Eleição, aborto e a infantilização da religião

Eleição, aborto e a infantilização da religião

Jung Mo Sung *
Adital -

Por que bispos, padres e grupo religiosos que sempre defenderam a separação radical entre a religião e política, que sempre criticaram a discussão política no âmbito da Igreja ou até mesmo a relação "fé e política", estão fazendo, até mesmo nas missas, campanha aberta contra Dilma? Uma primeira resposta poderia ser: hipocrisia. Respostas moralistas podem satisfazer o "juiz moralista" que todos nós carregamos no mais profundo do nosso ser, mas não são boas para nos ajudar a entender o que está acontecendo. Esta campanha contra a candidatura da Dilma, e com isso o apoio explícito ou implícito à candidatura do Serra, está sendo feita de várias formas, mas com um elemento comum: os católicos e os "crentes" não devem votar nela porque ela seria a favor do aborto e, por isso, contra a vida. Alguns agregam também a acusação de que, se ela for eleita, as TVs católicas e evangélicas seriam proibidas de veicular os programas religiosos ou obrigadas a diminuir o seu tempo de duração. É a velha acusação de que "comunistas" são contra a religião.Essas duas acusações são expressas e justificadas através de lógicas religiosas, e não a partir da "racionalidade leiga" que deve caracterizar a discussão sobre a política hoje. Esses grupos não admitem a distinção entre a religião e a política, ou melhor, não admitem a "autonomia relativa" do campo político e de outros campos -como o econômico- que se emanciparam da esfera religiosa no mundo moderno. Por isso, eram e são contra "fé e política" ou o debate sobre a política no campo religioso, pois esses debates são feitos normalmente a partir do princípio da autonomia relativa da política. Isto é, a discussão sobre questões políticas são feitas com argumentos de racionalidade sócio-política e não submetidos ao discurso meramente religioso. Para esses grupos (é preciso reconhecer que ocorre também em outros grupos político-religiosos), os valores religiosos (do seu grupo) devem ser aplicados diretamente a todos os campos da vida pessoal e social. E, em casos graves como aborto, ser impostos sobre toda a sociedade através das leis do Estado. Nesses casos, não seria misturar a religião com a política, mas seria a "defesa" dos mandamentos e valores religiosos; ou colocar a política a serviço dos valores religiosos (nessa discussão apresentados como "a serviço da vida"). Pois, nada estaria acima dos "mandamentos de Deus". Desta forma não se reconhece a autonomia relativa do campo político, a dificuldade de se passar do princípio ético abstrato (do tipo "defenda a vida") para as políticas sociais concretas, e muito menos se aceita a pluralidade de religiões com valores diversos e propostas de ação divergentes e conflitantes.Esta é a razão pela qual esses grupos não entendem e nem aceitam a resposta dada por Dilma de que ela, pessoalmente, é contra o aborto, mas que ela vai tratar esse tema como um problema de saúde pública. Para ouvidos daqueles que crêem que não há ou não deve haver separação entre a saúde pública (o campo da política social) e a opção religiosa pessoal do governante, a resposta da Dilma soa como eu não sou contra o aborto, que logo é traduzido na sua mente como "eu sou a favor do aborto".E se ela é a favor do aborto, ela é contra a vida e, portanto, ela é do "mal". Enquanto que, por oposição, o outro candidato seria do "bem".Reduzir toda a complexidade da "defesa da vida" -a que um/a presidente deve estar comprometido/a- à manutenção da criminalização do aborto (que é o que está discutido de fato neste debate sobre ser a favor ou contra o aborto) é uma simplificação mais do que exagerada. Simplificação que deixa fora do debate, por ex., toda a discussão sobre políticas econômicas e sociais que afetam a vida e a morte de milhões de pessoas. Mas é compreensível quando os cristãos têm muita dificuldade em perceber quais são os caminhos concretos e possíveis para viver a sua fé na sociedade, perceber em que a sua fé pode fazer diferença na vida social. Diante de tanta complexidade, a tentação mais fácil é simplificar o máximo para separar "os do bem" de "os do mal".Essa simplificação me lembra a pergunta que os meus filhos, quando muito pequenos, me faziam ao assistir um filme: "pai, ele é do bem?" Se sim, eles torciam por aquele que "é do bem" contra o "do mal". Essa necessidade de separar os do bem e os do mal faz parte da condição mais primária do ser humano. O problema é que reduzir toda a complexidade da luta em favor da vida ao tema de ser favor ou contra a manutenção da criminalização do aborto é infantilizar a discussão política e, o que é pior, é infantilizar a própria religião que professa.[Autor, em co-autoria com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece na luta em favor dos pobres"].
* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo

CEBI E AS ELEIÇÕES

Olá CEBI-ES!

Em função do segundo turno das eleições, a Direção Nacional do CEBI toma a liberdade de fazer chegar até você seu posicionamento público. Pedimos que leia com carinho e divulgue.

Nota da Direção Nacional do CEBI em relação ao 2º Turno das Eleições

Não é bom para a democracia que alguns decidam pelos outros (...) Mas é pior ainda para a religião, seja qual for, pressionar os seus adeptos para que votem em determinados candidatos, ou proibir que votem em determinados outros em nome de convicções religiosas. A religião que não é capaz de incentivar a liberdade de consciência dos seus seguidores, que se retire de campo. Seja quem for, bispo, padre, pastor, ninguém se arrogue o direito de decidir pela consciência do outro." (Dom Demétrio Valentin)
"A Aliança de Batistas do Brasil vem a público levantar o seu protesto contra o processo apelatório e discriminador que nos últimos dias tem associado o Partido dos Trabalhadores às forças da iniquidade. Lamentamos a participação de líderes e igrejas cristãs nesses discursos e atitudes, que lembram muito a preparação das fogueiras da inquisição". (Pronunciamento da Aliança de Batistas do Brasil)
Chamando a atenção para as palavras das lideranças religiosas acima citadas, a Direção Nacional do CEBI vem a público denunciar as práticas de setores de algumas igrejas que buscam forçar seus fiéis a não votar em certa candidatura por meio de informações manipuladas ou falsas, acerca de temáticas de cunho ético, como, aborto, união civil de pessoas do mesmo sexo ou outras.Denunciamos que esse tipo de manipulação religiosa, do ponto de vista legal é crime de preconceito e de incitação à intolerância; e do ponto de vista religioso, é atitude contrária ao Evangelho de Jesus Cristo. Reforçamos que a liberdade de consciência é direito inalienável da pessoa humana e que não é papel das instituições religiosas estimular a intolerância religiosa. Certas apelações e alguns temas que tentam implantar medo e terrorismo no imaginário do povo, já foram tentados nas eleições de 1989, resultando, naquela ocasião, na derrota das forças progressistas.Reconhecemos que as duas candidaturas que disputam o 2º turno têm posturas próximas do ponto de vista econômico, ambiental, ético, moral e religioso. Entretanto, entendemos que a candidata do PT ainda significa a possibilidade de maior investimento no campo social e de menor perseguição às lutas populares.É imprescindível que cada cidadão e cidadã decida seu voto com base em avanços ou retrocessos na qualidade de vida do nosso povo. Sugerimos que a sociedade livremente avalie as melhorias que as populações empobrecidas tiveram nos últimos oito anos e apoie sua continuidade. E que se organize ainda mais para a cobrança do que é direito do povo e dever do Estado.
Leia abaixo outras notas e artigos de lideranças religiosas sobre o processo eleitoral!
Notícias
Líder das Assembleias de Deus desmente boatos sobre DilmaLeia mais
Nome da CNBB está sendo usado para enganar fiéis, afirma notaMuitos grupos, em nome da fé cristã, têm criado dificuldades para o voto livre e consciente, usando o nome da CNBB, induzindo erroneamente os fiéis a acreditarem que ela tivesse imposto veto a candidatos nestas eleições. Leia mais
Eleições: a credibilidade da CNBB posta em xeque - Dom Demétrio Vanlentini"A credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque, existe uma falácia que precisar ser desmontada: o nome da CNBB foi invocado com posições que não são dela para criticar Dilma Rousseff" Leia mais
Aliança de Batistas do Brasil faz pronunciamento sobre Eleições 2010Leia mais
Cidadania
Carta aberta a Dom Demétrio - José ComblinSe os bispos não protestarem contra a manipulação que se fez do seu documento, serão cúmplices da manipulação e aos olhos do público serão vistos como cabos eleitorais.Leia mais
Equipe CEBICEBI - Centro de Estudos BíblicosVisite nosso site: www.cebi.org.br

Programa A Palavra na Vida - Rádio América 690 AM


Amigas e amigos!

A partir de 10 de outubro de 2010, iniciamos um novo horário com o

Programa A Palavra na Vida.

Estamos ao vivo, às 17 horas, todos os domingos.


RÁDIO AMÉRICA AM 690

A rádio da Arquidiocese de Vitória

Contamos com a audiência, participação e divulgação de todas e todos.
Um Grande abraço,
Fatinha (pela equipe de Secretaria)

CEBI-ES - Centro de Estudos Bíblicos do Espírito Santo

Rua Duque de Caxias, 121 Ed. Juel, Sala 206 Centro - Vitória - ES

Cep: 29010-120 Tel.: (27) 3223-0823/(27) 9945-2068

Fazer memória e celebrar a vida expressa no trabalho de tantas mãos!

No início do ano de 2006, uma nova semente foi lançada no seio da terra do CEBI-ES: a proposta de ampliarmos nossa participação na Rádio América AM 690. Nossa participação semanal, ao vivo na maioria das vezes, tinha duração de cinco minutos dentro de um chamado “Sintonia de amigos”, no quadro “com a bíblia na mão”, apresentado por Vanda Simas, amante e parceira do CEBI.

A nova proposta ampliou horizontes, trouxe desafios e nos encheu de esperança. Trilhar um caminho que nos aproximaria ainda mais do povo, deu vida a projetos acalentados pelos limites que são próprios dos grupos de resistência como o nosso. A proposta de ampliar nossa participação na rádio de cinco minutos para uma hora de programa ao vivo, com produção e apresentação do próprio CEBI-ES, trouxe questionamentos e reflexão ao grupo. As discussões ocorreram dentro da normalidade que é peculiar a grupos que tem objetivos comuns e o direito de expressar opiniões diferentes. Enfim, chegamos à decisão de abraçar o desafio.

Esta experiência, além de multiplicar idéias e ações libertadoras, trouxe até nós crescimento imensurável, parcerias que de forma recíproca fortaleceu e abriu espaço para mulheres, homens, entidades, grupos populares, entre outros;
O programa “A Palavra na Vida” traz em sua essência o chão da vida que é a realidade das pessoas, o texto bíblico que ilumina a vida e o compromisso de agir concretamente para um mundo onde a justiça e a paz sejam comuns a todos.

O programa de estréia foi em março de 2006. Até a presente data produzimos e apresentamos o programa que vai ao ar sempre aos domingos, de 10h - 11h. Após quase cinco anos de trabalho, as negociações e parceria com a rádio continuam, para que haja um melhor desenvolvimento bíblico dentro da programação.

Neste segundo semestre de 2010, foi disponibilizado um horário no domingo à tarde, no qual vamos trabalhar a partir de outubro. Este ano, devido aos compromissos assumidos de assessorias bíblicas e a correria pessoal de cada participante do CEBI, vamos continuar com duração de uma hora e sem alterações nos quadros. Mas, tem novidades para 2011...! A proposta feita pelo coordenador da rádio América AM 690, Cleilton, que deixa transparecer por meio de suas atitudes, o respeito e carinho que tem pelo grupo, ‘abriu o leque’, sugeriu que o programa passe de uma hora de apresentação para duas horas com possibilidade também de renovação nos quadros já existentes. As propostas serão discutidas e planejadas em nossa assembléia estadual que se realizará de 03 a 05 de dezembro de 2010.

Queremos partilhar nossa alegria e celebrar junto a tantas vidas que foram fiando, desfiando e tecendo novas possibilidades de vivenciar a Divina Sabedoria, que pode ser menina e menino brincado na arte de viver e recriar a Vida.

Izalete Armani
CEBI - ES