Eu visto branco pelo fim da intolerância religiosa

A intolerância religiosa…

O dia 21 de janeiro é marcado como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data foi instituída em 2007 pelo presidente Lula (Lei Nª 11.635) e faz referência à morte de Mãe Gilda, Yalorixá do IIé Axé Abassá de Ogum, que faleceu em Salvador (BA), nos anos 2000, após sofrer atos de intolerância. O “caso Mãe Gilda” não é um fato isolado e mostra que essas práticas acontecem, principalmente, com religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, estando relacionadas também com o racismo. Na França e na Alemanha, como está em evidência nos últimos dias, muitas são as práticas de intolerância religiosa contra o Islamismo que guardam consigo – assim como no Brasil – raízes coloniais e projetos hegemônicos de civilização.

No contexto brasileiro, há dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República que apresentam outras “Mães Gildas”. As ligações para o “Disque 100” mostram um aumento de 626% nas denúncias de intolerância religiosa entre 2011 e 2012. Junto a isto, um relatório da PUC-Rio (2011) revela que em um grupo de 847 terreiros no Rio de Janeiro, 430 foram alvos de intolerância, com 57% dos casos em locais públicos. Essa realidade evidenciada nas estatísticas pode estar longe de representar a quantidade de violações de direito à liberdade religiosa vivenciada no Brasil, mas já anuncia que não se vive em um espaço de profundo respeito à pluralidade e à diferença. A oikoumene está marcada pelas desigualdades e injustiças.

Nessas histórias pode-se ver que a intolerância se estrutura como uma negação, uma tentativa de encobrir um modo de viver, um modo de habitar o mundo, uma busca pela exclusão devido à experiência religiosa da outra, do outro. É como se uma pergunta aparecesse em um quadro: o que esta religião faz aqui? Em um mundo plural, dinâmico e marcado pela diferença os traços intolerantes desejam construir um mundo único, singular e nada diverso.

Uma luta que se dá por símbolos e metáforas: “eu visto branco…”

Por se orientar pela construção de uma casa-comum justa para todas as pessoas, a REJU (Rede Ecumênica da Juventude) assumiu como um de seus eixos de atuação para o próximo biênio (2015-2016) a garantia e a efetivação do Estado Laico e a superação de intolerâncias. Por este motivo, a rede realiza a mobilização no dia 21 de Janeiro: “Eu visto branco pelo fim da intolerância religiosa”. 

O vestir branco nos remete às religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda. Nas tradições da Casa Branca, terreiro do Engenho Velho de Salvador (BA), o branco está relacionado a duas narrativas: a primeira delas traz a história do bairro da Barroquinha (sede originária do Ilê Axé Iya Nassô Oká, a Casa Branca), no século 19, em que pessoas do candomblé e muçulmanos (Malês) conviviam de maneira sincrética. Por isso, há histórias que relacionam o uso do branco – o pano de proteção de Oxalá, que se chama Alá – a uma homenagem a essa integração com os muçulmanos e também a uma recordação das negras e negros escravizados no Brasil. 

Uma segunda narrativa traz a referência ao mito das águas de Oxalá. 

Oxalá (Oxalufan) decidiu um dia visitar seu filho, Xangô, consultou o oráculo e foi avisado para se cuidar, pois poderia sofrer problemas na viagem. Assim mesmo o velho se vestiu de branco e seguiu a pé para o reino de Xangô. No caminho Exú colocou três avisos para Oxalá que se resumem em três tropeços e, finalmente, um roubo. Oxalá ficou machucado, sujo. O velho conseguiu chegar às portas do reino, mas ninguém o acolheu com aquela aparência. Xangô estava fora em uma batalha. No reino, os soldados ao verem aquele velho estrangeiro, maltrapilho, decidiram jogá-lo no calabouço. Xangô, então retornou e durante sete anos houve todo tipo de mal, seca, infertilidade em seu reino. Sem mais o que fazer, Xangô procurou o oráculo que indicou que havia algo de errado no calabouço. Com a surpresa de encontrar seu Pai totalmente maltrapilho e ferido, Xangô convocou todo o reino, sentou Oxalá em seu trono e determinou que todas as pessoas trouxessem água fresca e limpa para banhar Oxalá, devendo todos estarem vestidos em suas roupas mais simples, que eram as brancas, recém curtidas, sem cor. 

Inspiradas e inspirados nesses mitos e nas marcas de intolerância religiosa vivenciadas cotidianamente, estaremos de branco. As lutas por “outros mundos possíveis” se dão (também) por metáforas e por símbolos. Vestir o branco é caminhar nos passos das outras, dos outros; é habitar mitos e narrativas dos “povos de santo” e rememorar os Malês de nossas histórias, contra toda a “islamofobia”, acolhendo, como simbolizado nas “águas de Oxalá”, as(os) estrangeiras e as(os) pobres.

Ao vestirmos branco, anunciamos as violações de direitos humanos, direito à livre consciência, culto e crença; e nos colocamos em irmandade e parceria para nos articularmos e anunciarmos a garantia e a efetivação do Estado Laico, para que se assegure, de fato, a liberdade religiosa. Diante de práticas intolerantes em: Salvador, Vitória da Conquista, São Paulo, Porto Alegre, São Leopoldo, Lajeado, Recife, Joaboatão Gararapes, Campina Grande, Belém, Maringá, Londrina, Curitiba, Rio de Janeiro, Vitória, Serra, Goiânia, Brasília, Paris, Berlim, Nigéria, Palestina...… em cada canto, e com o sonho de que elas não aconteçam em lugar algum, vestiremos branco!
_________________ 

Para compreender o “Caso Mãe Gilda”, leia o texto de Jussara Rego disponível na Revista Tempo & Presença: http://migre.me/o7zWN.

Na compreensão proposta pela REJU é necessário a busca por se construir uma casa comum (oikoumene) realmente justa e sustentável para todas as pessoas e a criação. (REJU, 2015, http://migre.me/o7OjC)

Fonte: CEBI Nacional