Marcos 13.(24)33-37: Vigiai e orai - Elaine Neuenfeldt

Esta é uma fórmula que fica guardada na memoria ao ler este texto bíblico. Estar atentos combinado com a oração. É esta a principal mensagem do que se guardou na memória em relação a este texto. E muitas vezes já se afirmou que oração sem ação ou igualmente ação sem oração se torna vazio de sentido na prática cristã.

O texto do evangelho de Marcos a ser refletido no primeiro domingo de Advento reflete uma linguagem apocalíptica, ou um jeito de dizer profecia em tempos de perseguição e perigo. O contexto do texto na época reflete o período conturbado da destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos e a subsequente perseguição, morte e violência sofrida neste período. Vigiar constantemente, em todos os momentos - à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo, pela manhã engloba todas as horas do dia. Não há tempo de deixar cair a guarda, de cochilar. Estas são recomendações que se encaixam no período litúrgico celebrado: o Advento. Advento é tempo de espera, de esperança; mas não uma espera passiva, de cruzar os braços. Esperança ativa que se desenvolve em ações que concretizam os anseios da oração feita é o que envolve o período do ad-vento - do tempo que já vem.

Este primeiro domingo de advento foi celebrado em 2011 num momento que se outorgaria no dia 10 de dezembro, em Oslo, Noruega, o premio Nobel da Paz a três mulheres: a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, a militante Leymah Gbowee, também liberiana, e a jornalista e ativista iemenita Tawakkul Karman. É de destacar que em 111 anos, apenas 12 mulheres haviam recebido o Nobel da Paz. Considerando todas as categorias do prêmio, até aquele momento apenas 44 mulheres haviam sido agraciadas.[1]

É a história de vida de uma delas que se faz presente neste contexto de reflexão sobre a espera ativa de oração e ação em tempo de advento. Leymah Gbowee teve um papel importante como ativista durante a segunda guerra civil liberiana, em 2003. Ela mobilizou as mulheres no país pelo fim da guerra, organizando inclusive uma "greve de sexo" em 2002. Também organizou as mulheres acima de suas divisões étnicas e tribais no país, ajudando a garantir direitos políticos para elas. Estas são as informações que são destacadas na imprensa em geral, de Leymah Gbowee. O que quero trazer aqui são detalhes um pouco mais amplos que ajudam a entender de onde vem a motivação desta mulher.

Leymah é cristã, e sua prática de fé se insere na Igreja Luterana da Libéria, que é membro da Federação Luterana Mundial. No início de sua militância ela foi presidente da organização de mulheres da Igreja Luterana St. Peter, na capital Monrovia. Junto com outra mulher, Comfort Freeman, organizaram o "Programa Mulheres Construindo a Paz". Esta organização foi plataforma ativa de mulheres engajadas na superação da violência, pelo fim da guerra na Libéria.

"O povo da Libéria tem esperança", dizia Gbowee naquela época, se referindo às mulheres que iniciaram os seus dias sentando por paz em meados de abril, na capital Monrovia. Sob sol ou chuva as mulheres da Libéria se reuniam para afirmar seu compromisso pela paz. Elas se reuniam para protestar contra as ações de todos que perpetuavam a violenta guerra civil.

"Nossa visão é pela unidade de nossas famílias e a eliminação da fome e das doenças. Nós cremos que as mãos poderosas de Deus nos acolhem neste esforço. Deus voltou seus ouvidos para nós."[2]

O que elas faziam? Elas se reuniam pra sentar e orar juntas! Mas, sua oração era uma oração que juntava em si o que o texto de Marcos recomenda - vigiai e orai. A oração ativa e engajada destas mulheres lideradas por Laymah se dava nos mais diferentes lugares na igreja, nas casas, nas ruas, ou em pontos estratégicos, como na frente dos portões do exército onde os caminhões de guerra saíam com os soldados prontos para as batalhas na guerra sangrenta que assolou o país.

As mulheres superaram barreiras culturais que as prendiam a serem donas de casas expectadoras da violência, ou limites religiosos - elas reuniram cristãs e muçulmanas em suas ações de paz. Elas firmemente pronunciaram com suas palavras que basta! Chega de violência e guerra! Queremos paz! E tomando o rumo de suas vidas e de suas famílias em suas mãos, juntaram as mãos em oração por paz. Seu movimento foi juntando mais adeptas e com a pressão de serem muitas, em redes, em grupos, foram forjando os rumos do fim da guerra no país. De 1989 a 2003, a Libéria enfrentou uma das piores e mais violenta guerra civil na África; grupos rebeldes e forças governamentais se enfrentaram em batalhas pelo poder, em conflitos étnicos e políticos.[3]

Em 2008, eu tive a oportunidade de visitar a igreja Luterana da Libéria e conhecer o trabalho das comunidades e dos grupos de mulheres que seguem firmes no testemunho de ser igreja inserida no contexto de pobreza, testemunhando com ações diaconais a presença do Evangelho libertador neste mundo. As mulheres seguem reunindo-se em oração, que são momentos de memória que está vigilante para que a guerra não volte, para que a paz, mesmo que frágil, siga regendo a vida desta sociedade tão sofrida. As mulheres guardam na memória que a oração é capaz de parar os tanques de guerra.

A história de vida e testemunho de fé desta mulher que foi reconhecida internacionalmente laureada pelo premio Nobel da Paz ajuda na reflexão neste tempo de advento, inspirada pelo evangelho de Marcos, que exorta a vigiar e orar. A oração militante destas mulheres da Libéria é um exemplo concreto de como esta exortação se transforma em prática.

Fonte: CEBI Nacional