Natal - Gildo Lyone A. de Oliveira*

25 Décembre - Noël - La Naissance de JésusFaz tempo que ando meio "incomodado" com o "Natal", ou com o que fizeram dele.

A tradição cristã nos ensinou, como atestam os escritos bíblicos, que Natal é nascimento, chegada do menino Jesus. Acontecimento tão importante, a ponto de ser anunciado por profetas como Isaías, Zacarias e João Batista. 

Mas e aí? Que significado tem o Natal nos nossos dias? Que consequências traz para aqueles/as que acreditaram ou acreditam na realização desse acontecimento? 

Para iniciarmos a conversa sobre este tema, primeiro, é necessário dizer que se trata de questões polêmicas e de difícil trato. Segundo, que nos propomos falar do assunto a partir da militância e aprendizado realizado nas CEB's – Comunidades Eclesiais de Base. 

A experiência de fé construída a partir da militância pela vida, fundamentada na perspectiva do próprio Jesus Cristo, que afirma "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (Jo.10,10), faz com que as CEB's promovam uma expectativa acerca da chegada do Natal, que nada se parececom o que vemos por aí, alardeado de canto a canto pela mídia brasileira e mundial, bem como por religiosos/as, cristãs/ãos das mais variadas denominações, que não se comprometem com a luta pela defesa da vida em abundância para todos/as.

Como propaga a grande mídia, o Natal é apenas um símbolo.Tempo de"falsa" solidariedade, expressa pela preocupação quase religiosa de frequentar os shoppingcenters, templos do deus mercado, onde se compram presentes para serem trocados com colegas de trabalho, familiares, nos ritos quase sagrados do "amigo x" e ou "amigo surpresa". Neste caso, só participa quem pode, ou seja, quem consome em abundância, inserindo-se na experiência de fé do deus mercado; que tem seus templos e praças divinamente enfeitados para o culto ao "velho Papai Noel", símbolo do presenteador. Tudo é preparado para sua chegada. As famílias são induzidas a servi-lo, apresentando-lhe seus/suas filhos/as, geralmente nos templos do consumo, os shopping centers espalhados pelas cidades.

Já para aqueles/as religiosos/as, cristãos/ãs que não se comprometem com a luta pela defesa da vida em abundância para todos/as, o Natal é o tempo da chegada do filho de Deus, do salvador do mundo, aquele que veio para transformar a vida das pessoas sem fazer com que elas consigam romper com a "prática religiosa" do mercado. Conseguem, ao mesmo tempo, enfeitar suas casas, ruas, praças para o Natal do deus mercado; montar seus presépios e realizar cantadas e campanhas solidárias de Natal no interior de suas igrejas, sem se incomodarem com as injustiças sociais que vitimam milhões de seres humanos mundo afora, impedindo-os de alcançarem a tão sonhada dignidade humana. Parece não haver contradições entre as duas práticas.

A experiência de fé vivenciada no interior das CEB's nos apresenta alguns paradigmas que nos levam a fazer uma leitura muito diferente do Natal.

Atentas e fiéis à leitura da Palavra de Deus encarnada na história de homens e mulheres inseridos em suas mais variadas circunstâncias, ou seja,seus costumes culturais e práticas sociais, religiosas e políticas, as Comunidades inseridas no meio do povo conhecem, vivenciam suas angústias, suas dores, resultado do abandono dos "governantes", os mesmos que enfeitam praças e ruas, ou contribuem com incentivos para a construção de templos ao deus mercado, ao invés de elaborarem políticas públicas que atendam às reais necessidades do povo.

Essa experiência de fé vivenciada pelas CEB´s é marcada pela luta em defesa da vida digna para todos/as, pela "vida em abundância", como afirma Jesus, proporcionando uma experiência do Natal, não como práticas consumistas, ou como a expectativa pela chegada de um menino deus, desencarnado da vida do povo, de suas angústias e desafios. Contribui, antes, para a confirmação da realização das promessas anunciadas pelos profetas, como Isaías, 61. 1-3:"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; me enviou para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor".

O Senhor veio visitar a humanidade como pobre, para, a partir destes, desmascarar todas as estruturas geradoras da morte, sejam elas sociais, políticas, econômicas, religiosas ou ideológicas.

Nesta perspectiva, o Natal é tempo de libertação, de festa dos pobres, da verdadeira solidariedade, a festa da inclusão. O libertador chegou e habitou entre nós. Rejeitado pelas estruturas de poder, nasce pobre, filho de uma dona de casa e um carpinteiro, vítimas de uma sociedade sustentada por uma lógica de exclusão e morte.

Chegou até nós, visita-nos o Deus da vida, da "vida em abundância" para todos e todas. 

É tempo de festa, celebração do que somos ao longo de nossas vidas. Discípulos/as de Jesus, militantes por uma sociedade justa, fraterna e solidária, onde o Natal é muito mais que ruas enfeitadas, shoppings abarrotados, festas de "amigo x", da solidariedade que se limita a esse tempo.

Natal é a festa do compromisso com o novo,com a formação do novo homem e da nova mulher; livres das amarras da morte (consumismo, moralismo, racismo, sexismo) e demais formas de alienação.

Festejar o Natal é celebrar a festa da vida em abundância para todos e todas.

Feliz luta pela vida! Feliz Natal!!!!

Viana - ES, Dezembro de 2014. 

*Gildo Lyone Antunes de Oliveira
Professor de Filosofia da Rede Estadual e Membro do CEBI - ES.