Reunião destaca importância de enfrentamento à intolerância religiosa

“Enquanto não entenderem que cada qual pode seguir sua religião, a intolerância só vai aumentar”. A fala da Ialorixá Mãe Branca de Xangô traduz a necessidade das religiões de matriz africana serem respeitadas, principalmente por adeptos de outras tradições religiosas. O problema que afeta negativamente seguidores dessas expressões de fé foi pauta em uma reunião realizada na tarde da última quarta-feira (10) no terreiro Ilê Asé Obá Babá Séré, em Cajazeiras XI, Salvador (BA).

O encontro, articulado por sacerdotisas e sacerdotes de cultos afro da região de Cajazeiras, contou com a presença da CESE, do Conselho Ecumênico Baiano de Igrejas Cristãs (CEBIC) e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) da Bahia. A principal motivação do encontro foi o repúdio aos ataques que as religiões de matriz africana vêm sofrendo ao longo de séculos e que tem se intensificado em todo território brasileiro. Caso mais recente foi o ato que aconteceu na Pedra de Xangô em Cajazeiras X, no último mês de novembro, quando 200 quilos de sal foram despejados na pedra (sagrada para as religiões afros) e no seu entorno, num claro desrespeito ao povo de santo.

Estiveram reunidas lideranças religiosas dos cultos afro como: a Ialorixá Mãe Branca, Mãe Iara de Oxum (do Ilê Tomim Kiosésé Ayó), Pai Gil e a Ialorixá Rita (do terreiro da Suburbana). A CESE foi representada por Sônia Mota, diretora executiva e também pastora da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, e por Rosana Fernandes, assessora de projetos; o CEBIC esteve representado pelo pastor Valdir Weber, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, além do secretário da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Raimundo Nascimento. Todos os presentes se colocaram contra toda e qualquer forma de intolerância religiosa, lembrando que se trata de um crime.

Outros assuntos discutidos durante o encontro foram: a importância da preservação da Pedra de Xangô, monumento de grande importância para os adeptos do candomblé; a necessidade de ações para conscientização da população sobre as religiões de matriz africana, que são demonizadas por parte da população.

“Nós, enquanto organização de entidades religiosas, não compactuamos com atos de desrespeito à diversidade religiosa. A CESE luta há 40 anos por direitos e o povo de santo tem o direito de liberdade de culto, de preservar seus locais sagrados. Essa depredação da Pedra de Xangô causou muita indignação entre todos nós. Nossa presença é em solidariedade e respeito ao povo de santo e em repúdio a atos de intolerância”, ressaltou Sônia Mota.

Em entrevista à Tribuna da Bahia, o pastor Valdir Weber pontuou que é “inaceitável o radicalismo moral, religioso e político desse segmento e sob o farisaísmo de efetuar tais agressões em nome de Jesus”.

Para o secretário Raimundo Nascimento, o poder público precisa assegurar aos seguidores do candomblé a preservação dessa herança cultural africana. “Nós, como Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado, temos o papel de reafirmar a importância das religiões de matriz africana e garantir que essas pessoas tenham liberdade de culto”.

A reunião foi encerrada com uma reza iorubá dirigida por Mãe Branca e, em seguida, como prova do diálogo respeitoso que se estabeleceu entre as (os) presentes, foi feita a oração do Pai-Nosso ecumênico. Todos receberam o convite de Mãe Branca para o V Amalá da Pedra de Xangô.

Desdobramento

Em continuidade ao diálogo entre as religiões cristãs e as religiões de matriz africana, a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço e o CEBIC (Conselho Ecumênico Baiano de Igrejas Cristãs), em parceria com a Sepromi, participaram, no dia 14 de dezembro, de uma caminhada em repúdio aos atos de vandalismo cometido contra lugares sagrados para o povo de santo.

“Este ato representa a luta contra a intolerância religiosa. Todos os religiosos deveriam se unir, se portar com respeito e entender que Deus é um só, independente de como é reverenciado”, disse a ialorixá do Ilê Axé Obá Babá Xére, mãe Branca de Xangô.

Fonte: CONIC