Marcos 9,38-43.45.47-48: Sinais do Reino - Acolher os pequenos e os excluídos - Mesters e Lopes

Abrir os olhos para ver

No texto de hoje, Jesus dá conselhos sobre o relacionamento dos adultos com os pequenos e excluídos, sobre o relacionamento entre homem e mulher, e sobre o relacionamento com as mãos e as crianças. Naquele tempo, muita gente pequena era excluída e marginalizada. Não podia participar. Muitos deles perdiam a fé. No relacionamento entre homem e mulher, havia muito machismo. Com os pequenos e excluídos Jesus pede o máximo de acolhimento. No relacionamento homem-mulher ele pede o máximo de igualdade. Com as crianças e suas mães, o máximo de ternura. Vamos conversar sobre isso.

Situando

Como já vimos no texto da semana passada, Marcos coloca seis recomendações sobre a conversão que deve ocorrer na vida de quem aceita caminhar com Jesus até o Calvário (Mc 9,38 a 10,31). Este texto, traz três destas recomendações: uma sobre o novo relacionamento com os pequenos (Mc 9,42-50), outra sobre o novo relacionamento entre homem e mulher (Mc 10,1-12), e outra ainda sobre o relacionamento com as mães e suas crianças (Mc 10,13-16). Nos anos 70, diante das muitas dificuldades que as comunidades enfrentavam, Marcos procura ajudá-las a não desanimar e a levar a sério a opção pelo seguimento de Jesus.

Comentando

Marcos 9,38-40: A mentalidade do fechamento

Alguém que não era da comunidade usava o nome de Jesus para expulsar os demônios. João, o discípulo, vê e proíbe: Impedimos, porque ele não anda conosco. Em nome da comunidade João impede que o outro possa fazer uma ação boa! Por se discípulo, ele pensava ter o monopólio sobre Jesus e, por isso, queria proibir que outros usassem o nome de Jesus para realizar o bem. Era a mentalidade fechada e antiga do "Povo eleito, Povo separado". Jesus responde: Não impeçam! Quem não é contra é a favor! (Mc 9,40). Para Jesus, o que importa não é se a pessoa faz ou não faz parte da comunidade, mas sim se ela faz ou não o bem que a comunidade deve realizar.

Marcos 9,41: Um copo de água tem recompensa

Uma frase solta de Jesus foi inserida aqui: Eu garanto a vocês: quem der para vocês um copo de água porque vocês são de Cristo não ficará sem receber sua recompensa. Dois pensamentos: 1) "Quem der para vocês um copo de água": Jesus está indo para Jerusalém para entregar sua vida. Gesto de grande doação! Mas ele não esquece os gestos pequenos de doação no dia-a-dia da vida: um copo de água, um acolhimento, uma esmola, tantos gestos. Quem despreza o tijolo nunca faz casa! 2) "Porque vocês são de Cristo": Jesus se identifica conosco que queremos pertencer a Ele. Isto significa que, para Ele, temos muito valor.

Marcos 9,42: Escândalo para os pequenos

Escândalo é aquilo que desvia a pessoa do bom caminho. Escandalizar os pequenos é ser motivo pelo qual os pequenos se desviam e perdem a fé em Deus. Quem faz isto recebe a seguinte sentença: "Corda no pescoço com pedra de moinho para ser jogado no fundo do mar!" Por que tanta severidade? É porque Jesus se identifica com os pequenos (Mt 25,40-45). Quem toca neles toca em Jesus! Hoje, no Brasil, os pequenos, os pobres, muitos deles estão saindo das igrejas tradicionais. Já não conseguem crer! Por que será? Até onde nós temos culpa? Merecemos a corda no pescoço?

Marcos 9,43-48: Cortar mão e pé

Jesus manda a pessoa arrancar mão, pé e olho, caso estes forem motivo de escândalo. Ele diz: "É melhor entrar na vida ou no Reino com um pé (mão, olho) do que entrar no inferno ou na geena com dois pés (mãos, olhos)". Estas frases não podem ser tomadas ao pé da letra. Elas significam que a pessoa deve ser radical na opção por Deus e pelo Evangelho.

A expressão "Geena (inferno), onde tem verme que não morre e o fogo que não se apaga", é uma imagem para indicar a situação da pessoa que fica sem Deus. A geena era o nome de um vale perto de Jerusalém, onde se jogava o lixo da cidade e onde sempre havia um fogo de monturo queimando o lixo. Este lugar fedorento era usado pelo povo para simbolizar a situação da pessoa que ficava sem participar do Reino de Deus.

Alargando

Jesus acolhe e defende a vida dos pequenos

Várias vezes, Jesus insiste no acolhimento a ser dado aos pequenos. "Quem acolhe a um destes pequenos em meu nome é a mim que acolhe" (Mc 9,37). Quem dá um copo de água a um destes pequenos não perderá a sua recompensa (Mt 10,42). Ele pede para não desprezar os pequenos (Mt 18,10). E no julgamento final os justos vão ser recebidos porque deram de comer a "um destes mais pequeninos" (Mt 25,40).

Se Jesus insiste tanto no acolhimento a ser dado aos pequenos, é porque devia haver muita gente pequena sem acolhimento! De fato, mulheres e crianças não contavam (Mt 14,21; 15,38), eram desprezadas (Mt 18,10) e silenciadas (Mt 21,15-16). Até os apóstolos impediam que elas chegassem perto de Jesus (Mt 19,13; Mc 10,13-14). Em nome da lei de Deus, mal interpretada pelas autoridades religiosas, muita gente boa era excluída. Em vez de acolher os excluídos, a lei era usada para legitimar a exclusão.

Nos evangelhos, a expressão "pequenos" (em grego se diz elachistoi, mikroi ou nipioi), às vezes, indica "criança", outras vezes, indica os setores excluídos da sociedade. Não é fácil discernir. Às vezes, o que é "pequeno" num evangelho, é "criança" no outro. É porque criança pertencia a categoria dos "pequenos", dos excluídos. Além disso, nem sempre é fácil discernir entre o que vem do tempo de Jesus e o que é do tempo das comunidades para as quais foram escritos os evangelhos. Mesmo assim, o que fica claro é o contexto de exclusão que vigorava na época e a imagem que as primeiras comunidades se faziam de Jesus: Jesus se coloca do lado dos pequenos, dos excluídos e assume a sua defesa. Fica-se impressionado quando se junta tudo aquilo que Jesus fez em defesa da vida das crianças, dos pequenos: 

1. Acolher e não escandalizar: Uma das palavras mais duras de Jesus é contra aqueles que causam escândalo nos pequenos, isto é, que são o motivo pelo qual os pequenos deixam de acreditar em Deus. Para estes, melhor seria ter uma pedra de moinho amarrada no pescoço e ser jogado nas profundezas do mar (Mc 9,42; Lc 17,2; Mt 18,6). 

2. Acolher e tocar: Mães com crianças chegam perto de Jesus para pedir a bênção. Os apóstolos reagem e as afastam. Dentro das normas da época, tanto as mães como as crianças pequenas, todas elas viviam, praticamente, num estado permanente de impura legal. Tocar nelas significava contrair impureza! Jesus não se incomoda. Ele corrige os discípulos e acolhe as mães com as crianças. Toca nelas e lhes dá um abraço. "Deixem vir as crianças, não as impeçam!" (Mc 10,13-16; Mt 19,13-15).

3. Identificar-se com os pequenos: Jesus abraça as crianças e identifica-se com elas. Quem recebe uma criança é a "mim que recebe" (Mc 9,37). "E tudo que vocês fizerem a um destes mais pequenos foi a mim que o fizeste" (Mt 25,40).

4. Tornar-se como criança: Jesus pede que os discípulos se tornem como crianças e aceitem o Reino como criança. Sem isso não é possível entrar no Reino (Mc 10,15; Mt 18,3; Lc 9,46-48). Ele coloca a criança como professor de adulto! O que não era normal. Costumamos fazer o contrário.

5. Defender o direito de gritar: Quando Jesus, entrando no Templo, derruba as mesas dos cambistas, são as crianças as que mais gritam. "Hosana ao filho de Davi!" (Mt 21,15). Criticadas pelos chefes dos sacerdotes e escribas, Jesus as defende e em sua defesa invoca até as escrituras (Mt 21,16).

6. Agradecer pelo Reino presente nos pequenos: A alegria de Jesus é grande, quando percebe que as crianças, os pequenos entendem as coisas do Reino que ele anuncia ao povo. "Pai, eu te agradeço!" (Mt 11,25-26) Jesus reconhece que os pequenos entendem melhor as coisas do Reino do que os doutores!

7. Acolher e curar: São muitas as crianças e jovens que Ele acolhe, cura ou ressuscita: a filha de Jairo de 12 anos (Mc 5,41-42), a filha da mulher cananéia (Mc 7,29-30), o filho da viúva de Naim (Lc 7,14-15), o menino epilético (Mc 9,25-26), o filho do centurião (Lc 7,9-10), o filho do funcionário público (Jo 4,50), o menino dos cinco pães e dois peixes (Jo 6,9).

Texto extraído do livro ''CAMINHANDO COM JESUS'' - Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos - Coleção A Palavra na Vida 184/185 - CEBI Publicações. Mais informações em cebies@yahoo.com.br

CEBI-ES PRESENTE


ESTUDO DE BÍBLIA NA PARÓQUIA “SÃO PAULO APÓSTOLO”
EM BEBEDOURO, LINHARES – ES.  



Nos dias 15 e 16 de setembro de 2012 aconteceu o Estudo Bíblico na Paróquia São Paulo Apóstolo – Bebedouro/ ES. O tema do estudo foi: Evangelho de Jesus Cristo segundo a Comunidade de Marcos.
Grupos presentes: crismandos, catequistas, liturgistas e Assentamento Rural.
 O Estudo na Paróquia São Paulo Apóstolo contou com a constante presença do Padre Deoclécio e a participação de cerca de 100 pessoas: jovens e adultos/as. Participação de todos/as e alegria nos momentos de refeição foram uma constante! Grande abraço da Equipe do CEBI-ES a todos/as! Parabéns pela iniciativa em estudar a Palavra de Deus que ilumina a caminhada social e religiosa.
Equipe de contribuição na assessoria: Joana Penha, Márcio Mariani, Penha Dalva e Raquel Passos. 



CEBI-ES PRESENTE

Formação com crianças e adolescentes da Infância Missionária (IAM) 
– Castelo/ ES (Setembro/ 2012).

Nesse ano de 2012 o CEBI-ES (Centro de Estudos Bíblicos-ES) realizou estudo bíblico popular junto às crianças e adolescentes da Infância Missionária (IAM) da cidade de Castelo. No primeiro Semestre de 2012 o tema do estudo foi a “Profecia” e no segundo semestre o tema do estudo foi “Os Evangelhos”. A Infância e Adolescência Missionária é animada pelo Orly Coco, que orienta e conduz a moçada com compromisso e alegria!  Nos dois encontros de estudo bíblico a participação das crianças e adolescentes foi intensa!


Os dois encontros de estudos realizados em Castelo muito positivos; as crianças e adolescentes presentes foram ousadas, criativas, empenhadas na intenção de conhecer mais a respeito da Bíblia e tendo consciência de sua sintonia com a realidade social vivida.

Equipe de colaboração na assessoria: Joana Penha, Márcio Mariani, Penha Dalva e Raquel Passos.

Dia Mundial da Paz


21 de setembro, Dia Mundial da Paz.

"O problema com o mundo é que fazemos o círculo de nossa família muito pequeno." - Madre Teresa

21 de Setembro  proclamado pela ONU em 30/11/1981como sendo um dia de cessar-fogo e de não violência em todo o mundo. A finalidade não é apenas que as pessoas pensem na paz, mas sim que façam também algo a favor da paz.
Os povos de todo o mundo são chamados para refletir e agir no Dia Internacional da Paz, num mundo cada vez mais caótico e instável, marcado por profundas injustiças sociais e sob o signo da guerra. Nações, povos de diferentes origens e culturas, religiões e filosofias de vida diversas se irmanam na busca pela paz, quando se entende que nenhum caminho é superior a outro.
 Neste dia, comemora-se também, no Brasil, o Dia da Árvore. Paz e árvore são duas palavras que remetem a muita reflexão, e que combinam perfeitamente juntas. -  http://www.brasilwiki.com.br

21 de setembro  Dia Internacional de Luta contra os Monocultivos.


“QUANDO ENTRAR SETEMBRO!”


Membros do CEBI-ES - Centro de Estudos Bíblicos do Espírito Santo, estiveram presentes na apresentação de Raquel Passos, que faz parte deste Centro, no início do ano, agora convidamo você a participar de mais um momento de confraternização e alegria.











Apresentação Musical “Raquel Passos e José Elias” (MPB)

Data: 21 de setembro de 2012 (sexta-feira), às 20h.
Local: Restaurante Filleto
(Avenida Espírito Santo, 07 - Jardim América Cariacica/ ES)
Telefone: (27) 3091-5555.
 
Sua presença será de grande alegria!
Carinhosamente,
Raquel Passos.

Marcos 9, 30-37: Ecumenismo: ninguém é dono de Jesus - Carlos Mesters e Mercedes Lopes

Abrir os olhos para ver

O texto de Evangelho que vamos meditar hoje traz uma grande incoerência da parte dos discípulos de Jesus. Enquanto Jesus anunciava a sua paixão e morte, os discípulos discutiam entre si quem deles era o maior. Jesus queria servir, eles só pensavam em mandar! A ambição os levava a querer subir às custas de Jesus. Vamos conversar sobre isto.

Situando

Esta reflexão traz o segundo anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Como no primeiro anúncio - Mc 8, 27-38 -, os discípulos ficam espantados e com medo. Não entendem a palavra sobre a cruz, porque não são capazes de entender nem de aceitar um Messias que se faz empregado e servidor dos irmãos. Eles continuam sonhando com um messias glorioso. O texto ajuda a perceber algo da pedagogia de Jesus. Mostra como ele formava os discípulos, como os ajudava a perceber e a superar o "fermento dos fariseus e de Herodes".

Tanto na época de Jesus como na época de Marcos, havia o fermento da ideologia dominante. Também hoje, a ideologia da propaganda do comércio, do consumismo, das novelas influi profundamente no modo de pensar e de agir do povo. Na época de Marcos, nem sempre as comunidades eram capazes de manter uma atitude crítica frente à invasão da ideologia do império. A atitude de Jesus com relação aos apóstolos, descrita no evangelho, as ajudava e continua ajudando a nós hoje. 

Comentando

Marcos 9,30-32: O anúncio da cruz

Jesus caminha através da Galiléia, mas não quer que o povo o saiba, pois está ocupado com a formação dos discípulos e discípulas e conversa com eles sobre a cruz. Ele diz que, conforme a profecia de Isaías - Is 53,1-10 -, o Filho do Homem deve ser entregue e morto. Isto mostra como Jesus se orientava pela Bíblia, na formação aos discípulos. Ele tirava o seu ensinamento das profecias. Os discípulos o escutam, mas não entendem a palavra sobre a cruz. Mesmo assim, não pedem esclarecimento. Eles têm medo de deixar transparecer sua ignorância. 

Marcos 9,33-34: A mentalidade de competição

Chegando em casa, Jesus pergunta: Sobre que vocês estavam discutindo no caminho? Eles não respondem. É o silêncio de quem se sente culpado, pois pelo caminho discutiam sobre quem deles era o maior. Jesus é bom formador. Não intervém logo, mas sabe aguardar o momento oportuno para combater a influência da ideologia dos seus formandos. A mentalidade de competição e de prestígio que caracteriza a sociedade do Império Romano já se infiltrava na pequena comunidade que estava apenas começando! Aqui aparece o contraste! Enquanto Jesus se preocupa em ser o Messias Servidor, eles só pensam em ser o maior. Jesus procura descer. Eles querem subir!

Marcos 9, 35-37: Servir, em vez de mandar

A resposta de Jesus é um resumo do testemunho de vida que ele mesmo vinha dando desde o começo: Quem quer ser o primeiro seja o último de todos, o servidor de todos! Pois o último não ganha nada. É um servo inútil (cf. Lc 17,10). O poder deve ser usado não para subir e dominar, mas para descer e servir. Este é o ponto em que Jesus mais insistiu e em que mais deu o seu próprio testemunho (cf. Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16).

Em seguida, Jesus coloca uma criança no meio deles. Uma pessoa que só pensa em subir e dominar não daria tão grande atenção aos pequenos e às crianças. Mas Jesus inverte tudo! Ele diz: “Quem receber uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe”. Quem receber a mim recebe aquele que me enviou! Ele se identifica com as crianças. Quem acolhe os pequenos em nome de Jesus acolhe o próprio Deus!

Alargando

Um retrato de Jesus como formador

"Seguir" era um termo que fazia parte dos sistemas da época. Era usado para indicar o relacionamento entre o discípulo e o mestre. O relacionamento mestre-discípulo é diferente do relacionamento professor-aluno. Os alunos assistem às aulas do professor sobre uma determinada matéria. Os discípulos "seguem" o mestre e convivem com ele. Foi nesta "convivência" de três anos com Jesus que os discípulos e as discípulas receberam a sua formação.

Não é pelo fato de uma pessoa andar com Jesus que ela já é santa e renovada. No meio dos discípulos, cada vez de novo, a mentalidade antiga levantava a cabeça, pois o "fermento de Herodes e dos fariseus" - Mc 8,15-, isto é, a ideologia dominante, tinha raízes profundas na vida daquele povo. A conversão que Jesus pede quer atingir a raiz e erradicar o "fermento''. Já vimos como Jesus combatia a mentalidade antigo de competição e de prestígio - Mc 9,33-37 e a mentalidade fechada de quem se considera dono de tudo - Mc 9,38-40. Eis alguns outros casos desta ajuda fraterna de Jesus aos discípulos. 

Mentalidade de grupo que se considera superior aos outros

Certa vez, os samaritanos não queriam dar hospedagem a Jesus. Reação dos discípulos: "Que um fogo do céu acabe com esse povo" (Lc 9,54). Achavam que, pelo fato de estarem com Jesus, todos deviam acolhê-los. Pensavam ter Deus do seu lado para defendê-los. Era a mentalidade antiga de "Povo eleito, Povo privilegiado!" Jesus os repreende: ''Vocês não sabem de que espírito estão sendo animados" (Lc 9,55).

Mentalidade de quem marginaliza o pequeno

Os discípulos afastavam as crianças. Era a mentalidade da cultura da época em que criança não contava e devia ser disciplinada pelos adultos. Jesus os repreende: ''Deixem vir a mim as crianças!" (Mc 10,14). Ele coloca a criança com professora de adulto: "Quem não receber o Reino como uma criança não pode entrar nele" (Lc 18,17).

Mentalidade de quem pensa conforme a opinião de todo mundo

Certo dia, vendo um cego, os discípulos perguntaram: ''Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?" (Jo 9,2). Como hoje, o poder da opinião pública era muito forte. Fazia todo o mundo pensar de acordo com a cultura dominante. Enquanto se pensa assim não é possível perceber todo o alcance da Boa Nova do Reino. Jesus os ajuda a ter uma visão mais crítica: ''Nem ele, nem os pais dele'' (Jo 9,3). A resposta de Jesus supõe uma leitura diferente da realidade.

Jesus, o Mestre, é o eixo, o centro e o modelo da formação. Pelas suas atitudes, ele é uma amostra do Reino, encarno o amor de Deus e o revela (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). Muitos pequenos gestos refletem este testemunho de vida com que Jesus marcava presença na vida dos discípulos e ds discípulas, preparando-os para a vida e a missão. Era a sua maneira de dar forma humana a experiência que ele mesmo tinha de Deus como Pai: 

.: Envolve-os na missão - Mc 6,7; Lc 9,1-2; 10,1.

.: Na volta, faz revisão com eles - Lc 10,17-20.

.: Corrige-os quando erram e querem ser os primeiros - Mc 9,33-35; 10,14-15.

.: Aguarda o momento oportuno para corrigir - Lc 9,46-48; Mc 10,14-15.

.: Ajuda-os a discernir - Mc 9,28-29.

.: Interpela-os quando são lentos - Mc 4,13; 8,14-21.

.: Prepara-os para o conflito - Jo 16,33; Mt 10,17-25.

.: Manda observar a realidade - Mc 8,27-29; Jo 4,35; Mt 16,1-3.

.: Reflete com eles sobre as questões do momento - Lc 13,1-5.

.: Confronta-os com as necessidades do povo - Jo 6,5.

.: Ensina que as necessidades do povo estão acima das prescrições rituais - Mt 12,7.12.

.: Tem momentos a sós para poder instrui-los - Mc 4,34; 7,17; 9,30-31; 10,10; 13,3.

.: Sabe escutar, mesmo quando o diálogo é difícil - Jo 4,7-42.

.: Ajuda-os a aceitar a si mesmos - Lc 22,32.

.: É exigente e pede para deixar tudo por amor a ele - Mc 10,17-31.

.: É severo com a hipocrisia - Lc 11,37-53.

.: Faz mais perguntas que dá respostas - Mc 8,17-21.

.: É firme e não se deixa desviar do caminho - Mc 8,33; Lc 9,54.

.: Prepara-os para o conflito e a perseguição - Mt 10,16-25.

Este é um retrato de Jesus como formador. A formação do "seguimento de Jesus" não era, em primeiro lugar, a transmissão de verdades a serem decoradas, mas sim a comunicação da nova experiência de Deus e da vida que irradiava de Jesus para os discípulos e discípulas. A própria comunidade que se formava ao redor de Jesus era a expressão desta nova experiência. A formação levava as pessoas a terem outros olhos, outras atitudes. Fazia nascer nelas uma nova consciência a respeito da missão e a respeito de si mesmas. Fazia com que fossem colocando os pés do lado dos excluídos. Produzia, aos poucos, a "conversão" como consequência da aceitação da Boa Nova (Mc 1,15). 

Texto extraído do livro ''CAMINHANDO COM JESUS'' - Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos - Coleção A Palavra na Vida 184/185. CEBI Publicações. 

MARCOS 8, 27- 35: Como segui Jesus

Abrir os olhos para ver

O texto de hoje descreve a cegueira de Pedro que não entende a proposta de Jesus quando este fala do sofrimento e da cruz. Pedro aceita Jesus como messias, mas não como messias sofredor. Ele está influenciado pela propaganda do governo da época que só falava do messias como rei glorioso. Pedro parecia cego. Não enxergava nada e ainda queria que Jesus fosse como ele, Pedro, o queria. Vamos conversar sobre isto!

Situando

No início deste quarto bloco estão a cura de um cego - Mc 8,22-26 -, o anúncio da cruz e a explicação do seu significado para a vida dos discípulos - Mc 8, 27 a 9,1. A cura do cego foi difícil. Jesus teve que realizá-la em duas etapas. Igualmente difícil foi a cura da cegueira dos discípulos. Jesus teve que fazer uma longa explicação a respeito do significado da cruz para ajudá-los a enxergar, pois era a cruz que estava provocando neles a cegueira.

Nos anos 70, quando Marcos escreveu, a situação das comunidades não era fácil. Havia muito sofrimento, muitas cruzes. Seis anos antes, em 64, o imperador Nero tinha decretado a primeira grande perseguição, matando muitos cristãos. Em 70, na Palestina, Jerusalém estava sendo destruída pelos romanos. Nos outros países, estava começando uma tensão forte entre judeus convertidos e judeus não-convertidos. A dificuldade maior era a cruz de Jesus. Os judeus achavam que um crucificado não podia ser o messias tão esperado pelo povo, pois a lei afirmava que todo crucificado devia ser considerado como um maldito de Deus (Dt. 21,22-23). 

Comentado

Marcos 8,27-30: VER 

levantamento da realidade

Jesus perguntou: ''Quem diz o povo que eu sou?'' Eles responderam relatando as várias opiniões do povo: ''João Batista'', ''Elias ou um dos profetas''. Depois de ouvir as opiniões dos outros, Jesus perguntou: ''E vocês, quem dizem que eu sou?'' Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Messias''. Isto é, és aquele que o povo está esperando. Jesus concordou com Pedro, mas proibiu de falar sobre isso ao povo. Por que Jesus proibiu? É que naquele tempo, todos esperavam a vinda do messias, mas cada um do seu jeito: uns como rei, outros como sacerdote, doutor, guerreiro, juiz ou profeta. Ninguém parecia estar esperando o messias servidor, anunciado por Isaías (Is 42,1-9). 

Marcos 8,31-33: JULGAR

esclarecendo a situação - primeiro anúncio da paixão

Jesus começa a ensinar que ele é o Messias Servidor e afirma que, como o Messias Servidor anunciado por Isaías, será preso e morto no exercício da sua missão de justiça. Pedro leva um susto, chama Jesus de lado para desconcertá-lo. E Jesus responde a Pedro: ''Vá embora, Satanás''. Você não pensa as coisas de Deus, mas as dos homens''. Pedro pensava ter dado a resposta certa. De fato, ele disse a palavra certa ''Tu és o Cristo''. Mas não lhe deu o sentido certo. Pedro não entendeu Jesus. Era como o cego de Betsaida. Trocava gente por árvore. A resposta de Jesus foi duríssima ''Vá embora, Satanás''. Satanás é uma palavra hebraica que significa acusador, aquele que afasta os outros do caminho de Deus. Jesus não permite que alguém o afaste da sua missão.

Marcos 8,34-47 - AGIR 

condições para seguir

Jesus tira as conclusões que valem até hoje - Quem quiser vir após mim tome sua cruz e siga-me. Naquele tempo, a cruz era a pena de morte que o Império Romano impunha aos marginais. Tomar a cruz e carregá-la atrás de Jesus era o mesmo que aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça. A cruz não é fatalismo, nem é exigência do Pai. A cruz é a consequência do compromisso livremente assumido por Jesus de revelar a Boa Nova de que Deus é Pai e que, portanto, todos e todas devem ser aceitos e tratados como irmãos e irmãs. Por causa deste anúncio revolucionário, ele foi perseguido e não teve medo de dar a sua vida. Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão. 

Texto extraído do livro ''CAMINHANDO COM JESUS'' - Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos - Mesters e Lopes - Coleção A Palavra na Vida 184/185. CEBI Publicações.

CEBI-M.G.


SEMINÁRIO DE LEITURA POPULAR DA BÍBLIA E CONSTRUÇÃO DE MASCULINIDADES
Nos dias 25 e 26 de agosto de 2012, o CEBI-ES se fez presente no Seminário de Leitura Popular da Bíblia e Construção das Masculinidades, o qual aconteceu na cidade de Contagem-MG, na Grande Belo Horizonte-MG. O responsável por representar o CEBI-ES foi o Bimbo, da Equipe de Formação.
O seminário, que contou com a participação de 24 pessoas (8 mulheres e 16 homens) do CEBI-MG vindas várias cidades do Estado das Minas Gerais além do representante do CEBI-ES, foi assessorado pela Dra Alzira Munhoz (ICAR- Igreja Católica Apostólica Romana) e Dr Adilson Schultz (IECLB- Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil).
Foi um encontro de muitas discussões, aprofundamentos, debates, construções e desconstruções onde todos puderam experimentar ou aprofundar uma leitura de textos bíblicos a partir da temática proposta. 
Não faltaram momentos de oração e espiritualidade.
O Dr. Adilson Schultz, que é Pastor da Igreja Luterana, frisou em sua fala que na sociedade, desde os primórdios, em todos os aspectos, os homens sempre tiverem e tem mais posses do que as mulheres; um caso típico é que cerca de 99% das terras do povo estão em nome dos homens. Isto leva a uma desigualdade muito grande entre homens e mulheres, o que causa uma enorme exclusão. Diante desta situação fica um a pergunta: homens e mulheres têm os mesmos direitos e privilégios?
 A Dra Alzira lembrou que o homem para ser homem tem que cumprir o seu papel ou papéis de ser homem. Nenhum homem nasceu machista; aprendeu a ser. Por isso ele pode aprender a não ser machista.
A avaliação do encontro foi muito satisfatória. Todos que participaram ficaram encantados com a forma de uma leitura libertadora da Bíblia a partir da ótica das masculinidades.
                                                                                                     Bimbo,  Setembro de 2012

07 DE SETEMBRO DE 2012


O 18º Grito dos/as Excluídos/as realizado na Região da Grande Vitória, no Espírito Santo, trouxe o seguinte tema (trabalhado nacionalmente):

“Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta Direitos a toda População.
Foram trabalhados 04 eixos temáticos, organizados em alas, abordando temas específicos, como seguem abaixo:
VIOLÊNCIA
 Violência contra a juventude,
         violência contra a mulher,










         estatísticas do ES,
         violência contra as diversidades sexuais/étnico-raciais,












         violência contra crianças e adolescentes,
         criminalização dos movimentos sociais,
         dependência química,  etc.
GRANDES PROJETOS
  Meio Ambiente, Mobilidade Urbana,
         transportes,
         a entrada do capital estrangeiro no ES,
         instalação de empresas multi e transnacionais.
  
ÉTICA
 Corrupção,
         Mídia,
         Auditoria da Dívida Externa,
         Pragmatismo político,
         Dívida pública,
         Mídia corporativa,
         Honestidade na política,
         Política a serviço do povo
         Mídia democrática.

DIREITOS SOCIAIS
 Criminalização da homofobia,
         Casamento civil igualitário,
         Estado Laico,
         Direito à greve,
         Redução da jornada de trabalho sem redução de salário,
         Defesa das cotas nas universidades,
         Defesa dos territórios quilombolas,
         Contra o racismo institucional,
         10% do PIB para a educação pública já,
         Contra as isenções fiscais, por mais dinheiro para as políticas sociais,
         Banalização da vida, direito à vida digna,
         Educação,
         Saúde,
         Segurança, etc.
  O CEBI-ES




assim como o CONIC-ES












com vários de seus membros,  estiveram presentes nas diversas alas, em especial e prioritariamente na ala do ENFRENTAMENTO  A VIOLÊNCIA, abordando os temas: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER  E VIOLÊNCIA CONTRA  A JUVENTUDE.



Dia do/a trabalhador/a



Dia do/a trabalhador/a. Dia de denunciar todos os direitos negados ao trabalhador/a, direitos que ainda precisam ser alcançados, para que os/as que constroem essa cidade, este país, este lugar, na agricultura, na educação, na limpeza, no comércio, em todas as categorias, tenham sua vida vivida com dignidade, com respeito e sem discriminação.
É preciso coragem para denunciar, principalmente nestes tempos em que aqueles/as que promovem as leis, que ditam as regras, são aqueles/as que nós escolhemos, feito o povo que escolheu Saú como seu representante.
E onde denunciar? E quando denunciar? Sendo denúncia, deveria ser feita na porta daqueles/as que oprimem o povo. Quando sua bolsa ou sua carteira são roubados, onde você denúncia? Certamente vai até a delegacia e faz um registro, na intenção de que as autoridades saibam do acontecido e tomem consciência de que é preciso fazer algo. Sendo denúncia pelos direitos negados ao trabalhador/a, onde denunciar? A quem denunciar? Na favela? Na porta da casa do meu/ vizinho? É o/a meu/a vizinho/a quem escreve as leis? Não. Meu/a vizinho/a vota em um/a representante do nosso povo para que esse possa estar a serviço do povo, na realização de tantas tarefas, dentre elas, a tarefa de elaborar leis que promovam a vida, o respeito às diferenças, a dignidade por ser gente, por ser trabalhador/a. No entanto, hoje vejo que meu/a representante pode votar em seu próprio salário. Que cidade é essa? Que política é essa? Que façamos denúncias, em gritos e em documentos, àqueles que são os/as responsáveis por fazer valer os direitos da população. Que o palco de hoje seja o da denúncia, sem politicagem. Basta de politicagem.
Dia do trabalhador/a. Dia de anúncio. Anunciar que é possível uma nova sociedade, mais justa, uma sociedade que respeite o lugar em que vive, que promova equilíbrio entre a natureza, nossa mãe terra, que nós dá a vida, e seus filhos/as, seres viventes, plantas, árvores, o bem-te-vi, o ypê amarelo, o bicho preguiça, o tuiuiú, os povos diversos que habitam essa terra sagrada, frutos do amor.
Dia do/a trabalhador/a. Dia de celebração. Celebrar as vitórias alcançadas, frutos de tantos/as que deram seu suor, seu trabalho, sua família, seu lazer, seus filhos/as, sua juventude, para ver conquistas alcançadas e dignidade nos olhos de cada mãe, de cada pai, das mulheres crianças, jovens e homens deste lugar. É pelas vidas doadas, pelo sangue derramado em prol da vida, que ainda ousamos cantar e celebrar as lutas e as utopias que acreditamos possíveis, um dia, ser miradas em nosso olhar.
Dia do/a trabalhador/a. Dia de denunciar, de anunciar, de celebrar, cantar e exigir respeito por todos/as, especialmente por àqueles que produzem o pão, as verduras, que plantam o milho, a mandioca, o arroz, que criam vida, a partir da vida maior que nós é dada, que nos alimentam, que semeiam a esperança a cada dia.
Dia do/a trabalhador/a. Dia de exigir respeito por todos/as aqueles/as que trabalham e que merecem ter seus direitos garantidos, para que tenham uma vida justa, o que é direito de todos/as nós.
Façamos valer e acontecer, todos os dias, o dia/a do/a trabalhador/a.
Cariacica, 01 de maio de 2012.
Raquel Passos (cantora)

GRITO DOS EXCLUÍDOS


O QUE É
O Grito dos Excluídos é uma manifestação popular carregada de simbolismo, é um espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos. O Grito dos Excluídos, como indica a própria expressão, constitui-se numa mobilização com três sentidos:
· Denunciar o modelo político e econômico que, ao mesmo tempo, concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social;
·  Tornar público, nas ruas e praças, o rosto desfigurado dos grupos excluídos, vítimas do desemprego, da miséria e da fome;
·  Propor caminhos alternativos ao modelo econômico neoliberal, de forma a desenvolver uma política de inclusão social, com a participação ampla de todos os cidadãos.
Não se trata exatamente de um movimento, uma campanha ou uma organização, mas de um espaço de convergência em que vários atores sociais que se juntam para protestar e propor caminhos novos. As principais manifestações ocorrem no Dia da Independência, pois seu eixo fundamental gira em torno da soberania nacional. O objetivo é transformar uma participação passiva, nas comemorações dessa data, em uma cidadania consciente e ativa por parte da população.
COMO NASCEU E QUEM PROMOVE O GRITO DOS EXCLUÍDOS?
O Grito nasceu de duas fontes distintas, mas, complementares. De um lado, teve origem no Setor Pastoral Social da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), como uma forma de dar continuidade à reflexão da Campanha da Fraternidade de 1995, cujo lema – Eras tu, Senhor – abordava o tema Fraternidade e Excluídos. De outro lado, brotou da necessidade de concretizar os debates da 2ª Semana Social Brasileira, realizada nos anos de 1993 e 1994, com o tema Brasil, alternativo e protagonista. Ou seja, o Grito é promovido pela Pastoral Social da Igreja Católica, mas, desde o início, conta com numerosos parceiros ligados às demais Igrejas do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), aos movimentos sociais, entidades e organizações.
 Nada melhor que o dia 7 de setembro para refletir sobre a soberania nacional. É esse o eixo central das mobilizações em torno do Grito. A proposta é trazer o povo das arquibancadas para a rua. Ao invés de um patriotismo passivo, que se limita a assistir o desfile de armas, soldados e escolares, o Grito propõe um patriotismo ativo, disposto a pôr a nu os problemas do país e debater seriamente seu destino. É um momento oportuno para o exercício da verdadeira cidadania.
QUAIS OS HORIZONTES DO GRITO?
Os movimentos sociais nasceram, em geral, numa oposição direta aos regimes de exceção que, em maior ou menor grau, dominaram por décadas diversos países da América Latina. O combate frontal à ditadura imprimiu nas lutas de oposição, de forma acentuada, a marca da crítica e do não. A urgência em superar o domínio militar deixou pouco espaço para aprofundar os contornos de uma via democrática viável, sólida e duradoura. Nesta perspectiva o Grito dos Excluídos tem como finalidade não apenas a crítica do modelo neoliberal, mas também a preocupação propositiva de buscar alternativas. Daí seu duplo caráter, de protesto e afirmação, de denúncia e anúncio.
O Grito tem, a cada ano, um lema nacional, que pode ser trabalhado regionalmente, a partir da conjuntura e da cultura local. As manifestações são múltiplas e variadas, de acordo com a criatividade dos envolvidos: caminhadas, desfiles, celebrações especiais, romarias, atos públicos, procissão, pré-Gritos, cursos, seminários, palestras…
http://www.gritodosexcluidos.org

Mc 7, 31-37: Acolhendo os excluídos - A mulher cacanéia ajuda jesus a descobrir a Vontade do Pai.

Abrir os olhos para ver

No texto de hoje, veremos como Jesus atende a uma mulher estrangeira de outra raça e de outra religião, o que era proibido pela lei religiosa daquela época. Inicialmente, Jesus não queria atendê-la, mas a mulher insistiu e conseguiu o que queria: a cura da filha. Vamos conversar sobre isso. 

Situando

Jesus vai tentando abrir a mentalidade dos discípulos e do povo para além da visão tradicional. Na multiplicação dos pães, ele tinha insistido na partilha (Mc 6,30-44). Na discussão sobre o puro e o impuro, tinha declarado puros todos os alimentos (Mc 7,1-23). Agora, neste episódio da mulher Cananéia, ele ultrapassa as fronteiras do território nacional e acolhe uma mulher estrangeira que não era do povo e com a qual era proibido conversar. Estas iniciativas de Jesus, nascidas da sua experiência de Deus como Pai, eram estranhas para a mentalidade do povo da época. Cresce para eles o mistério, aparece o não-entender. 

A abertura crescente de Jesus era uma ajuda muito importante para as comunidades do tempo de Marcos. Elas eram um grupo pequeno, perdido naquele mundo hostil do Império Romano. Quando um grupo é minoria, sofre a tentação de se fechar sobre si mesmo. A atitude de abertura de Jesus era um estímulo para as comunidades não se fecharem, mas manterem bem viva a consciência missionária de anunciar a Boa Nova de Deus a todos os povos, como Jesus tinha pedido com tanta insistência. 

Comendando

Mc 7,29-30 - A reação de Jesus

"Pelo que disseste: Vai! O demônio saiu da tua filha!" Nos outros evangelhos se explicita: "Grande é a tua fé! Seja feito como queres!" (Mt 15,28). Se Jesus atende ao pedido da mulher, é porque compreendeu que, agora, o Pai queria que ele acolhesse o pedido dela. Este episódio ajuda a perceber algo do mistério que envolvia a pessoa de Jesus e como ele convivia com o Pai. Era observando as reações e as atitudes das pessoas que Jesus descobria a vontade do Pai nos acontecimentos da vida. A atitude da mulher abriu um novo horizonte na vida de Jesus. Através dela, ele descobriu melhor que o projeto do Pai é para todos os que buscam a vida e procuram libertá-la das cadeias que aprisionam a sua energia. 

Marcos 7, 31- 36: Abrir o ouvido e soltar a língua

O episódio da cura do gago é pouco conhecido. Jesus está atravessando a região da Decápole. Decápole significa, literalmente, Dez Cidades. Era uma região de dez cidades ao sudeste da Galiléia, cuja população era pagã. Um surdo gago é levado a Jesus. O jeito de curar é diferente. O povo queria que Jesus apenas impusesse as mãos sobre ele. Mas Jesus foi muito além do pedido. Ele levou o homem para longe da multidão, colocou os dedos nas orelhas e com saliva tocou na língua, olhou para o céu, fez um suspiro profundo e disse: "Éffata!", isto é, "Abra-se!" No mesmo instante, os ouvidos do surdo se abriram, a língua se desprendeu e o homem começou a falar corretamente. Jesus quer que o povo abra o ouvido e solte a língua! Todo o povo ficou muito admirado e dizia: "Ele fez bem todas as coisas!" (Mc 7,37). Esta afirmação do povo faz lembrar a criação, onde se diz: "Deus viu que tudo era muito bom!" (Gn 1,31). 

Marcos 7, 37: Jesus não quer publicidade.

Ele proibiu a divulgação da cura, mas não adiantou. Quem teve experiência de Jesus vai contar para os outros, queira ou não queira! As pessoas que assistiram à cura começaram a proclamar o que tinham visto e resumiram a Boa Notícia assim: "Ele fez bem todas as coisas".

Às vezes, se exagera a atenção que o Evangelho de Marcos atribui à proibição de divulgar a cura, como se Jesus tivesse um segredo a ser preservado. Na maioria das vezes que Jesus faz um milagre, ele não pede silêncio. Uma vez até pediu publicidade (Mc 5,19). Algumas vezes, porém, ele dá ordem para não divulgar a cura (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26), mas obtém o resultado contrário. Quanto mais proíbe, tanto mais a Boa Nova se espalha (Mc 1,28.45; 3,7-8; 7,36-37). Não adianta proibir! Pois a força interna da Boa Nova é tão grande que ela se divulga por si mesma!

Alargando  

Abertura para os pagãos no Evangelho de Marcos

Na época do AT, na rivalidade entre os povos, um povo costumava chamar o outro de "cachorro" (1Sm 17,43). Isto fazia parte da relação conflituosa que eles tinham entre si, na terra de Canaã, para formar um povo novo com direito à terra, à vida e à identidade própria. O enfrentamento entre Golias, o gigante filisteu, e Davi, o pastorzinho israelita, é uma amostra desta situação. Para Davi, vencer o filisteu pagão era salvar a honra tanto do povo israelita como do Deus vivo (1Sm 17,26). Quando Davi se aproxima para a luta sem as armas tradicionais, mas apenas com um bastão, Golias pergunta: "Será que sou um cachorro?" (1Sm 17,43).

Ao longo das páginas do Evangelho de Marcos, há uma abertura crescente em direção aos outros povos. Assim, Marcos leva os leitores e as leitoras a abrir-se, aos poucos, para a realidade do mundo ao redor e a superar os preconceitos que impediam a convivência pacífica entre os povos. Eis exemplos:

A mulher que Marcos nos apresenta era uma pagã, siro-fenícia de nascimento (Mc 7,26). No passado, nos tempos da rainha Jezabel e do profeta Elias, tinha havido rivalidade entre Israel e o povo da Fenícia ou de Canaã. Mas agora, a mulher não está preocupada com as rivalidades do passado. Ela busca a libertação para a sua filha, dominada por um demônio (Mc 7,26). Ouve falar de um judeu que tem o poder de Deus para libertar do mal. Aqui, já não importam os preconceitos raciais. O que importa é a vida ameaçada da filha, vida oprimida que precisa ser libertada. 

Na sua passagem pela Decápole, região pagã, Jesus atende ao pedido do povo do lugar e cura um surdo gago. Ele não tem medo de contaminar-se com a impureza de um pagão, pois, ao curá-lo, toca-lhe os ouvidos e a língua. Enquanto as autoridades dos judeus e os próprios discípulos têm dificuldades de escutar e entender, um pagão que era surdo e gago passa a ouvir e a falar pelo toque de Jesus. Lembra o cântico do servo: O Senhor Iahweh abriu-me os ouvidos e eu não fui rebelde (Is 50,4-5). 

Ao expulsar os vendedores do templo, Jesus critica o comércio injusto e afirma que o templo deve ser casa de oração para todos os povos (Mc 11,17). Fazendo assim, ele resgata a profecia de Isaías que estendia a salvação aos estrangeiros e manda abolir as restrições da lei que proibia a participação de eunucos, bastardos e estrangeiros na assembleia de Iahweh (Dt 23,2-9).


Na parábola dos vinhateiros homicidas, Marcos faz alusão ao fato de que a mensagem será tirada do povo eleito, os judeus, e será dada aos outros, aos pagãos (Mc 12,1-12). Depois da morte de Jesus, Marcos apresenta a profissão de fé de um pagão ao pé da cruz. Ao citar o centurião romano e seu reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, está dizendo que o pagão é mais fiel do que os discípulos e mais fiel do que os judeus (Mc 15,39).

A abertura para os pagãos aparece de maneira muito clara na ordem final dada por Jesus aos discípulos, depois da sua ressurreição: Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura (Mc 16,15).

Texto extraído do livro "CAMINHANDO COM JESUS". Da Série A Palavra na Vida 182/183 de Carlos Mesters e Mercedes Lopes. Publicação CEBI.