Lucas 2,1-7: Jesus criança, o rosto humano da ternura de Deus - Ildo Bohn Gass

No segundo capítulo da Boa Nova, segundo as comunidades de Lucas, ainda estamos no Evangelho da Infância de Jesus (Lucas 1-2). Mais do que dizer como os fatos aconteceram, essas narrativas querem ir mais fundo, querem conduzir-nos para além dos fatos, tal como o espelho retrovisor conduz nosso olhar para além dele mesmo. Por isso, fazem uma leitura teológica da infância de Jesus para servir de luz na caminhada das pessoas e das comunidades a quem elas se destinam, ontem e hoje.

Um dos textos propostos para refletir na noite de natal é a narrativa a respeito do nascimento de Jesus segundo Lucas 2,1-7. Podemos dividir este relato em duas partes.

Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto...

A primeira delas situa o nascimento de Jesus na difícil realidade de seu tempo (Lucas 2,1-2). O povo judeu, como tantas outras nações, está sob a dominação do império colonialista de Roma. O nome do imperador da ocasião é César Augusto, que governou em Roma de 31 a.C. até o ano 14 d.C. Seu governo, portanto, durou nada menos que 45 anos. Foi Augusto quem deu início ao império romano, concentrando, dessa forma, ainda mais do que na época da república, o poder político, militar e econômico na capital imperial. As comunidades de Lucas conheciam muita bem como os imperadores oprimiam as nações subjugadas. Anotaram, inclusive, a análise crítica que Jesus fazia de sua tirania: “Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores” (Lucas 22,25). 

Quirino, o governador romano na Síria, foi o responsável por organizar o recenseamento na região. Sabemos que os principais objetivos do censo tinham em vista a opressão política e econômica. Tinha como meta saber o número de homens aptos a serem eventualmente recrutados para a guerra (os judeus tinham o privilégio de não prestar serviço militar no exército romano), bem como saber a quantidade de pessoas sobre as quais podiam cobrar impostos. Os tributos cobrados por Roma passavam de 50% do rendimento das famílias dos povos colonizados. Dessa forma, Roma, além de ser o centro da dominação imperialista, tornava-se também um grande centro de acumulação de riquezas.

Neste contexto de ocupação militar romana, nasce Jesus. Segundo a teologia da infância, o filho de Maria e José nasce em terra palestina. Hoje, a realidade é muito semelhante. O povo palestino, que vive em Belém, continua sitiado, não pelos romanos, mas pelo exército do estado de Israel. Não são apenas os soldados que cercam a cidade de Belém e, muitas vezes, a ocupam, mas a cidade está literalmente separada de Jerusalém por uma muralha de 8 metros de altura. Neste contexto, Jesus quer nascer ainda hoje em Belém como luz que derruba muralhas que dividem e constrói pontes de solidariedade.

Mateus situa o nascimento de Jesus somente no contexto da Palestina, no tempo do rei Herodes (Mateus 2,1-12). Diferente é com a narrativa do nascimento de Jesus em Lucas. Ao situá-lo no contexto mais amplo do império, as comunidades de Lucas querem apresentar Jesus tendo uma missão universal. Ele veio trazer a libertação, a salvação para todos os povos. É essa também a razão por que Lucas faz recuar a genealogia de Jesus até Adão (pai de toda humanidade – Lucas 3,38), diferentemente de Mateus, em que a linha de parentesco de Jesus vai somente até Abraão (pai somente do povo de Israel – Mateus 1,2). 

Maria deitou seu filho numa manjedoura...

Na segunda parte de nosso texto (Lucas 2,3-7), outra novidade nos é apresentada. Diferentemente dos poderosos, cujo poder está calcado nas armas do exército e nas riquezas acumuladas no centro do império, Jesus vem da periferia. Ele não só não vem de Roma, capital do império, ou de Jerusalém, capital dos judeus, mas vem de Belém, uma aldeia periférica na Judeia. 

De um lado, seu nascimento é situado em Belém, especialmente para colocar Jesus na tradição e na esperança profética de seu povo (Miqueias 5,1-3). De outro, é para dizer que, desde o começo de sua vida, Jesus tem a mesa da partilha como centralidade de seu projeto. Como assim? É que Belém quer dizer casa do pão. Daí ser teologicamente fundamental situar o nascimento de Jesus em meio ao pão, indicando, assim, o foco de sua missão. Já dizia Noemi, a sogra de Rute, que “o Senhor se lembrará do seu povo, dando-lhe pão” (cf. Rute 1,1.6). E, mais uma vez, em Jesus de Nazaré, Deus visita seu povo em Belém, a casa do pão. 

E mais. Não é por acaso, que Jesus assumiu como eixo de sua missão a partilha dos pães de acordo com a necessidade de todas as pessoas. Temos, inclusive, dois relatos exemplares dentre as muitas partilhas que sua presença promovia em meio ao povo (cf. Marcos 6,30-44; 8,1-10). Além disso, não pode escapar ao nosso olhar que Jesus colocou o pedido pelo pão no centro do Pai-nosso, no coração de sua oração, de sua conversa com o Pai, síntese do seu projeto (cf. Lucas 11,2-4; Mateus 6,9-13). Por fim, não é mera coincidência que também a partilha do pão foi o sinal maior da Boa Nova do Pai, celebrada ao redor da mesa na santa ceia (Lucas 22,14-20).

Como vimos, Jesus não só não vem de Roma, capital do império, nem de Jerusalém, capital dos judeus, mas vem de Belém, uma aldeia periférica na Judeia. Se Belém já é uma aldeia marginal, Jesus nasce ainda mais na exclusão, nasce numa estrebaria, num estábulo nos arredores de Belém, “porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lucas 2,7). Ali, seu primeiro berço foi uma manjedoura, um cocho onde os animais fazem a sua refeição. Também não é por acaso que o primeiro berço de Jesus é uma vasilha em que se coloca a comida, o pão cotidiano dos animais. Segundo o relato, os pais de Jesus eram forasteiros no lugar e não tinham onde pernoitar. É a partir dessa realidade extrema de marginalidade e de fragilidade, de abandono e de solidão de uma mãe dando à luz a sua primeira criança, que vem a força do Deus libertador que quer incluir todas as pessoas de boa vontade em seu reinado de justiça e de paz. Deus se revela na fragilidade e na ternura de uma criança. Jesus criança é o rosto humano da ternura de Deus e, ao mesmo tempo, o rosto divino do ser humano.

Hoje, podemos até concordar que o ambiente natalino respira um ar de harmonia e de confraternização universal. No entanto, o que se vê, de fato, é que a celebração do nascimento de Jesus foi manipulada e mascarada pelo mercado em função do consumismo que legitima relações desiguais, portanto, injustas. Quantas crianças ficam de fora desse natal do consumismo? Neste sentido, não é o natal de Jesus um sinal subversivo, ao revelar que Deus está justamente nos lugares dos quais muitas pessoas fazem questão de passar longe? Não é revolucionária a estrela da criança de Belém por revelar a solidariedade de Deus para quem se encontra bem longe, na periferia? Não será que a sociedade capitalista justamente domesticou o natal de Jesus para manipular a sua força transformadora de todas as formas de violência e de exclusão?

Que a luz da estrela do menino de Belém ilumine nossos corações, nossos lares e nossos caminhos...

Fonte: CEBI Nacional