MISSÃO EM PAUINI: PRIMEIROS OLHARES

Fátima Castelan e Edigar Barraqui

“Eu vi o sofrimento do meu povo, ouvi seu clamor diante de seus opressores e desci para libertá-lo”. (Cf. Ex. 3)

Nossa jornada missionária teve início no dia 11 de janeiro, quando embarcamos em Vitória rumo a Rio Branco, no Estado do Acre, de onde partiríamos para Pauini, nosso local de missão.

Depois de duas escalas, passando pelo Rio de Janeiro e por Brasília, chegamos ao Aeroporto de Rio Branco, de onde partimos de táxi até à casa da Irmã Inês, religiosa da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora, onde fomos carinhosamente acolhidos.

Após uma boa noite de descanso, tomamos o café junto com a Irmã, que nos alegrou o coração com a partilha de suas intensas experiências missionárias pelos interiores do Acre. Logo depois, retornamos ao Aeroporto para, enfim, tomarmos o voo para Pauini.

Para nossa surpresa e temor, nos deparamos com o pequeno avião que nos levaria até nosso destino. Tomamos coragem e partimos no “teco-teco” (como é conhecido na região), que comporta apenas 4 pessoas (incluindo o piloto), até a cidade de Boca do Acre, que fica distante 30 minutos de Rio Branco. De lá, mudamos para um avião em melhores condições, que nos levou até Pauini.

Já em terra, fomos acolhidos pelo Frei Antônio, que nos levou até a casa paroquial, que fica bem próxima do local onde chegam as embarcações, vindas das cidades vizinhas e das proximidades.

AS REALIDADES DE PAUINI E SEUS DESAFIOS PASTORAIS

Mesmo recém-chegados à cidade, o contato com o povo mais simples, que é muitíssimo acolhedor e alegre (apesar de tudo), tem nos revelado muitas faces de Pauini; principalmente suas relações políticas, religiosas, culturais, sociais e os sistemas de opressão que podem ser vistos pelas ruas da cidade, nas mãos calejadas dos trabalhadores e no olhar das pessoas.

Pauini é um município do Estado do Amazonas, distante 3.000 km (de barco) da capital Manaus, que se localiza às margens do Rio Purus. Com uma extensão de 43.263 km²,seu acesso se dá exclusivamente por barcos (os que transportam cargas e passageiros; e as “voadeiras”, que são uma espécie de lancha de maior velocidade) ou por aviões de pequeno porte, cuja rústica pista de pouso está bem próxima ao centro da cidade. Contudo, os pobres quase nunca viajam de avião, devido ao alto preço das passagens. Para se ter uma ideia, um voo de Rio Branco a Pauini custa cerca de R$ 420,00 por pessoa. Segundo os moradores com os quais temos tido contato, nos períodos eleitorais, alguns candidatos custeiam passagens aéreas à diversas pessoas, principalmente aos idosos, que precisam ir constantemente a Rio Branco para realizarem consultas e tratamentos médicos. Essas pessoas, na hora do voto, sentem-se na obrigação de retribuir o “favor” ao candidato.

A população que compõe o Município é de cerca de 17.123 habitantes, composta principalmente de migrantes vindos da região nordeste do país. Destes, 6.982 vivem em áreas urbanas e 10.161 vivem nas zonas rurais e à beira do rio (os ribeirinhos).

O pequeno centro da cidade não possui grandes comércios e, tão pouco, indústrias ou fábricas. A economia do município é baseada, principalmente, na agricultura de subsistência, na extração de látex (borracha) e na pesca. Em grande parte, a sobrevivência do povo depende dos repasses dos governos federal e estadual, e de programas como o Bolsa Família. Há ainda outros que trabalham em cargos públicos, nos órgãos ligados à prefeitura.

Muitas famílias fazem o cultivo da mandioca nas terras mais férteis, próximas à margem do Rio Purus. E, no mês de janeiro, com o aumento das chuvas e a elevação no nível fluvial, o povo se concentra em colher as raízes da “mandioca brava”,para transformá-las em farinha,destinada ao consumo próprio. O tipo mais produzido e consumido é a “puba”, de coloração amarelada e com grãos maiores. É um período muito desafiante para a organização da paróquia e das pastorais, principalmente; uma vez que muitas pessoas estão envolvidas com o trabalho nas farinheiras.

Desde os alimentos mais básicos (não perecíveis, carne, leite, ovos, verduras, legumes, peixes, etc.) até material de construção, remédios, encomendas pessoais, quase tudo chega à cidade através dos barcos movidos a óleo diesel, principalmente. Os rios são responsáveis, em grande parte, pelo sustento e pela vida do povo simples e trabalhador de Pauini. Contudo, a dificuldade do transporte encarece muito o preço dosprodutos no comércio local, afetando diretamente ao consumidor final, que são os pobres, em sua maioria. Um litro de gasolina, por exemplo, chega a custar até R$ 5,00; lembrando que muitas embarcações pequenas dependem deste combustível para seu funcionamento. Em relação aos alimentos, as verduras e legumes são os mais caros, uma vez que a terra da região é pouco fértil, impossibilitando o cultivo em maior escala. Dessa forma, a alimentação do povo é pobre em relação a esses alimentos.

Contudo, o mesmo rio que traz a vida, também traz a morte. Pelos barcos chegam a cidade as drogas, que são cada vez mais comuns, principalmente entre os jovens. Também,com o grande vai-e-vem das embarcações e a movimentação de pessoas, vindas das várias regiões do Purus, a exploração sexual de crianças tem se tornado algo quase normal.Mesmo com o intenso trabalho de vigilância e denúncia por parte da Igreja e do Conselho Tutelar, há casos de famílias que alugam quartos em suas próprias casas para servirem de prostíbulos.

A educação no município é precária, mas a situação já foi bem pior. Segundo informações, no censo de 1991, o município apresentava um dos maiores índices de analfabetismo do Brasil. Hoje, os maiores desafios educacionais do município se concentram na falta de professores, principalmente nas escolas do interior e à beira do rio; na má gestão das escolas existentes e na corrupção política que desvia as verbas destinadas à merenda escolar e aos recursos básicos para o funcionamento das escolas.

Pauini conta com uma unidade básica de saúde e um hospital, que demorou 6 anos para ser concluído; o antigo hospital foi abandonado por conta de uma forte bactéria que contaminou o local. Contudo, a falta de profissionais para operarem os equipamentos inviabiliza a execução de muitos exames, fazendo com que a população tenha de viajar às cidades de Rio Branco ou Manaus em busca de atendimento. O Programa Mais Médicos do Governo Federal tem ajudado muito com o envio dos médicos cubanos à cidade. Todos os moradores que conversamos se mostraram satisfeitos com os trabalho desses médicos. Talvez isso aconteça, em grande parte, pelo fato de estarem acostumados a serem atendidos por “médicos” que nem sequer possuíam registro no CRM – Conselho Regional de Medicina, ou por “farmacêuticos” que possuem pouca ou quase nenhuma formação, e acabam indicando remédios por conta própria.

O grande problema da saúde pública é agravado ainda mais pelas doenças como a malária, as verminoses e a hepatite, que são mais comuns nas comunidades ribeirinhas. Contudo, nas áreas urbanas, com a falta de saneamento básico, o esgoto corre à céu aberto pelas ruas da cidade, contaminando os poços artesianos; que são, além do rio, a única fonte de água potável da cidade.

Na sede do município, a energia é produzida por uma estação que funciona a óleo diesel. Mas, como presenciamos, há sempre muitas quedas na transmissão. Nas regiões ribeirinhas, algumas comunidades possuem pequenos geradores, mas, a maioria acaba se virando com velas e lamparinas.

A violência também é um grande desafio para a cidade. Muitos dos crimes cometidos ficam arquivados e seus culpados impunes porque a cidade não possui um juiz e nem promotor que possam acompanhar os casos. Existem também alguns conflitos entre as populações indígenas e os ribeirinhos por causa da demarcação das terras.

Um tema recorrente nas conversas com o povo da região que nos tem chamado a atenção é a corrupção. Por toda a cidade se ouve muitos casos concretos envolvendo os órgãos municipais e até a própria polícia. Após as manifestações de junho de 2013, onde diversos casos de corrupção foram denunciados, algumas lideranças da cidade, incluindo os Freis, foram ameaçados por pessoas ligadas a esses grupos. Uma das denúncias mais graves é a de que alguns policiais estejam envolvidos em esquemas de exploração sexual de menores, no tráfico de drogas, além de práticas de tortura. Frei Antônio nos contou que, muitas vezes, teve de ir à delegacia de polícia para interceder por pessoas que são presas por alguma briga de rua e, quando chegam na cadeia, são duramente torturadaspelos policiais. Num dos casos mais violentos que ouvimos, nos contaram que os policiais torturaram um rapaz derramando ácido em partes de seu corpo. Alguns dizem que, antes da chegada do delegado atual (porque antes não havia um delegado responsável pela cidade), muitas gente era presaporque estava em dívida com pessoas poderosas da cidade. Numa das falas que ouvimos do povo, alguém nos dizia que “aqui em Pauini não existe a atuação do Estado; estamos vivendo um coronelismo disfarçado”.
 
As comunidades ribeirinhas
No dia 19 de janeiro, véspera da festa de São Sebastião, embarcamos numa “voadeira” e partimos rumo a comunidade de Ajuricaba, que fica a 4 horas rio abaixo. É um pequeno povoado composto por cinco ou seis famílias, reunidas às margens do rio. No caminho, tivemos a oportunidade de visitar várias famílias ribeirinhas, ver e ouvir um pouco de suas dores, alegrias e esperanças. São pessoas muito acolhedoras, embora demorem um pouco para romper a timidez, típica dos que vivem mais isolados, com pouco contato com outras pessoas.

À beira do rio, vemos com mais intensidade o trabalho das famílias na produção artesanal de farinha. Neste período, todos se envolvem na produção, desde as crianças até os mais velhos. Muitos passam, literalmente, o dia inteiro dentro da água lavando as raízes de mandioca. Praticamente toda a produção é para o consumo próprio. Da mandioca ainda se extrai a goma, que é a matéria prima da tapioca, comida típica dos pobres da região. Além da farinha, o povo coleta a castanha, a andiroba e o açaí. Muitos atravessadores vão até as famílias para comprar esses produtos, mas, pagam aos ribeirinhos um preço irrisório e depois revendem para as fábricas de cosméticos com preços superfaturados.Infelizmente, na região não existe nenhuma cooperativa que organize as famílias e viabilize o comércio e a exportação desses produtos. A floresta produz muita riqueza, mas não é aproveitada.

Os desafios pastorais para se atender essas populações é imenso. Se no centro existem 5 comunidades, à beira do Rio Purus há cerca de 40 comunidades organizadas e muitas outras que apenas se encontram em momentos festivos. Para se chegar à última capela ribeirinha gastam-se cerca de 6 dias de viagem, somentena ida (a volta é mais demorada porque o barco vem contra a correnteza); são necessários em torno de 1.200 litros de óleo diesel.

Os custos das viagens são altíssimos e os recursos da paróquia são mínimos. No ano de 2014, mesmo com poucas visitas às comunidades ribeirinhas, a paróquia gastou cerca de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) nesses trajetos, sem contar os gastos com alimentação e o salário do comandante do barco.

Todas essas dificuldades fazem com que as comunidades ribeirinhas fiquem, de certa forma, abandonadas. Esse é o sentimento na fala e no olhar das pessoas que visitamos. Percebemos que há, por parte dos Freis, um grande esforço na tentativa de acompanhar esta grande parcela do povo, mas, não é o suficiente. Naspoucas visitas possíveis (geralmente uma vez ao ano) são realizadas as chamadas “desobrigas”, que apenas levam os sacramentos, mas, não formam comunidade, de fato. Talvez venha daí a dificuldade do povo inculturar a liturgia e a Palavra de Deus em sua realidade amazônica e ribeirinha. O modelo europeu é facilmente percebido nos ritos, nas ornamentações, nas orações e nas falas de muita gente.

O Centro Esperança
O Centro Esperança é um espaço amplo, multidisciplinar, com diversas salas, construído com recursos vindos, em sua maioria, da Espanha, por influência dos freis. Atende cerca de 200 jovens, em dois turnos, com idades entre de 12 a 18 anos, em situação de risco. No local, os jovens realizam várias atividades como: informática, marcenaria, costura, crochê, culinária, violão, além de reforço escolar. É um ambiente que faz jus ao nome, porque tem o papel de trazer esperança à esta realidade tão dura e tão sofrida, de levar educação de qualidade e dignidade aos jovens. O Centro atende aos pobres de todas as denominações religiosas, com atenção maior aos que mais necessitam. Contudo, a cada ano tem sido mais difícil manter o Centro Esperança em funcionamento, devido aos custos com a manutenção do espaço e o pagamento de funcionários. Infelizmente, os recursos escassos da Paróquia não são suficientes para o tamanho das demandas existentes.
 
A experiência do estudo popular dos Evangelhos

Desde o dia 13 de janeiro, até o dia 23, estamos vivendo uma experiência bonita de poder colaborar com a Paróquia Santo Agostinho (no Centro) no estudo bíblico dos Evangelhos. São duas turmas, uma pela tarde e outra à noite. O grupo da tarde conta com cerca de 40 pessoas e o da noite com 80, aproximadamente.

Com a proposta de leitura popular da Palavra de Deus, utilizada pelo CEBI – Centro de Estudos Bíblicos, a Fátima (Fatinha) tem conduzido os estudos com foco em buscar compreender a pessoa de Jesus e seu tempo de forma crítica e ao mesmo tempolibertadora, sempre fazendo pontes entre a realidade de Jesus com a realidade do povo amazônico, e, mais concretamente, da vida do povo de Pauini.

Como é bonito perceber em cada pessoa a sede e a disposição de aprender! São grupos muito diversificados: desde crianças e adolescentes, até idosos; de pessoas com alguma formação à outras que são analfabetas. É uma relação mútua de aprendizado em que o conhecimento brota a partir das reflexões críticas e das experiências de vida de cada pessoa, que também trazem elementos novos que vão atualizando a Palavra de Deus. É a Palavra de Deus transformada em Palavra de Vida.

A missão de aprender a ouvir
Sabemos que não basta ver a realidade para que ela seja transformada e para que as pessoas possam tomar consciência de seu próprio processo de libertação (apesar de toda disposição e boa vontade de nossa parte). Tem ficado cada vez mais transparente para nós que, em muitos casos, o silêncio e a ausência de uma atitude profética dos cristãos daqui diante das opressões são fruto de um silêncio maior e histórico. Ouvindo suas experiências de vida, fica claro que a dor, o sofrimento e o medo vêm calando a voz do povo de Pauini, desde seu nascimento. A missão maior hoje não é somente evangelizar o povo, mas descobrir por que o povo se cala; escutar o que eles têm a dizer; caminhar com eles; rezar com eles; viver com eles e como eles.

Pauini é um campo de missão extremamente desafiador, mas, muito místico e encarnado, também. Aqui tudo sussurra o nome de Deus: a imensidão das águas do rio, os vários tons de verde das florestas, o povo trabalhando na produção de farinha, o olhar das crianças nas janelas, a fé e a esperança do ribeirinho na providência divina. Em alguns momentos fica difícil assimilar tantas experiências profundas; nossa oração parece fluir como as águas do rio...às vezes turva e às vezes clara. É como se Deus nostivesse virando do avesso.

Que o Deus da libertação seja em nós o que a água é para o rio.

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