Paulinas lançaram o livro “Pacto das Catacumbas. Por uma Igreja servidora e pobre”. O autor é padre José Oscar Beozzo.

O livro tem como objetivo resgatar e conservar a memória do gesto profético denominado Pacto da Igreja servidora e pobre, mais conhecido como Pacto das Catacumbas. É um excelente subsídio para uma oração ou vigília em torno do Pacto e também em memória de dom Enrico Angelelli, bispo de La Rioja que o assinou e foi assassinado pelos militares na Argentina.

Os signatários, entre eles muitos brasileiros e latino-americanos, embora muitos outros aderiram ao Pacto mais tarde, se comprometiam a viver em pobreza, a renunciar a todos os símbolos ou privilégios do poder e a pôr os pobres no centro do seu ministério pastoral. Um dos propositores do Pacto foi dom Helder Câmara que também assinou o documento . Do Brasil, estiveram presentes no Pacto das Catacumbas os seguintes bispos:

Dom João Batista da Mota e Albuquerque (1909-1984), bispo do Espírito Santo (1957), arcebispo de Vitória, Espírito Santo (1958-1984), (1ª. 2ª. 3ª. 4ª. sessão do Vaticano II);

Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho (1924-2006), bispo de Afogados da Ingazeira, Pernambuco (1961-2001 resignatário), (1ª. 2ª. 3ª. 4ª. sessão do Vaticano II);

Dom José Alberto Lopes de Castro Pinto (1914-1997), bispo auxiliar de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ (1964-1976), bispo de Guaxupé, Minas Gerais (1976-1989 resignatário), (3ª. 4ª. sessão do Vaticano II);

Dom Henrique Hector Golland Trindade (1897-1984), bispo de Bonfim, Bahia (1941-1948), bispo de Botucatu – São Paulo (1948-1958), arcebispo de Botucatu (1958-1968 resignatário), (1ª. 2ª. 3ª. 4ª. sessão do Vaticano II);

Dom Antônio Batista Fragoso (1920-2006), bispo auxiliar de São Luís do Maranhão (1957-1964), bispo de Crateús, Ceará (1957-1998, resignatário), (1ª. 2ª. 3ª. 4ª. sessão do Vaticano II);

(Fonte: Livro "Pacto das Catacumbas”, do padre José Oscar Beozzo, coordenador geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular - Ceseep, em São Paulo).

O Pacto das Catacumbas é um desafio aos "irmãos no Episcopado" a levar adiante uma "vida de pobreza", uma Igreja "serva e pobre", como sugerira o papa João XXIII. Eis o texto. O livro, em PDF, pode ser acessado AQUI.

Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre

Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:

- a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres; 
- a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

- esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles; 
- suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo; 
- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...; 
- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

Ajude-nos Deus a sermos fiéis.

Fonte: CONIC