Voluntários ajudam refugiados a sobreviver enquanto líderes europeus ainda buscam por soluções

Da Grécia à Alemanha, voluntários estão unindo forças para ajudar refugiados recém-chegados e imigrantes a conseguir comida, roupas e cuidados médicos – preenchendo as lacunas do sistema de asilo falho da União Europeia enquanto os líderes europeus ainda batalham por uma solução comum para a crise crescente.

Mais de 318 mil, em sua maioria, refugiados e alguns imigrantes arriscaram suas vidas para chegar às ilhas gregas até agora em 2015. Eles enfrentam condições infernais à medida que as autoridades locais não estão dispostas ou não são capazes de prover o básico, como comida, água, banheiro ou moradia.

Turistas e locais se dispuseram a preencher a lacuna: “É simplesmente uma tarefa avassaladora”, diz Giorgos, um professor que ajuda a preparar e distribuir mais de mil porções de refeições diariamente.

“Não é apenas alimentar pessoas”, diz Dionysia, outra ativista e diretora de teatro local. “É tratá-las como pessoas.”

Biljiana, 36 anos e originalmente de Belgrado, Sérvia, trabalha como voluntária com seu parceiro. “Também vivenciamos a fome e bombardeios lá em casa” explica ela. “Não podemos simplesmente ficar sentados sem fazer nada enquanto isso está acontecendo à nossa frente.”

Turistas uniram forças, incluindo a dra. Greta Tullman, uma estudiosa alemã. Ela me mostra uma lista escrita à mão de suprimentos para comprar quando for para casa – ela já comprou várias caixas.

Ao final da tarde, a comida está pronta e uma distribuição completa, também de roupas, fraldas e outras necessidades básicas, está espalhada pela ilha, na falta de um centro de recepção adequado.

“Sequer deem água aos imigrantes.”

Mais tarde, no saguão do meu hotel, uma mulher grita: “Se continuarmos assim, não haverá comida para nossas próprias crianças.” Ela diz que o prefeito local disse às pessoas para não oferecer nem sequer um copo de água aos refugiados, sugerindo que isso encorajaria mais pessoas a virem, e parece concordar com ele.


“Ele estava muito magro e tão imensamente traumatizado que tinha dores no peito e dificuldade para respirar”, Doutor Hartmut Wollman, descrevendo um refugiado de 17 anos da Síria

Agora eu entendo o que Christina, outra ativista e professora de enfermagem, me disse mais cedo: “Uma mãe começou a chorar, o pai – um homem de meia idade – se curvou para mim rezou a Deus para agradecer… pelo quê? Porque eu dei a eles uma garrafa de água.”

“Quando a tropa de choque atacou os refugiados, eles estavam chorando”, continuou ela. “Refugiados com sangue por todo o corpo vieram até nós para nos consolar. Eles disseram que já tinham passado por coisas piores… Foi muito tocante.”

Finalmente, bem depois da meia-noite, os ativistas começaram a ir para casa para um descanso muito necessário. “Solidariedade não é caridade”, me diz um Giorgos profundamente exausto. “É re-humanizar uma situação desumanizadora.”

Refeições quentes durante o cadastramento para asilo em Berlim

“Quando os refugiados chegam na Alemanha, eles são reduzidos às funcionalidades humanas básicas”, diz Björn Freter, um homem de 37 anos de Berlim, Alemanha. Ele se voluntariou em um dos centros de cadastramento de asilo da cidade desde agosto, depois de ter ido pela primeira vez com um amigo que ia entregar alimentos doados.

Pessoas de países incluindo Síria, Iraque e Afeganistão arriscaram tudo para chegar ao único país europeu que elas sabiam que os receberia: a Alemanha. Mas a grande enxurrada recente fez sobrecarregou o sistema, deixando muitos sem dinheiro para comida ou um lugar para dormir.

Ao nos mostrar o centro, Björn explica como é frustrante para refugiados exaustos, famintos e traumatizados esperar até 15 dias para que seus cadastros de asilo sejam registrados. Um homem disse a ele: “Prefiro voltar para a Síria e morrer do que dormir por dias ao relento como um animal.”

Assim como Kos, voluntários se colocaram à disposição, provendo uma refeição vegana quente por dia, sanduíches, água, roupas e assistência médica básica. Há, também, uma área de recreação para crianças, um centro de maternidade onde grávidas podem fazer check-ups e uma sala silenciosa onde os pais podem descansar enquanto voluntários cuidam de seus filhos.

Pés cheios de feridas por causa da caminhada de semanas

Quando eles finalmente chegam à Alemanha, Björn diz que a maioria dos refugiados tem feridas graves e bolhas nos pés e está desidratada. Muitos ficam traumatizados e alguns têm lesões de estilhaços. Suas doenças frequentemente são consequência da caminhada de dias ou semanas.

O doutor Hartmut Wollmann, um pediatra semi-aposentado que se voluntaria no centro médico, diz que há uma lacuna nos cuidados médicos para refugiados não registrados, pois casos que não são considerados emergenciais não podem ser encaminhados a um hospital.

As situações de muitas pessoas o tocaram profundamente, inclusive a de um menino de 17 anos da Síria que estava muito magro. “Ele não tinha gordura no corpo. Disse que passou duas semanas e meia na estrada e que não tinha se alimentado adequadamente. Ele estava tão profundamente traumatizado que tinha dores no peito e dificuldade para respirar.”

“Não consegui encontrar nada de errado com ele em termos médicos – era apenas o medo e a dor; ele só precisava de cuidado e descanso”, diz o doutor Hartmut. “Outra paciente, que estava grávida, tinha um menino de três anos severamente desnutrido com uma infecção na boca, o que significava que ele não conseguia comer ou beber.”

Boas-vindas a refugiados: um movimento que está mudando a política

Björn enfatiza a importância dos voluntários: “Se não estivéssemos aqui, quatro ou cinco pessoas que conheci pessoalmente teriam morrido. Uma pessoa foi esfaqueada; outra tinha febre alta. Quando não há comida suficiente, divulgamos nas redes sociais e as pessoas trazem doações.”

“Também é importante mostrar às pessoas que elas são bem vindas”, acrescenta ele. “Não podemos sempre nos comunicar na mesma língua, mas podemos sorrir e deixá-las cientes de que elas podem confiar em nós.”

“Este movimento já está mudando a política na Alemanha”, acrescenta o doutor Hartmut. “Você lê sobre ataques aéreos – como eles disparam contra as casas dos refugiados –, mas o número de pessoas ajudando refugiados é bem maior.”