O Imperativo do Evangelho e nossa contribuição para o movimento ecumênico hoje - Quatro meditações bíblicas ( Wesley Ariarajah )

Desafiada pela missão, a igreja apostólica se reconfigurou. Estamos abertos à renovação a serviço do evangelho? O nosso chamado, como o de Moisés e de Jesus, tem a ver com “solidariedade com o(a)s que são oprimido(a)s no mundo”? Estamos prontos para “correr a corrida” mesmo tendo nossas tradições como base e sendo cercados por uma “nuvem de testemunhas”? O pastor metodista e reconhecido teólogo da Sri Lanka, Wesley Ariarajah foi durante muitos anos Diretor de Diálogo, uma sub-comissão do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Ele ensina teologia ecumênica na Drew Universidade em Madison (USA). Estas quatro meditações foram dadas durante a Consulta sobre Ecumenismo no século 21, em 2004.

1. Missão e a reconfiguração da Igreja Apostólica ( Atos 15:1-21 )

Jesus e seus discípulos eram da comunidade judaica. Ao encontrarem pessoas de outras tradições, geralmente/comumente seu ministério se limitava à sua própria comunidade. Mas os problemas começaram com Pedro quando ele foi chamado à casa de Cornélio. Enquanto ele pregava, o Espírito Santo veio sobre ele, e Pedro batizou Cornélio e toda sua família. Quando Pedro retornou a Jerusalém, foi criticado por ter batizado gentios sem consultar previamente a igreja, mas foi considerado um fato isolado.

Mais tarde Paulo foi até a Ásia Menor para conversar com os judeus da diáspora, bem como na sinagoga, e ele encontrou gregos tementes a Deus que estavam respondendo positivamente à mensagem cristã. A igreja estava diante de uma crise: o que seria feito sobre os gentios? Se cristianismo era parte do judaísmo, os gentios tem que se tornar primeiro judeus (pela circuncisão) para depois se tornarem cristãos? Era uma nova situação que demandava por uma reconfiguração da Igreja.

Algumas pessoas falam da experiência em Atos 15 como a primeira experiência ecumênica. Todos se uniram : Paulo, Pedro, Barnabé e o grupo conservador, que pensava que não se podia ser salvo sem ser primeiro circuncidado.O processo do encontro é importante.Em primeiro lugar, havia um processo de escuta, onde todos tinham oportunidade de colocar seus pontos de vista. Havia um forte movimento de debate e posições antagônicas que pareciam quase irreconciliáveis, que foi seguido por uma tentativa de, juntos, discernirem e chegarem a um consenso antes do processo decisório final.

O desafio era triplo:

1. Era legítimo mudar ( estender ) as fronteiras da Igreja? ( Cada qual tinha suas posições sobre onde estariam as fronteiras da Igreja )

2. Algumas questões importantes e fundamentais tiveram que ser deixadas de lado, como, por exemplo, a circuncisão e a observância estrita da Lei.

3. O que significa ser Igreja? A igreja do tempo de Paulo não decidiu de repente se reconfigurar; o desafio, a demanda, veio de fora, dos gentios.

O que significa ser Igreja no nosso tempo presente (século 21) e atual?

Qual foi a saída que a Igreja apostólica encontrou?

1. Por um lado, eles reconheceram que era a própria missão da Igreja que clamava por uma reconfiguração de sua constituição/essência.Por outro lado, a comunidade reconheceu a importância de se preservar a comunhão ( koinonia ) da Igreja. Então decidiram que os judeus não precisavam mudar; eles não precisavam abrir mão da circuncisão e da guarda da lei para se tornarem cristãos, e não deveriam ser cobrados pela expectativa de serem iguais aos outros.

2. Para haver comunhão na mesa, era esperado dos gentios que fizessem algum sacrifício ( não comer carne ou comida que tenha sido oferecido (em sacrifício) a ídolos, deixar de lado imoralidades sexuais, etc, conforme v.20 )

O cerne desta passagem é a tentativa para reconfigurar a natureza e a vida da igreja, que envolvia sacrifícios de todas as pessoas envolvidas, a determinação em manter a unidade e comunhão da Igreja, além de uma tentativa de discernir juntos a direção que Deus está guiando a Igreja naquele momento especifico.

O que esta tentativa, por parte da igreja primitiva, de reconfigurar sua vida e ministério nos diz sobre nossa própria tentativa de responder às demandas de nossa realidade atual?

2. Qual e a natureza/origem de nosso chamado hoje? ( Êxodo 3 )

O foco da leitura de Êxodo é o chamado de Moisés. Na Bíblia qualquer servo de Deus pode ser chamado; não existe espaço para voluntários. Como Igrejas que somos, não deveríamos fazer nada que não acreditássemos sermos chamados para tal. Qual é a natureza de nosso chamado hoje?

Em Gênesis 12 ouvimos o chamado de Deus para Abraão para deixar sua terra, sua parentela. Não havia motivo aparente para que saísse de onde estava, pois vivia em terras férteis às margens do rio. Mas os escritores bíblicos dizem que Deus o estava chamando para sair/mudar. A pergunta para nós é: “estamos acomodados?” Somos conhecidos como o “povo do caminho”, e não devemos nos acomodar.

Êxodo 3 nos relata o chamado de Moisés, quando Deus pede que ele vá e liberte seu povo que estava sob o jugo dos egípcios, sofrendo a opressão, miséria e escravidão. Mas Moisés responde: “Quem sou eu para ir ao Faraó e libertar os israelitas do Egito?”. Mas Deus chama Moisés e diz que Ele ouviu o clamor do seu povo, visto seu sofrimento e miséria – não foi por causa dele, Moisés. Porque Deus estava preocupado com o sofrimento de seu povo, Moisés teve que reconfigurar sua vida, para que Deus pudesse reconfigurar a vida de seu povo também.

O chamado de Jesus é o mais intrigante de todos, e pode ser caracterizado como um “chamado da encarnação”. Ele foi chamado para fazer parte da comunidade, e assim o fazendo, desafiou o “status quo” de seu tempo. Ele não saiu para desenvolver um ministério/missão, mas foi chamado para ser parte de um grupo/comunidade, sendo solidário com as pessoas que sofriam. A oração de Jesus dizia: “Afasta de mim este cálice”, pois não queria desenvolver o papel que a ele cabia, mas estava preparado para cumprir seu papel, em obediência a Deus (faça a Tua vontade), mesmo que seu final apontasse para a cruz.

O que nosso chamado de hoje tem a ver com solidarizar-se com as pessoas que estão sendo oprimidas ao redor da Terra? Jesus teve que reconfigurar seu ministério a cada dia, para que pudesse mostrar o Amor de Deus, Amor este que o levou até a cruz.

3. Nossa tradição e o imperativo da Boa Nova/Evangelho hoje (Filipenses 3:3-16 )

Nesta passagem bíblica Paulo explora o tema da tradição. Ele não rejeita a tradição; Paulo relata que foi “circuncidado ao oitavo dia, é membro do povo de Israel, da tribo de Benjamim, um puro hebreu nascido de família de tradição hebraica; um fariseu no que concerne a Lei; zeloso, chegou a perseguir a Igreja, reto perante a Lei” (v.5-6). Como a tradição tinha importância na vida de Paulo, ele mesmo declara que mais importante é seu desejo de “conhecer a Cristo e o poder de sua ressurreição, e poder partilhar de seu sofrimento, tornando-se igual a Cristo em sua morte” (v. 10).

O desafio para nós hoje é que fazemos parte da tradição (de nossas igrejas); ela é nossa base e nos identifica. Nossa tradição é de onde saímos e respondemos ao chamado. Mas Paulo está disposto a “deixar de lado” a tradição para poder vivenciar “comunhão dos que sofrem”, bem como a “glória de sua ressurreição”, duas frases que resumem, para Paulo, o significado e o ministério de sua vocação cristã. Ele diz: “não que eu tenha alcançado o gol/objetivo; mas procuro dar o máximo para torná-lo meu” (v.12).

Com a nossa tradição como base, somos chamados a prosseguir, identificando o que é prioridade e imperativo no Evangelho hoje? O que significa participar no mundo hoje?

4. Cercado por uma nuvem de testemunhas, corramos a corrida (Hebreus 11:1-12:2 )

Neste capítulo o autor do livro de Hebreus relata a Fé dos ancestrais, incluindo Abel, Noé, Abraão, Isaque e José. O pano de fundo da descrição dos eventos relatados está no entendimento de que Deus é o “Deus da História”. No entendimento bíblico Deus é Deus tanto do espaço quanto do tempo. Deus não é só Deus do cosmos, mas também Deus da história. A bíblia compreende história como a história de Deus com a humanidade. Sendo assim, não somos protagonistas da história, mas participamos dela em parceria com Deus.

É significativo que desde o início o movimento ecumênico tenha sido chamado de “Movimento do Espírito”. Ninguém é dono do movimento ecumênico; todos nós somos participantes/coadjuvantes de um movimento do qual não somos juízes finais. Na história Israel, Abraão e Sara são vistos como pessoas de grande Fé, porque quando sentiram que Deus os tinham chamado para fazer algo (uma missão), estavam preparados para se por “a caminho”. Abraão e Sara são reverenciados pela coragem que tiveram de dar início ao povo que vivia em peregrinação: “Deus não tinha vergonha de ser chamado seu Deus”.

Na parte final do capítulo temos uma lista dos sacrifícios enormes feitos por pessoas cujos nomes não são mencionados. O autor reconhece o grande/incontável número de pessoas que participaram da história do povo de Deus e cujo ministério é a base do que fazemos hoje, e cujo ministério seria em vão sem nossa Fé nos dias de hoje. Em outras palavras, somos parte de um longo processo, raça eleita, onde uma geração passa sua Fé a outra geração.

O movimento ecumênico é um movimento do povo “a caminho” por todo o mundo, dentro e fora das igrejas, cujos nomes nem sempre sabemos. Não é um movimento que começamos, mas que nos juntamos, nos aliamos, tomamos parte dele.

O autor diz que: “Assim nós temos essa grande multidão de testemunhas ao nosso redor. Portanto, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós. Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa Fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa.” (Hb.12:1-2)

Identificamos três tópicos/fundamentos para as pessoas que desejam se juntar à corrida:

1. Reconhecer que é um movimento de Deus; um movimento de uma multidão de testemunhas que nos antecederam;

2. Identificar e remover o pecado que nos paralisa e faz com que deixemos de participar deste movimento; 

3. Focar em Jesus, a razão da nossa Fé, que não exige sucesso, mas fidelidade;

Traduzido por Anita Sue Wright Torres, do periódico “Reformed World” – Volume 55 . número 2 junho de 2005 – Re-imaginando Ecumenismo – World Alliance of Reformed Churches