Saudação a nossos profetas e mártires

Queridas Irmãs e Irmãos Romeiras e Romeiros do Reino no campo e cidade!

Nesta terra santa do Juazeiro do Pe Cícero e do Beato José Lourenço do Caldeirão, ao cair da tarde do 3º dia do 13º Encontro Intereclesial de CEBs, estamos fazendo a memória merecida e agradecida de nossos profetas e mártires, mulheres e homens, que deram a vida pela Vida nas ruas e nas montanhas, nas fábricas e nos campos, nas escolas e nas igrejas, nas torturas das prisões na calada da noite ou plena luz do dia. Por causa de vocês, sobretudo, Nosso Brasil e nossa América constituem o Continente da morte com esperança.

Dirijomo-nos a vocês em nome de todos os nossos Povos e nossas Igrejas, pois a vocês devemos a coragem de viver, defendendo nossa identidade e a vontade teimosa de seguir anunciando o Reino, contra o vento e a maré do antirreino neoliberal e apesar das corrupções de nossos governos ou de todos os nossos temores, recuos e covardias. 

Cremos que enquanto houver profecia haverá credibilidade, enquanto houver martírio, haverá esperança.
Enquanto houver Profetas e Mártires, haverá CEBs lutando por “Justiça e profecia a serviço de vida”. 
A história das CEBs se mistura com a luta dos pobres 
por sua dignidade, por seus direitos. 
Do chão das CEBs é que surgiram os Profetas e os Mártires.
O Documento de Aparecida reconhece que as “CEBs são com frequência verdadeiras escolas que ajudam a formar discípulos missionários como confirma a entrega generosa ao martírio 
de muitos dos seus membros” (DAp 178).

Queridos Profetas e Mártires, vocês lavaram as vestes de seus compromissos no sangue do Cordeiro. E o sangue de vocês no sangue d’Ele continua a lavar nossas fragilidades, nossos fracassos e também nossos sonhos. Enquanto houver profecia haverá conversão, 
enquanto houver martírio haverá eficácia. O grão caído na terra morrendo se multiplica. Não permitiremos que se apague o grito supremo de seu amor. Não deixaremos que seu sangue seja infecundo.

Também não nos satisfaremos, superficiais ou irresponsáveis, exibindo seus pósters, chorando sua memória numa dramatização ou gritando seus nomes como fizemos há pouco. 
Assumiremos suas vidas e suas mortes abraçando suas Causas. Essas Causas concretas pelas quais vocês deram a vida e a morte. Essas Causas, tão divinas e tão humanas, que desdobram em conjuntura histórica e em caridade eficaz a causa maior do Reino, pela qual deu a vida e a morte e pela qual ressuscitou o Primogênito dentre os mortos, Jesus de Nazaré, o Crucificado-Ressuscitado para sempre.

Recordaremos vocês, um por um, uma por uma, e se não repetirmos novamente seus claros nomes, é para dizermos vocês, todos e todas, num só golpe de voz, de amor e de compromisso: Nossos Amados Profetas e Mártires! 
Mulheres e homens, jovens e idosos, indígenas e lavradores, operários e estudantes, pais e mães de família, advogados e professores, militantes e agentes de pastoral, artistas e comunicadores, pastores e sacerdotes, catequistas e bispos...
Nomes conhecidos e já incorporados a nosso martirológio ou nomes anônimos, gravados, porém no santoral de Deus. Sentimo-nos herança de vocês, Povo testemunha, Igreja profética e martirial, diáconos em caminhada por essa longa noite pascal do Brasil e da América, tão tenebrosa ainda, porém tão invencivelmente vitoriosa. 
Não cederemos, não nos venderemos, não renunciaremos a esse paradigma maior de suas vidas, que foi o paradigma do próprio Irmão e Senhor Jesus e que é o sonho do Deus vivo para todos os seus filhos e filhas de todos os tempos e de todos os povos, em todos os mundos, para o mundo único e pluralmente fraterno: o Reino, o seu Reino, o Reino de Deus!

Com São Romero da América e com todos vocês e unidos à sua voz e ao compromisso comum de todos os irmãos e irmãs de solidariedade que nos acompanham, declaramo-nos “felizes por correr, como Jesus e como vocês, os mesmos riscos, por nos identificarmos com as Causas dos pobres e excluídos”.
Neste chão nordestino queremos gravar para sempre em nosso coração as últimas palavras de nosso pastor profeta D. Hélder Câmara: “Não deixem morrer a profecia!”

Ainda comovidos e agradecidos pela incentivadora carta que o querido Papa Francisco enviou ao nosso Encontro, queremos nos comprometer com a renovação profunda da Igreja que nos mostra e conclama com seu testemunho corajoso e suas palavras proféticas. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que encontram Jesus e entregam a vida para amar e servir os irmãos”.
Neste mundo prostituído pelo mercado total e pelo bem-estar egoísta, com humildade e decisão juramos para vocês 
nossos Profetas e Mártires de ontem e de hoje:
“Longe de nós nos gloriarmos não sendo na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” e em suas cruzes irmãs de Sua cruz! 
Com Ele e com vocês seguiremos cantando a Libertação. 
Por Ele e por vocês sabemos jubilosamente que ressuscitaremos “mesmo nos custando a vida”. Amém!

“Venham todos, cantemos um canto que nasce da terra
Canto novo de paz e esperança em tempos de guerra.
Neste instante há inocentes tombando nas mãos de tiranos
Tomar terra, ter lucro matando são estes seus planos. 
Eis o tempo de graça! Eis o dia da libertação!
De cabeças erguidas, de braços reunidos, irmãos!
Haveremos de ver, qualquer dia chegando a vitória:
O povo nas ruas fazendo a história,
Crianças sorrindo em toda a nação!

+ Edson Damian
Bispo de São Gabriel da Cachoeira
Homilia na Celebração dos Profetas e Mártires
No 13º Encontro Intereclesial de CEBs
Juazeiro do Norte, CE, 10 de janeiro de 2014

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