Reforma protestante: rumo a 2017

Dado que Lutero não pretendia fundar uma nova Igreja, mas reformar a Igreja existente, o projeto da Reforma deve ser assumido como inacabado. Consequentemente, os esforços ecumênicos orientados para se restabelecer a unidade são de fato um completar-se da própria reforma.

O aniversário, em 2017, do V Centenário da publicação das 95 teses de Lutero, sobre as indulgências – fato em que se reconhece simbolicamente o início do movimento da reforma – estimula uma releitura do evento, que marcou a história do cristianismo e das Igrejas, mas também a dos acontecimentos sociais, políticos e culturais do mundo ocidental.
Lancemos um olhar sobre os aniversários anteriores:

- 1617: a ocorrência do primeiro centenário foi comemorada, em conjunto, por luteranos e reformados, com a intenção de se consolidar a herança da Reforma. Teve um caráter marcadamente polêmico nos confrontos de Roma e da Igreja Católica.

- 1717: os soberanos luteranos quiseram colocar o acento no caráter confessional das Igrejas presentes em seus seu próprios territórios, com a intenção de reavivar o impulso original da Reforma.

- 1817: o evento tomou a forma de uma celebração religiosa nacional. Em 1813, Napoleão havia sido derrotado em Lípsia.

REJU promove campanha para viabilizar ações da juventude

O projeto (Re) Pensar foi criado pela Rede Ecumênica da Juventude com o intuito de arrecadar contribuições para a realização do próximo encontro nacional. O evento é realizado todos os anos com o intuito de avaliar e traçar os desafios para o período seguinte, contextualizando a juventude ecumênica dentro do protagonismo social. A ideia é viabilizar um local de debate e aprendizado onde os jovens possam refletir, em grupo, sobre a importância da conscientização dos deveres e diretos do jovem na sociedade.

A arrecadação acontece por meio do sistema que financia de forma coletiva os gastos do projeto. No caso do (Re) Pensar, a meta estabelecida foi de R$ 40.000,00 (quarenta mil reais). O dinheiro servirá para cobrir despesas como passagem, hospedagem e alimentação de 60 jovens voluntários de todo o país. Para a liberação da verba é necessário que a meta seja batida até o dia 24 de novembro deste ano.

A rede de jovens abrange a faixa etária entre 15 e 32 anos, sendo aceito diferentes origens religiosas ou irreligiosas. O objetivo é promover e garantir a ação dos direitos humanos para os jovens em todo o país. A REJU atua em cinco regiões brasileiras, em 13 estados, sendo coordenada e planejada pelos próprios jovens atuantes e militantes do meio ecumênico.

Clique aqui para acessar o site e fazer sua doação. Você pode contribuir de diferentes formas e valores. Como forma de recompensa pelas doações, que vão de R$5 a R$1000, os prêmios são camisetas, livros, lambe lambes e até uma árvore plantada com o seu nome. Participe dessa rede do bem, e ajude os jovens a se integrar ainda mais com as demandas dos direitos humanos.

Um olhar histórico sobre a Reforma Luterana - Pr. Osmar Luiz Witt

Somos herdeiros e herdeiras (os luteranos/as e, de alguma forma, todos/as de tradição cristã) de um movimento que começou no século XVI, no interior da una, santa, apostólica e universal Igreja cristã. MartimLutero não é fundador da nossa igreja, pois, a pedra fundamental da Igreja é uma só: Jesus Cristo. Lutero foi, isto sim, líder de um movimento que pretendia mudanças na Igreja da época.

Em Wittenberg, onde foi Professor e Pregador, Lutero deparou-se com uma situação que julgou merecer a atenção das pessoas cristãs, por isso escreveu as 95 Teses (31.10.1517). O assunto das indulgências, que constava nessas teses, preocupou Lutero quando recebia pessoas no confessionário. Quando falava da necessidade da penitência, algumas simplesmente retrucavam Eu comprei carta de indulgência, já paguei a pena! Não levavam a sério a necessidade do arrependimento e buscavam um atalho para alcançar o perdão de Deus. Havia uma explicação teológica para essa prática. Ensinava-se que para alcançar a salvação era preciso que a pessoa tivesse méritos perante Deus. Cristo e todos os santos tinham acumulado méritos por suas boas obras. Esses méritos formavam o tesouro da Igreja, o qual era administrado por ela para a salvação dos fiéis. Numa de suas 95 teses, Lutero declarou que o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus. Deve-se aconselhar aos cristãos para que sigam a Cristo, pois, ao dizer Fazei penitência, (Mt. 4.17), nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência... 

Mateus 5,1-12: As bem-aventuranças - Marcelo Barros

O primeiro discurso dos cinco nos quais a comunidade de Mateus organiza as palavras de Jesus é o chamado “Sermão da Montanha” (Mt 5- 7). No mundo antigo, a montanha é considerada lugar sagrado. Conforme a Bíblia, Moisés subiu nove vezes à montanha do Sinai. Jesus também sobe à montanha, continuando o seu papel de “novo Moisés” (repitamos: não para substituir Moisés ou a lei judaica, mas para ampliá-la para todo o mundo e explicitá-la como boa notícia do reinado divino).

Carlos Mesters explica: “O Sermão da Montanha abre-se com oito bem-aventuranças. Elas são o portão de entrada deste e dos textos que seguem. Declaram felizes os pobres caracterizados de oito maneiras, pois neles o Reino de Deus já se faz presente como dom e graça de Deus no meio de nós e apesar de nós. Deste modo, as bem-aventuranças nos informam onde devemos olhar para descobrir os sinais da presença deste Reino no mundo em que vivemos”. ¹ 

Alguém chamou a atenção para o fato de que, apesar da tradição cristã sempre ter falado em oito bem-aventuranças, o texto repete nove vezes: “Felizes”. E, sendo nove, bem no meio está a bem-aventurança dos misericordiosos. De fato, a misericórdia, o amor fiel e compassivo de Deus é a manifestação mais própria de Deus e o modo de nos parecermos mais com Ele.

As mulheres na prova do Enem e o discurso de ódio contra os direitos humanos

Em um contexto extremamente conservador e de imensos retrocessos para os direitos das mulheres no Brasil – tanto no Congresso Nacional como na execução de políticas públicas – esse último final de semana foi marcado pela surpreendente forma como algumas das questões foram abordadas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Assim que abriram o caderno de provas no último sábado (24) os/as estudantes se depararam com uma questão, em especial, que chamou a atenção e rapidamente ganhou destaque nas redes sociais. A prova de Ciências Humanas e Suas Tecnologias trazia a seguinte afirmação da filósofa Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.”

Vale dizer que Simone de Beauvoir é uma importante pensadora francesa com uma extensa produção bibliográfica e que participou de ciclos filosóficos com Jean-Paul Sartre, Colette Audry, entre outros. Para além da produção acadêmica propriamente dita, Beauvoir teve uma existência marcada pelo enfrentamento às desigualdades de gênero e questionamentos importantes que se tornaram paradigmas não apenas na França, mas que marcaram o mundo inteiro.

A Igreja e o mundo na encruzilhada: “Ou mudamos ou morremos”. Entrevista com Leonardo Boff

Uma vida inteira a serviço da causa da libertação: a dos pobres e a do “grande pobre” que é o nosso planeta devastado e ferido. É o seu duplo – e conjunto – grito, de fato, que ocupa o centro da reflexão de Leonardo Boff, um dos pais fundadores da teologia da libertação e maior expoente do novo paradigma ecoteológico, isto é, daquele percurso que se desenvolve na escuta do novo relato sagrado transmitido pela ciência, com a sua revelação da natureza profundamente holística e relacional do cosmos (um caminho de busca do qual os livros Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres e Tao da Libertação representam, indiscutivelmente, as expressões mais altas, mas que também é possível acompanhar em muitas das suas intervenções semanais.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada no sítio Adista, 17-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma reflexão, a de Boff, que, na atenta escuta da profecia contida na própria voz do universo, leva enormemente a sério as muitas ameaças de destruição lançadas contra Gaia, o planeta vivo que é a nossa casa comum, mas, ao mesmo tempo, é atravessada por um poderoso sopro de esperança: a esperança de que a evolução seja moldada de tal modo que convirja em níveis de complexidade e de autoconsciência cada vez maiores e que, portanto, o caos atual seja gerador de novas possibilidades, o anúncio de um nível mais elevado na história do ser humano e do planeta daquela única entidade indivisível Terra-humanidade que os astronautas captaram por primeiro, com emoção e reverência, olhando para o nosso planeta azul e branco do espaço externo. De modo que o cenário atual, embora tão dramático, não seria uma tragédia, mas uma crise, uma crise que põe à prova, purifica e empurra para a mudança, anunciando um novo início para a aventura humana.

Disso e de muito mais falamos com Leonardo Boff, em visita à Itália para um ciclo de encontros, a partir das perspectivas da Igreja sob o pontificado de Francisco, sobre o qual o teólogo brasileiro, um dos mais duramente perseguidos pelo Vaticano, apostou desde a sua nomeação, considerando-o como a expressão de um novo projeto de mundo e de um novo projeto de Igreja.

Eis a entrevista.

Qual é a sua leitura da atual fase da Igreja?

Retrocesso ambiental e a falácia desenvolvimento sustentável

Face às mobilizações sociais e ambientalistas em nível nacional e internacional, o Estado brasileiro organizou ao longo das décadas de 1980 e 1990 uma nova política ambiental, centrada em dispositivos de avaliação de impacto e licenciamento de obras ou atividades potencialmente causadoras de significativa degradação do ambiente. A orientação participativa previa não somente a conjugação de uma avaliação técnica e política sobre a viabilidade dos novos projetos, quanto abria espaço para a oitiva da sociedade civil, em especial, os grupos potencialmente atingidos pelas prováveis intervenções. Desse modo, organizava-se institucionalmente o licenciamento ambiental como um espaço de governança e progressiva negociação, através do exame de três licenças sucessivas que deveriam ajuizar sobre a conformidade das obras às exigências técnicas, locacionais e legais.

Os contornos e instrumentos dessa política incorporavam à sua pauta a noção de “desenvolvimento sustentável”, a qual se projetava como uma proposta alternativa, mais convergente e otimista, capaz de agregar os diferentes “setores” da sociedade na busca de soluções orientadas para a harmonização entre o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental. Com surpreendente capacidade catalisadora, o crescente prestígio da noção de desenvolvimento sustentável foi acompanhado por um processo de despolitização dos debates e escamoteamento dos conflitos abrindo espaço para o paradigma da modernização ecológica e sua lógica operativa da “adequação” no âmbito do licenciamento ambiental.

Mudança climática ameaça alimentos

“Agricultoras como Matupi e Ruth necessitam que seus governos façam sua parte na luta pelos fundos que possam ajudar a mitigar o impacto da mudança climática. Cálculos conservadores indicam que a África vai precisar de aproximadamente US$ 95 bilhões ao ano até 2050 para essa finalidade”, escreve Sipho Mthathi, diretora-executiva da Oxfam África do Sul, em artigo publicado por Envolverde, 20-10-2015.

Eis o artigo.

A mudança climática está transformando o mundo que conhecemos e queremos. Nossas terras, moradias e alimentos estão em risco. Com cerca de um bilhão de pessoas vivendo na pobreza, é a maior ameaça para a luta contra a fome.

Os chefes de Estado e de governo se reunirão em Paris em dezembro para a 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC). Nessa oportunidade, quando será decidido um novo tratado climático, os representantes africanos terão que adotar uma postura audaciosa.

As comunidades de pastores e comunidades originárias da África são muito vulneráveis à mudança climática. Em dezembro, a África deverá permanecer unida e negociar para que os fundos para a adaptação sejam mais adequados, previsíveis e maiores do que os recebidos até agora.

Mateus 5,1-12: As bem-aventuranças como caminho de santidade - Ildo Bohn Gass

Felizes os que são pobres no espírito, 
porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5,3).

1 Todas as pessoas são chamadas à santidade

Na Boa-nova das bem-aventuranças, Jesus propõe um caminho de santidade. No mundo católico romano, o dia escolhido para celebrar a vida de todos os santos é 1º de novembro, ao passo que o dia 2 de novembro é um dia especial para fazer memória das pessoas bem-aventuradas e que já se encontram na glória do Pai. Para nós, que ainda temos uma missão a cumprir neste mundo, Jesus propõe um caminho de santidade e que já começa nesta vida. Conforme a comunidade de Mateus, as oito bem-aventuranças são esse caminho. 

Todas as pessoas são chamadas à santidade, a fim de serem felizes. “Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, sou santo” (Levítico 19,2). Mateus faria uma releitura desse chamado da seguinte forma: “Sede perfeitos, como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Coerente com sua experiência com o Deus compassivo, Lucas formula assim o mesmo convite: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

2 Jesus, o novo mestre da justiça, nos ensina o caminho da santidade

Quando Mateus apresenta Jesus fazendo cinco grandes discursos (Mt 5-7; 10; 13,1-52; 18; 24-25), sua intenção é apresentá-lo como o novo Moisés, a quem eram atribuídos os cinco livros da lei, o Pentateuco. 

A lei era considerada a expressão da vontade de Deus. No tempo de Jesus, muitos fariseus estavam preocupados em viver as leis do Pentateuco em todos os seus pormenores. Jesus, porém, vive e anuncia essa vontade de Deus indo além da letra da lei. Diz que, mais que a letra, é o espírito da lei que importa. Disse ainda que o espírito da lei consiste na vivência do amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mt 22,34-40 - Evangelho do domingo passado). Assim, o amor passa a ser a orientação fundamental para o nosso agir (cf. Mt 12,1-8; 23). Mateus chama essa vontade de Deus de justiça do Reino (cf. Mt 6,33). Se Moisés era o antigo mestre da lei, Jesus é o novo mestre da justiça a nos ensinar o caminho de Deus, o caminho da santidade no amor.

O Sínodo deu muitos passos à frente (e alguns para trás)

O resultado do Sínodo – no sentido do documento final – é um passo à frente em relação ao documento do ano passado, exceto pela passagem sobre a homossexualidade. Mas também é um documento que deixa espaço para Francisco implementá-lo de modo criativo.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo e diretor do Institute for Catholicism and Citizenship, na University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio L'HuffingtonPost.it, 24-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Sínodo dos bispos de 2015, segunda etapa do "caminho sinodal" aberto por Francisco com o seu pontificado, encerra-se com o documento final votado por 270 membros com direito a voto.

O documento final é um documento consensual, que deve ser lido na sua inteireza e complexidade (94 parágrafos): todos os parágrafos alcançaram a maioria dos dois terços (muito estreita no caso dos parágrafos sobre os divorciados recasados) e isso exigiu muitas mediações por parte do comitê de redação.

A passagem inspirada na Familiaris consortio de João Paulo II (1981) acerca dos divorciados recasados é uma abertura substancial, mas que levanta a pergunta sobre a ideologização da Igreja de João Paulo II por parte dos bispos e teólogos nomeados por ele e por Ratzinger aos postos de comando da Igreja.

Indígenas lançam oficialmente a campanha do Boicote ao Agronegócio de Mato Grosso do Sul na Assembleia Legislativa

Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do Brasil, cerca de 77 mil pessoas, e é palco da maiores e mais graves violações dos direitos humanos do Brasil e do mundo: casos de tortura, estupros, espancamentos, ataques armados e assassinatos praticados por milícias de jagunços e organizações paramilitares contratadas por fazendeiros, além dos altos índices de desnutrição e suicídios. Está em curso um verdadeiro genocídio, especialmente do povo Guarani-Kaiowá.

No sentido de denunciar e lutar pelos direitos dos povos indígenas, um grupo de aproximadamente 130 representantes de povos indígenas, de várias regiões do Brasil, lotaram o plenário da sessão ordinária da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, na manhã desta quinta-feira (22) e lançaram oficialmente a campanha do “Boicote ao Agronegócio de Mato Grosso do Sul”. Estão presentes nessa delegação Homens e mulheres dos povos Terena, Guarani -Kaiowá, Kniknaw, Pataxó, Apurinã e Atikum, entre outros.

Na ocasião, Sônia Guajajara, coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, usou a tribuna da sessão e empunhou um dos cartazes da campanha que diz “a carne de Mato Grosso do Sul está manchada com o sangue das crianças indígenas. Não Compre! Não Coma!”.

Em sua fala Sônia ressaltou que a campanha é mais do que necessária, pois é só quando a questão parte para lado econômico, quando mexe no bolso dos que detém o poder do capitalismo, que as coisas começam a funcionar efetivamente. “A nossa campanha é para que os organismos internacionais embarguem os produtos do agronegócio de MS até que o governo brasileiro resolva definitivamente esta questão, demarcando e homologando as terras indígenas, indenizando os proprietários das áreas cujos títulos foram adquiridos de boa fé, cessando todos os ataques e atos de violência contra os povos indígenas. É uma campanha pela paz, para que o nosso povo possa ter uma vida mais digna e justa”, afirma.

Cuidar e respeitar o valor intrínseco de cada ser - Leonardo Boff

A esplêndida encíclica do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum” insiste continuamente que cada ser, por menor que seja, possui valor intrínseco e tem algo a nos dizer, ademais de estar sempre interconectado com todos os demais seres. Por isso merece respeito e cuidado de nossa parte.

Estes pensamentos nos remetem ao pensador que melhor no Ocidente pensou o ilimitado respeito a tudo o que existe e vive: o médico suíço Albert Schweitzer (1875-1965). Era oriundo da Alsácia. Desde cedo apresentou traços de genialidade. Tornou-se famoso exegeta bíblico com vasta obra especialmente sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia científica de Jesus. Era também um exímio organista e concertista das obras de Bach e compositor. Foi grande a minha emoção quando visitei a sua casa e o órgão que tocava em Kaysersberg.

Em consequência de seus estudos sobre a mensagem de Jesus, especialmente do Sermão da Montanha, com sua centralidade no pobre e no oprimido, resolveu abandonar tudo e estudar medicina. Em 1913 foi para a África como médico em Lambarene, no atual Gabun, exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas furiosamente pelos colonizadores europeus. Diz explicitamente, numa carta, que “o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se o Cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido”.

Mc 10,46-52: Bartimeu, o cego de Jericó, discípulo modelo para todos nós - Mesters e Lopes

COMENTANDO

Finalmente, após longa travessia, chegam a Jericó, última parada antes da subida para Jerusalém. O cego Bartimeu está sentado à beira da estrada. Não pode participar da procissão que acompanha Jesus. Mas ele grita, invocando a ajuda de Jesus: "Filho de Davi! Tem dó de mim!" O grito do pobre incomoda. Os que vão à procissão tentam abafá-lo. Mas "ele gritava mais ainda!" E Jesus, o que faz? Ele escuta o grito, para e manda chamá-lo! Os que queriam abafar o grito incômodo do pobre, agora, a pedido de Jesus, são obrigados a ajudar o pobre a chegar até Jesus.

Bartimeu larga tudo e vai até Jesus. Não tem muito. Apenas um manto. Mas era o que tinha para cobrir o seu corpo (cf. Ex 22,25-26). Era a sua segurança, o seu chão! Jesus pergunta: "O que você quer que eu faça?" Não basta gritar. Tem que saber por que grita! "Mestre, que eu possa ver novamente!" Bartimeu tinha invocado Jesus com ideias não inteiramente corretas, pois o título "Filho de Davi" não era muito bom.

O próprio Jesus o tinha criticado (Mc 12,35-37). Mas Bartimeu teve mais fé em Jesus do que nas suas ideias sobre Jesus. Assinou em branco. Não fez exigências como Pedro. Soube entregar sua vida aceitando Jesus sem impor condições. Jesus lhe disse: "'Tua fé te curou!' No mesmo instante, o cego recuperou a vista". Largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário (10,52).

Marcos 10, 46-52: “E seguia Jesus pelo caminho” - Tomaz Hughes

Estamos no fim da caminhada de Jesus de Cesareia de Felipe até a sua morte e ressurreição em Jerusalém. No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre de Jesus que ele relata - a cura do cego Bartimeu.

O texto começa com um senso de urgência - chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que Jesus tem pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho! Enquanto Jesus está “a caminho” com os discípulos d’Ele, o cego está à beira do caminho, sentado! Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado e estão parados, à beira do caminho do seguimento de Jesus.

Este texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente! “Filho de Davi, tem piedade de mim!” É de novo um dos temas centrais da Bíblia - o grito do pobre e sofrido! Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas, a reação dos transeuntes é típica - mandam que Bartimeu se cale! O poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído! Isso não mudou até os dias de hoje! É só verificar o pouco caso que a nossa sociedade faz diante da opressão e massacre dos povos indígenas, diante de sofrimento dos excluídos e marginalizados pela sociedade de consumo. Até nas Igrejas existe quem não queira ouvir o grito, e faz de tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas Deus ouve!

Formação da CF 2016


Marcos 10,35-45: Quem tem olhos não quer enxergar - Mesters e Lopes

ABRIR OS OLHOS PARA VER

Esta reflexão traz a discussão dos discípulos pelo primeiro lugar. Pelo jeito, os discípulos continuavam cegos! Enquanto Jesus insistia no serviço e na doação, eles teimavam em pedir os primeiros lugares no Reino, um à direita e outro à esquerda do trono. Sinal de que a ideologia dominante da época tinha penetrado profundamente na mentalidade dos discípulos. Apesar da convivência de vários anos com Jesus, eles não tinham renovado sua maneira de ver as coisas. Eles olhavam para Jesus com o olhar antigo. Queriam uma retribuição pelo fato de seguir a Jesus. Vamos conversar sobre isto.

COMENTANDO

1. Marcos 10,35-37: O pedido pelo primeiro lugar

Os discípulos não só não entendem, mas continuam com suas ambições pessoais. Tiago e João pedem um lugar na glória do Reino, um à direita e outro à esquerda de Jesus. Querem passar na frente de Pedro! Não entenderam a proposta de Jesus. Estavam preocupados só com os próprios interesses. Isto reflete a briga e as tensões que existiam nas comunidades no tempo de Marcos, e que existem até hoje nas nossas comunidades.

Diálogo inter-religioso: o alcorão e a unidade das religiões - Por Hoeck Miranda

À medida em que as atividades humanas alcançam dimensões mundiais e o desenvolvimento dos meios de comunicação nos coloca diante de manifestações religiosas diversas, cresce em importância o diálogo inter-religioso como canal capaz de pavimentar o caminho para a paz mundial. Este fenômeno é irreversível e tende a se ampliar e acelerar.

As suas implicações são de largo alcance e atinge a todos. Precisamos fazer algumas perguntas para avaliar o quanto estamos preparados para enfrentar essa nova realidade. Assim, algumas questões precisam ser respondidas, com toda a sinceridade, como: estamos preparados para atuar de forma inteligente e produtiva diante dessa ampliação mundial dos horizontes das atividades humanas? Estamos preparados para dialogar com as mais diferentes culturas e povos? Estamos preparados para entender e respeitar as manifestações religiosas diferentes daquelas nas quais fomos criados?

Os inúmeros episódios de conflitos sociais relatados pela imprensa, alguns explosivos e outros incendiários, envolvendo as mais diferentes comunidades religiosas ao redor do mundo, demonstram que ainda não estamos preparados para essa nova realidade.

O diálogo inter-religioso assume um papel crucial nesse processo, pois a solidariedade religiosa dos povos é muito mais forte do que todas as demais solidariedades, seja a de família, seja a de nação.

Qual é o nosso Kairós? Por Felipe Gustavo Koch Buttelli

Muitas vezes ficamos aflitos, mas não somos derrotados.
Algumas vezes ficamos em dúvida, mas nunca ficamos desesperados.
Temos muitos inimigos, mas nunca nos falta um amigo. 
Às vezes somos gravemente feridos, mas não somos destruídos. (2 Cor. 4.8-9)

No mês de agosto, dos dias 17 a 20, ocorreu na África do Sul, em Joanesburgo, a celebração do trigésimo aniversário do documento Kairós. O Documento Kairós foi escrito por teólogos e teólogas, membros leigos ou ordenados de igrejas sul-africanas no ano de 1985, durante um período de instabilidade política que beirava a um contexto de guerra civil, quando a população negra, sobretudo a juventude, se ergueu contra o regime de segregação social e racial. Naquele contexto histórico, as igrejas e as pessoas cristãs se encontravam em uma posição confortável, em que não se confrontavam com o dilema ético que o apartheid suscitava. O Documento Kairós de 1985 foi um desafio às igrejas, para que reconhecessem o tipo de engajamento que tinham com um regime que fora reconhecido como heresia, ou seja, como uma ofensa à compreensão daquilo que Deus manifestou ao mundo através de sua revelação em Jesus Cristo. 

No referido documento, assinado por mais de 160 personalidades do contexto eclesial e teológico da África do Sul, refere-se a um conceito bíblico e teológico chamado Kairós. Kairós vem do grego e diferentemente do conceito cronológico (kronós), mede o tempo sob outras perspectivas. O tempo kairós não é o tempo cronológico, metricamente medido, previsível, contínuo e controlável. O tempo kairós escapa ao nosso controle, é o tempo oportuno, o tempo em que as coisas tornam-se maduras a acontecer. O tempo Kairós é o tempo em que Deus se manifesta, sem que possamos entender ou controlar. É o tempo para que Deus proceda em sua ação e revelação na realidade. Os cristãos na África do Sul identificaram esse momento na situação de opressão e sofrimento por que passavam as pessoas negras excluídas e marginalizadas. 

1% da população mundial concentra metade de toda a riqueza do planeta

Desigualdade aumentou desde da crise de 2008 e chega ao ápice em 2015.

2015 será lembrado como o primeiro ano da série histórica no qual a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor total de ativos. Em outras palavras: 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares (2,96 milhões de reais), possuem tanto dinheiro líquido e investido quanto o 99% restante da população mundial.

A reportagem é de Ignacio Fariza e publicada por El País, 14-10-2015.

Essa enorme disparidade entre privilegiados e o resto da Humanidade, longe de diminuir, continua aumentando desde o início da Grande Recessão, em 2008. A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, deixa somente uma leitura possível: os ricos sairão da crise sendo mais ricos, tanto em termos absolutos como relativos, e os pobres, relativamente mais pobres.

No Brasil, a renda média doméstica triplicou entre 2000 e 2014, aumentando de 8.000 dólares por adulto para 23.400, segundo o relatório. A desigualdade, no entanto, ainda persiste no país, que possui um padrão educativo desproporcional, e ainda a presença de um setor formal e outro informal da economia, aponta o relatório.

Marcos 10, 35-45: “Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.” - Thomas Hughes

No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje situa-se quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a missão d’Ele. Pela terceira vez, Ele tem dado aos seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre a sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar d’Ele, cuspir n’Ele, vão torturá-lo e matá-lo”. Novamente uma colocação mais do que clara sobre o que significa ser o Messias (Cristo em grego) de Deus, mas que não surte efeito - os discípulos, cegados pela ideologia dominante, não são capazes de entender o sentido da vida de Jesus, e, por conseguinte, o sentido de ser discípulo d’Ele. Como Pedro depois do primeiro anúncio, e todos os Doze depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus, numa tentativa de impor a sua própria agenda!

Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar a sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse na sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos, que Mateus, relatando a mesma historia, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido! (Mt 10, 20). A queixa de Deus, no Antigo Testamento, de que o seu povo era um povo de “cabeça dura” se atualiza nos Doze!

Um enigma humano: a violência pela violência do Estado Islâmico - Leonardo Boff

O Estado Islâmico da Síria e do Iraque é uma das emergências políticas mais misteriosas e sinistras, talvez dos tempos históricos dos últimos séculos. Tivemos na história do Brasil, como nos relata o pesquisador Evaristo E. de Miranda (Quando o Amazonas corria para o Pacífico, Vozes 2007) genocídios inomináveis, “talvez um dos primeiros e maiores genocídios da história da Amazônia e da América do Sul”(p. 53): uma tribu antropôgafa adveniente devorou todos sambaquieiros que viviam nas costas atlânticas do Brasil.

Com o Estado Islâmico está ocorrendo algo semelhante. É um movimento fundamentalista, surgido de várias tendências terroristas. Proclamou no 29 de junho de 2014 um califado, tentando remontar aos primórdios do surgimento do Islã com Maomé. O Estado Islâmico revindica autoridade religiosa sobre todos os islâmicos do mundo inteiro e assim criar um mundo islâmico unificado que siga à risca à charia (leis islâmicas).

Não é o lugar aqui de detalhar a complexa formação do califado, mas apenas nos restringir ao que mais nos torna confusos, perplexos e escandalizados por usar a violência pela violência como marca identitária. Entre os muitos estudos sobre o fenêmeno cabe destacar dois italianos que viveram de perto esta violência: Domenico Quirico (Il grande Califfato 2015) e Maurcio Molinari (Il Califfato del terrore, Rizzoli 2015).

Guerras climáticas, a nova ameaça

Num planeta marcado por desigualdade e devastação natural, aquecimento pode converter-se em novo estopim de grandes migrações e conflitos. Em que condições eles ocorreriam?


Entre 2006 e 2011, a Síria viveu a mais longa seca e a maior perda de colheita já registrada desde as primeiras civilizações do Crescente Fértil. Dos 22 milhões de pessoas que habitavam então o país, quase um milhão e meio foi afetado pela desertificação1, o que causou migração em massa de agricultores, criadores de gado e suas famílias para as cidades2. Esse êxodo elevou as tensões causadas pelo afluxo de refugiados iraquianos que se seguiu à invasão norte-americana em 2003. Durante décadas, o regime do Partido Baath, em Damasco, negligenciou a riqueza natural do país, subsidiando as culturas de trigo e algodão que requerem muita água e incentivando técnicas de irrigação ineficientes. A criação ultra-intensiva do gado e o aumento da população reforçaram o processo. Os recursos hídricos reduziram-se à metade entre 2002 e 2008.

O colapso do sistema agrícola sírio é resultado de uma complexa interação de fatores, que inclui as alterações climáticas, a má gestão dos recursos naturais e a dinâmica populacional. A “combinação de mudança econômica, social, ambiental e climática erodiu o contrato social entre os cidadãos e o governo, catalisou os movimentos de oposição e provocou uma degradação irreversível do poder de Assad”, dizem Francesco Femia e Caitlin Werrell, do Centro do Clima e Segurança3. Segundo eles, a emergência do Estado Islâmico (EI) e sua expansão na Síria e no Iraque resultam, em parte, da seca. E isso não decorre somente da variação climática natural. Trata-se de uma anomalia: “A mudança dos padrões de chuvas na Síria está ligada ao aumento médio do nível do mar no leste do Mediterrâneo, combinado com a queda da umidade do solo. Nenhuma causa natural aparece nessas tendências, ao passo que a seca e o aquecimento corroboram os modelos de resposta ao aumento dos gases de efeito estufa”, diz a revista da Academia Americana de Ciências4.

Campanha da Fraternidade Ecumênica: texto-base e cartaz

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) torna público o texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) de 2016, que tem por objetivo o debate com a sociedade de questões relativas ao saneamento básico, desenvolvimento, saúde integral e qualidade de vida aos cidadãos.

O tema escolhido para a reflexão é “Casa comum, nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5.24).

Vale lembrar que a reflexão da CEF 2016 será a partir de um problema específico que afeta o meio ambiente e a vida de todos os seres vivos, que é a fragilidade e, em alguns lugares, a ausência dos serviços de saneamento básico em nosso país. O texto-base está organizado em cinco partes, a partir do método “ver, julgar e agir”. Ao final, são apresentados os objetivos permanentes da Campanha, os temas anteriores e os gestos concretos previstos durante a Campanha de 2016.

Internacionalização

Uma das novidades da CFE é a parceria com a Misereor – entidade episcopal da Igreja Católica na Alemanha que trabalha na cooperação para o desenvolvimento na Ásia, África e América Latina. Também integram a Comissão da Campanha de 2016: Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Presbiteriana Unida (IPU), Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia (ISOA), Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Ceseep), Visão Mundial, Aliança de Batistas do Brasil.

- Para adquirir materiais referentes à CFE, acesse: www.edicoescnbb.com.br/cfe2016

Marcos 10,17-31: “Vai, vende tudo que tens e dá para os pobres!” - Mesters e Lopes

Esta reflexão traz dois assuntos: (1) Conta a história do moço que perguntou pelo caminho da vida eterna e (2) chama a atenção para o perigo das riquezas. O moço não aceitou a proposta de Jesus, pois era muito rico. Uma pessoa rica é protegida pela segurança que a riqueza lhe dá. Ela tem dificuldade em abrir mão desta segurança. Agarrada às vantagens dos seus bens, vive preocupada em defender seus próprios interesses. Uma pessoa pobre não tem esta preocupação. Mas há pobres com cabeça de rico. Muitas vezes, o desejo de riqueza cria neles uma grande dependência e faz o pobre ser escravo do consumismo, pois ele fica devendo prestações em todo canto. Já não tem mais tempo para dedicar-se ao serviço do próximo. Vamos conversar sobre isto.

1. Uma pessoa que vive preocupada com a sua riqueza ou que vive querendo adquirir aquelas coisas da propaganda na televisão, pode ela libertar-se de tudo para seguir Jesus e viver em paz numa comunidade cristã? É possível? O que você acha?

2. Conhece alguém que conseguiu largar tudo por causa do Reino?

Situando

1. Nesta passagem do evangelho, Jesus aponta mais dois aspectos da conversão que deve ocorrer no relacionamento dos discípulos com os bens materiais (Mc 10,17-27) e no relacionamento dos discípulos entre si (Mc 10,28-31). Para poder entender todo o alcance das instruções de Jesus, é bom olhar, novamente, o contexto mais amplo em que Marcos coloca estes textos. Jesus está subindo para Jerusalém, onde será crucificado (cf. Mc 8,27; 9,30.33; 10,1.17.32). Ele está entregando sua vida. Sabe que vão matá-lo, mas não volta atrás. Esta atitude de fidelidade e de entrega à missão que recebeu do Pai dá a Jesus as condições de apontar aquilo que realmente importa na vida.

A hospitalidade: direito de todos e dever para todos - Leonardo Boff

A questão mundial dos refugiados nos recoloca sempre de novo o imperativo ético da hospitalidade, no nivel internacional e também no nível nacional. Há migração de povos como nos tempos da decadência do império romano. São milhões que buscam novas pátrias para sobreviver ou simplesmente para fugir das guerras e encontrar um mínimo de paz.

A hospitalidade é um direito de todos e um dever para todos. Immanuel Kant (1724-1804) viu claramente a imbricação entre direitos e deveres humanos e a hospitalidade para a construção daquilo que ele chama de “paz perpétua”(Zum ewigen Frieden de 1795; veja Jacó Guinsburg, A paz perpétua, Ed. Perspectiva, São Paulo 2004).

Antecipando-se ao seu tempo, Kant propõe a república mundial (Weltrepublik) ou o Estado dos povos (Völkerstaat) fundada no direito da cidadania mundial (Weltbürgerrecht). Esta, diz Kant, tem como primeira característica a “hospitalidade geral” (algemeine Hospitalität: § 357).

Por que exatamente a hospitalidade? O próprio filósofo responde: “porque todos os seres humanos estão sobre o planeta Terra e todos, sem exceção, têm o direito de estar nele e visitar seus lugares e os povos que o habitam. A Terra pertence comunitariamente a todos (§358) “.

Francisco de Assis: o protótipo ocidental da razão cordial - Leonardo Boff

Esta entrevista saiu no IHU- on line, dos jesuitas da Unisinos RS no dia 4/10/201

“Francisco punha coração em todas as coisas, por isso as amava e sentia-se unido a elas como membros de uma grande família terrenal e cósmica”, afirma o teólogo

“Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o sentido da pobreza franciscana”, explicaLeonardo Boff à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Neste domingo, 04-10-2015, a Igreja celebra o dia de São Francisco de Assis, que, segundo o teólogo, “inaugurou uma Igreja na base, junto com os pobres, pregando pelas estradas ou nas praças, rezando as horas canônicas debaixo de árvores e teatralizando passagens bíblicas como fez com a celebração do Natal, inventando o presépio”.

Fonte de inspiração nos dias de hoje, a figura de Francisco de Assis é reavivada na Igreja e inspira inclusive Bergoglio, que “tomou o nome de Francisco pelo fascínio que sempre exerceu sobre ele a figura deste santo especial e por causa do amor aos pobres e à natureza”, diz o teólogo. Parafraseando aCarta Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, sobre o cuidado da casa comum, Boff lembra que “‘Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral… o seu coração era universal’ (n.10). Todo o texto da encíclica vem imbuído de coração, pois lê os dados da situação da Terra afetivamente e não apenas intelectualmente. Isso é o modo de São Francisco ler o mundo a partir de um sentimento profundo de união”.

Autor de São Francisco de Assis: Ternura e Vigor, Boffenfatiza que Francisco se “transformou num arquétipo”, numa referência de ideal humano, porque “de tudo o que lhe acontecia, a dimensão de sombra e a dimensão de luz, suas decepções e alegrias, seu sofrimento e morte, fazia caminhos de crescimento e de total integração. Desse processo que combina ternura e vigor, céu e terra, vida e morte, irrompe sua irradiação de alguém que realizou sua humanidade de modo exemplar. Criou um humanismo terno e fraterno que vai além do mundo humano e que abarca toda a natureza e o próprio universo. (…) Francisco bem o sabia, por isso, embora para nós seja um santo exemplar, se considerava o maior pecador do mundo, ‘pequenino, pútrido e fétido, mesquinho, miserável e vil’, como diz numa de suas cartas. Ele podia dizer isso, pois não havia negado, mas integrado tais realidades sombrias, próprias de nossa condição humana, numa síntese superior, repleta de luz, de enternecimento e de amortização”.

IHU On-Line – Quem foi Francisco de Assis? Como entendê-lo na sua complexidade que vai da ternura ao vigor?

Leonardo Boff – Embora tenha vivido há mais de 800 anos, novo é ele; nós somos velhos. Pois ele conseguiu o que nós dificilmente alcançamos: nos relacionar com todas as coisas, mesmo as mais adversas como a morte, chamando-as com o doce nome de irmãos e irmãs. Assim conseguiu uma reconciliação, como se fosse um habitante do paraíso terrenal. Com razão o grande historiador Arnold Toynbeedisse em sua última entrevista: “Francisco, o maior dos homens que viveram no Ocidente, deve ser imitado por todos nós, pois sua atitude é a única que pode salvar a Terra e não aquela de seu pai, o mercador Bernardone”.

O que Deus uniu, o homem não deve separar (Mc 10, 2-16) - Thomas Hughes

Durante a caminhada d’Ele rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-Lo à morte, no intuito de acabar não somente com a pessoa d’Ele, mas com o seu projeto, Jesus, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Esses, que gozavam de muito prestígio diante da população mais simples, se outorgavam o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus, através da sua interpretação da Lei. Por isso entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto “para tentá-lo” (v. 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Dt 24, 1-4, onde não se trata da legitimidade do divórcio, mas, dos critérios para que possa acontecer.

O Evangelho de Mateus, no capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (veja Mt 19, 1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse divorciar a sua mulher (nem se cogitava a mulher pudesse divorciar o marido, pois a mulher era considerada “objeto” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar a mulher por qualquer motivo, mesmo dos mais banais. A escola mais rigorosa - do Shammai - só permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mt 19, 4).

Fórum Temático A Espiritualidade do Bem Viver

Estão abertas as inscrições para mais um Fórum Temático no CEBI Virtual. O mundo carece de bons espaços de reflexão sobre temas que são fundamentais para a construção de outro mundo possível. Queremos fazer dos espaços virtuais um lugar fértil para esse tipo de diálogo e contamos com você para essa conversa.

Participe conosco do Fórum Temático A Espiritualidade do Bem Viver, que terá a duração de um mês. As inscrições estão abertas de 01 a 14 de outubro. O Fórum será realizado de 15 de outubro a 14 de novembro. 

Este Fórum Temático propõe um debate sobre os povos indígenas, seu modo de viver a espiritualidade do Bem Viver e os aprendizados que podemos fazer e vivenciar para a construção de uma vida sustentável no planeta, numa perspectiva de contribuir para a construção de relações onde o Bem Viver seja o nosso horizonte.

Faça sua inscrição para o Fórum clicando aqui.



Estatuto da Família: confira a opinião da REJU

Nós, da Rede Ecumênica da Juventude (REJU), religiosas, religiosos, ativistas sociais, incluídos nos mais diversos arranjos familiares da nação brasileira, repudiamos o Projeto Lei nº 6.583/13 (Conhecido como Estatuto da Família), proposta do deputado federal Anderson Ferreira (PR - PE), aprovado, por 17 votos a cinco, pela Comissão Especial sobre Estatuto da Família, que reconhece como família apenas os núcleos heterossexuais sob a obrigação patriarcal de produzir filhos biológicos. 

Com intuito preconceituoso defende-se que a família é formada da união entre um homem e uma mulher ou por qualquer um dos pais e seus descendentes. Seguindo essa ideia, as demais composições familiares são definidas como tendo base em “relações de mero afeto”. Excluíram-se da família os filhos(as) adotados(as), os órfãos(as), os filhos(as) de uma segunda união e os havidos(as) fora da sociedade conjugal legitimada.

Não há só a distinção discriminatória, mas ofensa e retrocesso das conquistas da população LGBT. Ao retirar o direito de ser família, são excluídos outros arranjos, negando a estes direitos e acesso a políticas públicas.

O projeto é mais um daqueles inspirados em interpretações fundamentalistas, sendo produto de flagrante afronta à Laicidade do Estado e do reconhecimento de todas as pessoas como sujeito de direito. Com tal gesto, o Legislativo dá mostras da fuga do seu dever moral de respeitar os preceitos vigentes, com projetos totalmente inconstitucionais aprovados.

Se não há segurança para todos, não haverá segurança para ninguém - Emir Sader

O genocídio de jovens negros é o maior escândalo do Brasil de hoje. Quem concorda com estes assassinatos acaba sendo autor intelectual desse genocídio.por Emir Sader em 30/09/2015 às 07:35

O primeiro valor para todas as pessoas é o direito à vida. Se esse direito não está assegurado, de nada vale o resto.

No Brasil de hoje vivemos as maiores transformações sociais da nossa história, em que as condições básicas de vida para toda a população estão asseguradas. No entanto, as condições de segurança para toda a sociedade - especialmente o direito à vida - hoje são negadas a um numero cada vez maior de pessoas, particularmente jovens e de origem negra.

O genocídio de jovens negros é o maior escândalo do Brasil de hoje. As famílias desses jovens melhorou inegavelmente de vida na última década, mas se elevou em quase 200% o genocídio de jovens negros, nesses mesmos anos.

Como correlato desse genocídio, o Brasil possui a polícia mais violenta do mundo. Esses fenômenos são possíveis, porque foi fabricada na opinião publica a criminalização das crianças e jovens negros. De crianças e jovens das famílias pobres de nossa sociedade, que deveriam merecer nossa atenção, nosso cuidado, nosso apoio, passaram a ser sinais de risco, de perigo para a segurança dos outros.