Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus (Mt 4,12-17) – Edmilson Schinelo

O evangelho proposto para este domingo pelo lecionário ecumênico* é o texto de Mt 4,12-17. Esse bloco de versículos é precedido pela narrativa das tentações (Mt 4,1-11) e tem como sequência o chamado dos primeiros discípulos (Mt 4,18-22). Trata-se do início da pregação de Jesus na Galileia, cuja frase central é o chamado à mudança de vida: “Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 4,17).

O trecho possui uma estrutura bastante simples: no início, a informação de que Jesus, ao saber da prisão de João Batista, foi morar em Cafarnaum; em seguida, uma citação do livro do profeta Isaías; e, por último, o convite de Jesus à conversão.

Voltou para a Galileia e, deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum

Jesus já foi confirmado no batismo, junto às águas do rio Jordão (Mt 4,17); venceu a crise das tentações, no deserto da Judeia (Mt 4,1-11). De acordo com a narrativa de Mateus, está pronto para iniciar sua missão. Entretanto, ao saber da prisão de seu precursor, retorna para a Galileia. É lá que vai reunir o grupo inicial e lançar seu “programa de governo” no Reino dos Céus, resumido nas Bem-aventuranças (Mt 5,1-12).

Do ponto de vista teológico, isso é significativo. Mais do que um nome próprio, “galileia” em hebraico significa “distrito”, “província”. Por isso, em muitos textos, vem acompanhada de um adjetivo: Galileia das Nações, Galileia dos Gentios. Trata-se de uma região pejorativamente chamada pelos judeus do Sul de “distrito dos pagãos”, em hebraico, galil há-goym, território de gente estrangeira e pagã.

Estando na Galileia, Jesus deixa o povoado de Nazaré (em alguns manuscritos chamada de Nazara) e vai morar na cidade de Cafarnaum, situada às margens do lago de Genezaré, também chamado de Mar de Tiberíades. O evangelho de Marcos confirma a informação (Mc 2,1). Possivelmente, Jesus passou a morar na casa da família de Pedro (Mc 1,29-31; Mt 8,14-15).

Em Cafarnaum, havia uma alfândega, local de cobrança de impostos (cf. Mt 9,9). Possivelmente, era também local de resistência de muita gente “fora da lei” que se rebelava contra os abusos do império romano. Aliás, resistência e rebeliões eram marca presente em quase toda a Galileia.

O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz

Com certa liberdade, na hora de copiar o texto, Mateus faz uso das palavras de Isaías (Is 8,23-9,1) para legitimar o início da missão de Jesus na Galileia: “... para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: Terra de Zabulon, Terra de Neftali, caminho do Mar, região além do Jordão, Galileia das nações...”.

Clique no mapa para ampliar
Ao dominar a Palestina, o império assírio fez conquistas gradativas. Antes de destruir a Samaria (721 a.C.), conquistou e oprimiu os territórios citados por Isaías. Controlando a Estrada do Mar, o reiTiglath-Pileser (Teglat-Falasar III) anexou as regiões de Zabulon, Neftali e a Transjordânia (Guilead). A Galileia foi anexada também, como podemos ler em 2Rs 15,29. Isso se deu em 732 a.C. Como aconteceu com a Samaria (2Rs 17), o povo foi deportado e gente de outras províncias foi instalada no local. A região passa a ser vista como “galileia de pagãos”, distrito de outras nações. Para o povo pobre e sofrido, parecia restar somente “jazer nas trevas”.

Algumas Bíblias preferem traduzir “andar nas trevas” ou “viver nas trevas”. A expressão, entretanto, é mais forte: o jazido é o túmulo, nele não se vive, a condição é de morte. Isaías quer reforçar o contraste: quem está morto nas trevas vê uma grande luz! O sol raiou para quem jazia na região sombria da morte (Is 9,1; Mt 4,16).

Para a mentalidade da época de Isaias, o contraste da escuridão com o nascer do sol era muitas vezes usado para falar da chegada do rei (cf. 2Sm 23,3-4). Nos rituais da dinastia egípcia, por exemplo, a aparição do faraó no trono, mostrando-se magnífico para o povo, era celebrada como o nascer do sol. Ao escolher esse texto, o evangelho de Mateus quer proclamar: o Reino de Deus chegou! A instalação desse reinado começa pelo território de gente desprezada, a Galileia dos pagãos. E é o próprio Jesus que anuncia a sua chegada (Mt 4,17).

Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus!

Como já foi dito, o versículo 17 contém a frase principal do texto. A maioria das traduções faz uso do termo “arrependei-vos”, o que é correto. Entretanto, a palavra “arrependimento” nem sempre expressa o profundo sentido do verbo utilizado pelo texto original. O verbo grego é metanoien. É mais do que um arrependimento, é uma mudança no jeito de viver, de pensar e de sentir. É mudança de rumo, conversão. Metanoia é a experiência da borboleta: saída do casulo, rompimento com todas as cascas, metamorfose! Só assim é possível experimentar o Reino.

Como Mateus escreve para grupos mais ligados ao judaísmo, evita pronunciar o nome de Deus. Por isso não fala de Reino de YWHW, Reino de Deus. Substitui pela expressão “Reino dos Céus”. O evangelho de Marcos, que possivelmente serviu de base para o texto de Mateus, assim manteve a frase de Jesus: “Cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo, convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). O conteúdo da mensagem é o mesmo! Portanto, deve-se evitar a transferência do projeto do Reino somente para o além, mas contribuir com ele de modo que se torne realidade em nosso meio.

A nós permanece o desafio de percebermos a proximidade do Reino e aderirmos a ele. Que sejamos capazes de, cotidianamente, realizarmos nossa conversão. 

* O Lecionário Ecumênico (ou Lecionário Comum) é um conjunto de leituras dominicais comuns adotado pelas igrejas Luteras (IECLB e IELB), Anglicana (IEAB), Católica Romana (ICAR) e algumas Batistas. Mais informações: http://www.luteranos.com.br/conteudo/o-lecionario-ecumenico

Fonte: CEBI Nacional